
Depoimento de um dos acusados levou o nome de herdeiro de grupo bilionário à investigação de uma emboscada que matou três pessoas em Lábrea, região marcada por grilagem, expansão do latifúndio e sucessivos conflitos fundiários.
dos varadouros de Manaus e Rio Branco
“Meu patrão”. “Moisés Diniz”. A afirmação de Lucas Pessoa dos Santos, 26 anos,em depoimento à Polícia Civil revelou o empresário Moisés Diniz, herdeiro de grupo bilionário Coelho Diniz, proprietário do Pão de Açúcar, como mandante da emboscada que vitimou Josias Albuquerque de Oliveira, 45 anos; o sobrinho dele, Arthur Henrique Ferreira Said, de apenas 14 anos; e o trabalhador rural Antônio Renato, de 32 anos. A revelação foi publicada pela Folha de São Paulo.
Depois de confirmar a versão para a Polícia Militar durante a prisão em flagrante, e para a Polícia Civil, em depoimento oficial, Lucas alterou a versão do que disse, após contato com o advogado, afirmando ter sido pressionado a indicar o mandante.
As vítimas foram surpreendidas em uma espécie de emboscada, no dia 25 de abril, enquanto atravessavam a cabeceira da ponte da Gleba Pauene em uma caminhonete. Lucas e outro pistoleiro, utilizaram um fuzil AR15 e pistolas Taurus contra a picape. O veículo e os corpos foram encontrados no igarapé.
Após ter sido acolhido na delegacia de Boca do Acre, por conta da proximidade, o caso está sendo investigado pelo Distrito Integrado de Polícia de Lábrea, jurisdição competente pela localização onde o crime ocorreu.
A região é uma das fronteiras mais violentas conflagradas pela grilagem e pela expansão do latifúndio, conforme revela o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025. Nos últimos dez anos, a Amacro – acrônimo que designa a fronteira de expansão agrícola entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia – acumulou 75 assassinatos e quase 1.600 conflitos de terra. A média de conflitos se mantém alta desde 2016, com picos recentes em 2024 e 2025, conforme revelou o Varadouro. O clima de jaguncismo na região é histórico e, agora, ganha reforço do crime organizado.
Escalada de mortes continua
O crime ocorrido na Gleba Recreio do Santo Antônio revela como a expansão do agronegócio na Amazônia opera e se favorece da ausência de Estado no território. O crime ocorreu em uma região de terras devolutas, na região do assentamento PA Monte, onde o irmão de Josias é assentado.
Em 4 de junho, menos de dois meses após a emboscada que gerou a confissão do mandante, outra emboscada na Gleba Recreio de Santo Antônio resultou na morte de Márcio Rogério Barbosa, de 57 anos, conhecido como “Paulistão”, morador da Vila Caquetá, em Porto Acre e deixou Ramon Silva Macedo, 36 anos, Cleiton de Oliveira, 40 anos, e Antônio Lima, 48 anos, gravemente feridos, conforme registrou Varadouro.
O modus operandi foi o mesmo, segundo relato dos sobreviventes. Eles informaram que o grupo seguia em uma caminhonete branca para uma propriedade rural onde trabalhariam na construção de uma casa quando foram surpreendidos por homens armados que abriram fogo contra o veículo.
O ataque ocorreu nas proximidades da localidade conhecida como “As Trezentas”, dentro do Projeto de Assentamento Monte (PA Monte), uma área criada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e cercada por antigas disputas fundiárias.
Influência e poder
O caso em que Moisés Diniz teve o nome citado segue em investigação, mas, até o momento, ninguém foi notificado. A família das vítimas teme que não haja resultado por conta da influência e poder empresarial e político dos supostos envolvidos.
Moisés Diniz é filho de Alex Sandro Coelho Diniz, empresário filiado ao PL e suplente do senador Cleitinho, pré-candidato ao governo de Minas Gerais. Também é sobrinho do deputado federal Hercílio Coelho Diniz (MDB-MG).
Fundada em 1992 em Governador Valadares, a rede de supermercados Coelho Diniz saiu de uma única unidade para uma operação com 22 lojas e centro de distribuição próprio em sete municípios do leste mineiro.
Com faturamento anual estimado entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões, o grupo passou a chamar atenção após ampliar sua participação no Grupo Pão de Açúcar. A defesa nega envolvimento e afirma que as acusações não possuem fundamento.
É justamente esse questionamento que a série de reportagens publicadas este mês pelo Varadouro tenta responder: como famílias detentoras de poder econômico e político em diversos setores operam na região por meio de propriedades e interesses em uma área historicamente marcada por conflitos fundiários na Amazônia?
LEIA a série de reportagens Linhas de Conflito:
Capítulo 1: Homem se acorrenta ao portão do Incra e destrava processo parado há quase 30 anos



