
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
O ex-governador do Acre e candidato ao Senado pelo Progressistas, Gladson Cameli, classificou como “perseguição” a operação da Polícia Federal que realizou buscas em sua residência na terça-feira (22), resultando na apreensão de ao menos três veículos de luxo. Em vídeo publicado nesta quarta-feira, 11 dias antes do primeiro turno, ele questionou o momento da ação, alegou que informações teriam chegado antes a adversários políticos e afirmou que seguirá em campanha.
A acusação de Gladson inverte o foco da investigação que a PF apresentou ao público. Deflagrada junto com a Ptolomeu IV, a Operação Umbra apura a existência de um núcleo de contrainteligência estruturado para obter informações sobre ações policiais, acompanhar equipes e viaturas e antecipar diligências.
Segundo a corporação, a finalidade seria permitir que investigados em fases anteriores da Ptolomeu reduzissem a eficácia de medidas determinadas pela Justiça. A PF também investiga o possível repasse indevido de informações por um ex-servidor terceirizado e por um agente da própria instituição.
A suspeita de que pessoas próximas a Gladson tentaram dificultar a Ptolomeu não começou nesta semana. Em dezembro de 2021, dias após a primeira fase da operação, a PF apontou indícios de um conluio entre servidores para obstruir a investigação e preservar provas fora do alcance dos agentes.
A então chefe de gabinete do governador, Rosângela Gama, foi presa preventivamente; imagens divulgadas na época mostraram o que os investigadores interpretaram como uma tentativa de ocultar um aparelho celular.
Reportagem do Estadão também relatou que a PF examinava o decreto de ponto facultativo assinado por Gladson no dia de uma operação como possível ato de obstrução.
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E 5 anos depois…
A residência de Gladson esteve entre os locais alcançados pelas buscas das operações deflagradas pela PF na terça (22), segundo a cobertura da operação. Isso torna indispensável esclarecer o que a PF atribui especificamente ao ex-governador.
Ser alvo de uma busca, contudo, não autoriza afirmar que ele pessoalmente comandou ou participou do monitoramento dos policiais: a nota pública da corporação não apresenta essa conclusão individualizada. A alegação de Gladson de que a PF teria vazado a operação para beneficiar adversários também precisa ser demonstrada.
As diligências federais ocorreram em duas frentes. Além da suposta tentativa de antecipar ações policiais, a Ptolomeu IV investiga contratos da construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).
Auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) apontou possível superfaturamento de cerca de R$ 1,2 milhão por serviços medidos e pagos que não teriam sido concluídos. As duas operações cumpriram, juntas, 28 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Superior Tribunal de Justiça.
O caso chega a uma campanha já atravessada por outra investigação sobre o possível uso de vínculos com o poder público em uma disputa política. Em 16 de setembro, a Polícia Civil deflagrou a Operação Algoritmo Cidadão para apurar ataques digitais coordenados contra Alan Rick, candidato ao governo pelo Republicanos.
Reportagens locais apontaram ocupantes de cargos comissionados do Estado entre as pessoas investigadas. Mailza Assis (PP) negou ter autorizado ou conhecido os ataques; o delegado responsável não confirmou envolvimento da governadora.
Não há informação pública de que a Algoritmo Cidadão e a Umbra investiguem o mesmo grupo. Reunidas, porém, elas colocam diante do Acre duas perguntas que ultrapassam a disputa entre candidatos: houve uso de cargos ou recursos públicos para atacar um adversário?
E quem tentou obter informações sobre operações federais para proteger alvos de investigações de corrupção? As respostas dependem da análise das provas e da identificação da responsabilidade de cada pessoa envolvida.
Gladson tem o direito de contestar as buscas e pedir a apuração de qualquer vazamento que alegue ter ocorrido. O eleitor também tem o direito de saber por que a PF investiga uma estrutura que, segundo ela, monitorava seus passos em benefício de investigados da Ptolomeu. A proximidade das urnas aumenta a urgência dessas respostas. Não diminui a gravidade dos fatos sob investigação.
