Cinco milhões de mudas florestais ajudam Rondônia a conservar o verde e dão renda a 1 mil famílias

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Montezuma Cruz
Dos varadouros de Porto Velho

Em seu caminho para apoiar pequenos agricultores e assentados, o Centro de Inovação da Amazônia Rioterra anunciou em Porto Velho o início da edição número 2 do projeto Quintais Amazônicos, desenvolvido em 15 municípios, dos 52 que formam este estado amazônico ocidental. A campanha, segundo explicou a presidente da organização, Fabiana Barbosa Gama, visa renda e conservação ambiental. As culturas do açaí, banana e cacau não desmatam.

A participação nos projetos Rioterra no Acre e em Rondônia é gratuita e simples: basta que o agricultor familiar possuir até 240 hectares, cadastro ambiental rural, documento da propriedade, e se comprometer a participar das atividades de capacitação e assistência técnica.

A primeira biofábrica de mudas Rondônia deverá trabalhar com 1.500 propriedades irrigadas e adubadas, capacitando 800 produtores (100 mulheres) que terão ao dispor 5 milhões de mudas florestais e produtivas, visando renda a partir das culturas do açaí, banana e cacau.

Solange Walsak Simão, paranaense de São Miguel do Iguaçu, valoriza com entusiasmo o apoio recebido da Rioterra em seu sítio Aparecida do Norte, na Estrada Velha da Mibrasa, Km 3, em Itapuã do Oeste, Rondônia. “Quando eu conquistei meu pedaço de terra só ouvia desestímulo: falavam que era degradada, não tinha reserva florestal e nada produzia.” Largou essa conversa de lado em 2015 e foi plantar café, classificando-se em 1º lugar da Região Madeira-Mamoré, durante o 8º Concafé Rondônia promovido pelo governo estadual.  

Nas décadas de 1960 e 1980, Itapuã não existia com esse nome; era território explorado por grupos mineradores de cassiterita (estanho), da qual Rondônia ainda é o primeiro produtor nacional.

Paranaense Solange Walsak se diz feliz por recuperar terra degradada em antiga área de mineração (Foto M.Cruz)


Beneficiados

O projeto Quintais Amazônicos 2 atua em 15 municípios da BR-364 e em seu entorno, ensinando agricultores familiares e assentados a cuidar do solo: Alto Paraíso, Ariquemes, Cacoal, Candeias do Jamari, Cacaulândia, Itapuã do Oeste, Jaru, Mirante da Serra, Nova União, Ouro Preto do Oeste, Porto Velho, Teixeirópolis, Theobroma, Urupá e Vale do Paraíso. 

Vizinha de um sojicultor, Solange Walsak aprendeu a cultivar o café próximo à floresta, sem devastá-la, e ali também plantou laranja, limão, mamão e outras frutas que deram à propriedade a marca da sustentabilidade. Tendo o que colher e vender, ela sentiu-se realizada. “Eu saía jogando sementes de leguminosas em meus três hectares e vi tudo crescer”, disse lembrando ter preferido o uso de adubo feito com esterco de galinha. 

Itapuã do Oeste, a 105 quilômetros de Porto Velho, é considerado “município berço da agricultura familiar.” A Rioterra qualifica a agricultura familiar para que obtenha o selo de qualidade de seus produtos.

Mudas resistentes a fungos vêm sendo distribuídas entre agricultores que rejeitam herbiquímicos (Foto Ana Duzanowski)


“Eu já participei de três projetos e digo que todos eles me beneficiaram muito, porque vieram com assistência técnica e calcário que eu aproveitei bem”, conta Solange lembrando que no começo “catava no quintal dos vizinhos tudo o que servia de adubo orgânico.” “Posso afirmar que recuperei toda a minha área, plantando 15 mil árvores consorciadas com frutíferas e me envolvi no controle de pragas. 

No ano passado, Solange sentiu quando o vizinho aplicou herbicida em sua lavoura de soja causando o desfolhamento de suas árvores, mas não derrubando plantas, que também foram protegidas pelo vento. 

“Eu vejo que é responsabilidade de cada um plantar frutíferas, mas também mudas florestais, porque uma vem cuidar da outra; vejo que o Quintais 2 chega com tecnologia mais avançada para nos ensinar”, aconselhou. 

“Quem pude entrar, mergulhe de cabeça, para que dentro de oito a dez anos possa colher os frutos no tempo que eu consegui, por exemplo, com minhas lavouras de açaí e pupunha; desde antes eu via meus pequis produzindo, enxergava meu futuro”, apelou. 

Só o Acre tem desempenho semelhante no âmbito das experiências da Rioterra. Em Rondônia, a banana, por exemplo, foi contemplada com a distribuição de 1 milhão de mudas geneticamente de altíssima qualidade.

Mil famílias já contam com assistência técnica. Durante o anúncio do projeto, no final da semana passada em Porto Velho, o especialista Elisafan Sales e o representante do Sebrae, Desóstenes Nascimento, se comprometeram a ampliar o apoio. Ambos gostaram dos resultados obtidos pela Rioterra desde 2015.

Segundo Nascimento, em outubro deste ano o Sebrae realizará a 1ª Reunião de Integração Geográfica do Vale do Jamari.

O coordenador de projetos, Alexis Bastos, elogia o cadastro ambiental rural (Foto M. Cruz)


O cacau também ganha impulso com o funcionamento da Escola Fábrica de Chocolate, projetada pelo Instituto Federal de Rondônia em Jaru. Futuramente, essa unidade deverá exportar produtos rondonienses para países europeus. 

Rioterra contribui para o fortalecimento de 50 associações rurais fortalecidas, com 15 núcleos municipais e um núcleo estadual do cacau.

Primeira organização não-governamental a pagar por serviços ambientais no País, a Rioterra totaliza 742 hectares recuperados no estado. Solange faz parte do grande grupo familiar que obteve renda no valor de R$ 415 milhões. 

Até hoje, mais de 34 mil agricultores foram atendidos pelos projetos da organização, apoiados pelo Fundo Amazônia, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desde o projeto Plantar. 

Projeto que proporciona renda ao pequenos põe a Rioterra no topo conservacionista no estado (Foto Ana Duzanowski)

Em 1º outubro deste ano, o Centro Rio Terra inteira 27 anos de atividades. “Nosso projeto é agregador”, disse a sua presidente, Fabiana Barbosa Gama. “Sem o envolvimento de órgãos parceiros, seria difícil levar os benefícios à ponta”, emenda o coordenador geral de projetos Alexis Bastos.

Para ele, o cadastro ambiental rural é a alavanca para evitar qualquer segregação na agricultura familiar. “Quando pais e filhos reúnem condições de trabalho na propriedade regularizada e que conserva o solo, todos têm apoio.” 

“Também fazemos de tudo para apoiar indígenas e extrativistas”, assegurou.  

NÚMEROS E METAS DA RIOTERRA

 Formar 3 mil hectares foram recuperados com Sistemas Agroflorestais (SAFs). 

► Produzir 5 milhões de mudas florestais e apoiar 1 mil famílias com assistência técnica especializada.  

► Fazer funcionar 200 vitrines tecnológicas em propriedades rurais de referência, e instalar estruturas de secagem, fermentação e beneficiamento do cacau. 

► O Fundo Amazônia, do BNDES investiu R$ 55,4 milhões nos 15 municípios de atuação direta 

► Entre os órgãos parceiros, a Rioterra alinha o apoio do Senar, Federação da Agricultura e Pecuária (Faperon), ICMBio, OCB-RO, Emater e Sebrae. O Centro Rioterra espera obter também ajuda da Secretaria Municipal da Agricultura de Porto Velho, notadamente, para o transporte e comercialização de produtos. 

► Rioterra formará duzentas vitrines tecnológicas em propriedades de referência.

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