
Município ocupa desde 2019 o topo dos indicadores de devastação ambiental do Acre e concentrou 21% de toda a área desmatada no estado em 2025. Com a chegada dos meses mais críticos do verão amazônico, MPF e MPAC cobram presença permanente da fiscalização federal. Intensificação da estiagem pelo fenômeno El Niño e afrouxamento das fiscalizações em período eleitoral preocupam.
dos varadouros de Rio Branco
O verão amazônico avança sobre o Acre à medida que julho caminha para o fim e agosto se aproxima. Com ele, cresce a preocupação com a repetição de um cenário que há anos transforma a floresta em fumaça. Agosto e setembro, meses historicamente mais críticos para as queimadas e o desmatamento no estado, aproximam-se tendo novamente o município de Feijó, no Vale do Envira, como uma das regiões mais vulneráveis.
Localizado na região central do Acre, Feijó ocupa desde 2019 o topo dos indicadores estaduais de destruição da floresta e ocorrência de focos de calor. Agora, diante da perspectiva de agravamento da estiagem no segundo semestre de 2026, influenciado pelo fenômeno climático El Niño, os ministérios públicos Federal (MPF) e do Estado do Acre (MPAC) querem que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mantenha uma presença permanente no município.
Em recomendação conjunta encaminhada à presidência do órgão em Brasília, o MPF e o MPAC cobraram a instalação de uma unidade técnica do Ibama em Feijó ainda neste ano. A estrutura deverá fortalecer as ações de fiscalização, prevenção e combate ao desmatamento, às queimadas e aos incêndios florestais na região central do estado.
A recomendação foi assinada pelo procurador da República Luidgi Merlo Paiva e pela promotora de Justiça Giovana Kohata.
Uma ação necessária não somente ante o grave histórico de desmate e fogo no município, além da perspectiva de uma estiagem mais severa que amplia os riscos de incêndios florestais, mas, principalmente, por conta do calendário da disputa eleitoral de 2026. É justamente neste período que acontece o afrouxamento das ações de fiscalização e combate aos crimes ambientais na zona rural. Uma estratégia adotada para não se perder popularidade e, consequentemente, votos.
Maior município acreano em extensão territorial, Feijó possui mais de 24 mil quilômetros quadrados – uma área superior à de estados como Sergipe e Alagoas. Dentro de seus limites estão localizadas sete terras indígenas, além de extensas áreas de floresta pública, comunidades indígenas e populações ribeirinhas.
E é essa imensa vastidão territorial que faz de Feijó – junto com a vizinha Tarauacá – ser a região mais pressionada pelo avanço do desmatamento, das queimadas e da grilagem no Acre. Apesar de parte do território estar demarcada como terra indígena, uma outra imensa área aparece como terra não destinada – o que pode explicar o fato de Feijó ocupar o topo da devastação da Floresta Amazônica no Acre ao longo dos últimos oito anos.
A própria pavimentação da BR-364, entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul – transformou Feijó e toda a região oeste do Acre na nova rota do desmatamento e das queimadas.
Levantamento da Secretaria de Estado do Meio Ambiente mostra que, considerando os anos florestais de 2019, 2020 e 2021, Feijó acumulou 33,4 mil hectares desmatados. Foi a maior área destruída entre todos os municípios acreanos naquele período, à frente de Sena Madureira, Rio Branco e Tarauacá. A nota técnica utiliza dados do Prodes, sistema oficial de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
A liderança negativa atravessou os anos seguintes. Em 2024, Feijó perdeu 9.268 hectares de vegetação nativa. No ano passado, mesmo com uma redução de 51,7%, voltou a liderar o desmatamento no Acre, com 4.478 hectares de floresta derrubados – o equivalente a 21% de toda a área devastada no estado em 2025. Os números constam no Relatório Anual do Desmatamento (RAD) no Brasil, produzido pela rede MapBiomas Alerta.

O município também lidera os registros de fogo. Em 2019, primeiro ano da atual sequência crítica, foram identificados 1.078 focos de calor em Feijó – quase 16% das ocorrências registradas em todo o Acre. Naquele ano, Sena Madureira apareceu em segundo lugar, com 856 focos, seguida por Tarauacá, com 722.
Em 2025, segundo dados do programa BD Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Feijó respondeu por 14,7% dos focos de calor no Acre (ou 322 focos) – ficando atrás apenas de Tarauacá. Um número bem abaixo do registrado no crítico ano de 2024, quando Feijó ocupou a liderança entre os 22 municípios acreanos no registro de focos de calor: 1.802 – ou 20,8% do total.
No primeiro semestre de 2026, Feijó respondeu sozinho por 26,8% dos focos de calor identificados no território acreano. O município também chegou a ocupar a segunda posição entre todos os municípios da Amazônia Legal com maior área sob alerta de desmatamento no período, segundo dados do Imazon citados pelo Ministério Público.


Fiscalização distante
O município também lidera os registros de fogo. Em 2019, primeiro ano da atual sequência crítica, foram identificados 1.078 focos de calor em Feijó – quase 16% das ocorrênciaFiscalização distante Apesar da dimensão territorial de Feijó e da permanência dos indicadores ambientais negativos, o Ibama não possui uma equipe instalada no município.
Atualmente, a estrutura descentralizada do órgão no Acre está concentrada na Superintendência em Rio Branco e nas unidades técnicas de Cruzeiro do Sul e Brasileia. Essa distribuição deixa toda a região central do estado sem presença institucional permanente da fiscalização ambiental federal.
A maior intensificação da presença do Ibama ocorre exatamente neste período crítico das queimadas, com o fortalecimento das brigadas do PrevFogo. A unidade mais próxima de Feijó é a de Sena Madureira – outro município acreano de vasta extensão territorial e crítico na ocorrência de desmatamento e fogo. Os brigadistas também precisam atender, quando necessário, casos graves em Bujari e Manoel Urbano.
Na avaliação dos ministérios públicos, a distância dificulta o atendimento rápido às denúncias, aos alertas de desmatamento e às ocorrências de incêndios florestais. Também eleva os custos e o tempo de deslocamento das equipes enviadas de outras cidades.
Manifestações técnicas produzidas pelo próprio Ibama apontam que uma unidade em Feijó poderia atender uma área correspondente a quase 30% do território acreano, além de alcançar parte do Amazonas e da faixa de fronteira entre Brasil e Peru.
A estrutura ajudaria a reduzir os custos logísticos das operações, acelerar a resposta aos alertas emitidos pelos sistemas de monitoramento e ampliar a capacidade de fiscalização em uma das regiões mais sensíveis da Amazônia Sul-Ocidental.
Prazo até o fim do ano
O MPF e o MPAC concederam prazo de 30 dias para que o Ibama apresente um plano de trabalho destinado à implantação e ao início do funcionamento da unidade até 31 de dezembro de 2026. O documento deverá apresentar cronograma, previsão orçamentária, adequação da estrutura física existente no município, recomposição do quadro de servidores e edição dos atos administrativos necessários para formalizar a nova unidade.
Os órgãos também recomendaram que o Ibama solicite ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos a convocação de candidatos aprovados no cadastro de reserva do concurso público em vigor. Os novos servidores poderiam reforçar a Superintendência do Acre e formar a equipe destinada a Feijó.
Caso a implantação definitiva não seja possível até o fim do ano, o Ministério Público cobra medidas emergenciais. Entre elas estão a criação de uma sala de situação permanente para acompanhar os alertas ambientais e a instalação de uma base avançada do Ibama, com equipes em sistema de revezamento e estrutura logística própria.
Independentemente da resposta sobre a criação da unidade, a recomendação determina que o órgão mantenha e intensifique, durante todo o segundo semestre, as operações de combate aos incêndios florestais e ao desmatamento em Feijó e nos municípios vizinhos.

A recomendação conjunta não trata apenas da instalação de mais uma repartição pública. Trata da presença efetiva do Estado em um território no qual a floresta, as terras indígenas e as populações tradicionais enfrentam, ano após ano, o avanço das motosserras e do fogo – elevando as pressões da atividade agropecuária e da abertura de estradas e de ramais sobre uma das região mais sensíveis da Amazônia acreana.s registradas em todo o Acre. Naquele ano, Sena Madureira apareceu em segundo lugar, com 856 focos, seguida por Tarauacá, com 722.
Em 2025, segundo dados do programa BD Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Feijó respondeu por 14,7% dos focos de calor no Acre (ou 322 focos) – ficando atrás apenas de Tarauacá. Um número bem abaixo do registrado no crítico ano de 2024, quando Feijó ocupou a liderança entre os 22 municípios acreanos no registro de focos de calor: 1.802 – ou 20,8% do total.
No primeiro semestre de 2026, Feijó respondeu sozinho por 26,8% dos focos de calor identificados no território acreano. O município também chegou a ocupar a segunda posição entre todos os municípios da Amazônia Legal com maior área sob alerta de desmatamento no período, segundo dados do Imazon citados pelo Ministério Público.



