
Há algo profundamente errado quando a presença da Polícia Federal nos corredores do poder deixa de causar surpresa. Nesta terça-feira, 22 de setembro, o Acre acordou novamente sob o impacto de operações policiais envolvendo a estrutura do Estado. Ptolomeu IV e Umbra cumpriram 28 mandados de busca e apreensão, investigando suspeitas de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e até a existência de um núcleo criminoso organizado para obter informações sobre movimentações da própria Polícia Federal e antecipar suas ações.
Não se trata de um episódio isolado – infelizmente. É mais um capítulo de uma crise política e institucional que acompanha o Acre desde a chegada de Gladson de Lima Cameli ao Palacio Rio Branco – em 2019. Aliás, a própria sede do Poder Executivo foi “invadida” pela PF, graças a Gladson. Não por acaso esta é a imagem que ilustra este Editorial. Uma das imagens mais tristes da história recente do Acre. Ver o prédio-símbolo da nossa construção enquanto um Estado Federativo e sociedade ser alvo de mandados judiciais em operações de combate à corrupçao seria, no mínimo, motivo de indignação e revolta pelo autoidentificado “cidadão de bem”
A dimensão dessa crise deixou há muito tempo o terreno das denúncias políticas. Em maio deste ano, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça condenou Gladson Cameli a 25 anos e nove meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitações.
O tribunal determinou, ainda, pagamento de indenização de R$ 11,785 milhões ao Estado. No acórdão, o STJ foi particularmente contundente ao afirmar que as provas demonstraram a instalação de uma organização criminosa no âmbito do Poder Executivo acreano destinada ao desvio de recursos públicos em benefício de Cameli e familiares. É uma constatação judicial de extraordinária gravidade para a história política do Acre.
E nem a condenação encerrou o problema. No mesmo período, o STJ recebeu outra denúncia contra Cameli, desta vez relacionada a supostas irregularidades nas obras da AC-405, em Cruzeiro do Sul. Agora, a Ptolomeu IV investiga contratos da construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre. Auditoria da Controladoria-Geral da União apontou aproximadamente R$ 1,2 milhão em possível superfaturamento por serviços pagos que não teriam sido integralmente executados.
A investigação apura, ainda, se dinheiro proveniente de contratos públicos foi utilizado para despesas particulares e vantagens indevidas a agentes públicos. São acusações que precisam percorrer o devido processo legal, mas cuja sucessão revela a profundidade da crise institucional instalada no Estado.
Talvez o aspecto mais perturbador das novas investigações seja outro. A Operação Umbra apura a existência de uma estrutura de contrainteligência criada para acompanhar movimentações de equipes e viaturas da Polícia Federal, antecipar operações e reduzir a eficácia de medidas judiciais. A PF investiga, inclusive, o possível repasse indevido de informações por um ex-servidor terceirizado e por um agente da própria instituição. Se comprovados, esses fatos mostrarão que a crise ultrapassou os limites tradicionais das suspeitas de corrupção administrativa e alcançou a própria capacidade do Estado de investigar aqueles que ocupam ou ocuparam o poder.
Durante anos, o Acre assistiu a operações, buscas, apreensões, decisões judiciais, denúncias e processos envolvendo personagens ligados ao núcleo do poder estadual.
O governo que deveria concentrar suas energias em administrar um dos estados socialmente mais vulneráveis do país passou parte significativa de sua trajetória política respondendo a crises produzidas em torno da própria máquina pública. A Polícia Federal deixou de aparecer diante do poder acreano como acontecimento excepcional. Essa normalização talvez seja uma das heranças mais nocivas desse período: acostumar a sociedade ao extraordinário.
E o preço de uma crise institucional prolongada não pode ser medido apenas nos valores apontados pelos processos. Ele também aparece nas oportunidades desperdiçadas por uma sociedade vulnerável que necessita, desesperadamente, de um Estado eficiente.
Em 2025, o rendimento domiciliar mensal per capita do Acre foi de apenas R$ 1.392. Em um território marcado historicamente por pobreza, desigualdade, precariedade dos serviços públicos, violência e forte dependência econômica do próprio Estado – a chamada “economia do contracheque” -, cada recurso público desviado significa dinheiro que deixou de servir à população.
Talvez um dos retratos mais emblemáticos desta crise na qual Gladson Cameli mergulhou o Acre seja a notícia, em junho do ano passado, de crianças tendo que transformar um curral numa escola, na comunidade rural do Limoeiro, no Bujari. Crianças sem merenda escolar e transporte – tendo que ir para a tal “escola” a galope de cavalo. Agora, sabemos que a Secretaria de Educação, vejam só, está arrolada numa investigação que apura o desvio de R$ 30 milhões.
É por isso que a discussão sobre Gladson Cameli não pode ser reduzida ao destino pessoal de um político. O problema é maior. Trata-se de perguntar o que aconteceu com as instituições acreanas durante esse ciclo político e quais práticas, relações e estruturas permaneceram depois dele. Governos passam. Redes de interesses, métodos de ocupação da máquina pública e relações entre poder político e poder econômico podem permanecer. Combater a corrupção significa também impedir que aquilo que a tornou possível sobreviva aos seus protagonistas.
Também é necessário preservar uma distinção fundamental. Existem fatos julgados e existem fatos ainda investigados. Gladson Cameli foi condenado pelo STJ; outras acusações continuam submetidas ao devido processo legal. Pessoas investigadas têm direito à defesa e à presunção de inocência nos casos ainda sem julgamento.
Essa cautela jurídica, porém, não obriga a sociedade acreana a tratar como normal a sucessão de investigações que alcançam o coração do poder público. Pelo contrário: exige instituições independentes, transparência radical nos contratos públicos e fiscalização permanente sobre quem administra o dinheiro da população.
O Acre não pode continuar discutindo seu futuro olhando permanentemente pelo retrovisor das operações policiais. Há problemas urgentes demais esperando respostas: pobreza, desigualdade, violência, crise climática, isolamento econômico, infraestrutura precária, saúde, educação e falta de oportunidades para milhares de jovens.
Hoje vivemos uma diáspora acreana, com milhares de jovens indo embora de nosso estado em busca de melhores condições de vida Brasil afora. Vivemos num Acre sem perspectiva de futuro.
A energia política do Estado deveria estar concentrada nisso. Quando sucessivas crises envolvendo corrupção dominam a agenda pública, perde a política, perde a administração e, sobretudo, perde uma população que depende profundamente da capacidade do Estado de funcionar.
A maior ruptura que o Acre pode fazer com esse período, portanto, é institucional. Investigar até o fim, responsabilizar quem for condenado, recuperar recursos desviados, proteger os órgãos de controle e impedir que estruturas públicas sejam novamente capturadas por interesses privados.
Gladson Cameli já tem diante de si uma condenação histórica no STJ; as demais acusações deverão ser decididas pelas instituições competentes. À sociedade acreana cabe algo igualmente importante: não permitir que a sucessão de escândalos seja incorporada à paisagem como se fosse apenas mais um elemento da política local. O Acre precisa recuperar a capacidade de olhar para o futuro sem carregar como normal aquilo que jamais deveria ter sido normalizado.
