Como o legado do homem conhecido como “dono do Acre” ainda influencia os conflitos pela terra na divisa Amacro

Após romper as correntes da burocracia, posseiros enfrentam o legado de um dos maiores latifúndios da Amazônia e a disputa por uma área marcada por grilagem, violência e interesses milionários. A mobilização de seu Clodomiro, que se acorrentou aos portões do Incra, destravando a arrecadação do Novo Andirá, expõe uma outra etapa da luta: quem lucrou com décadas de indefinição fundiária e quem continua pagando o custo do conflito. Na região, a execução de líderes camponeses é negociada entre fazendeiros por até R$ 50 mil, segundo denúncia.
João Maurício da Rosa
Steffanie Schmidt
Fabio Pontes
dos varadouros de Manaus e Rio Branco
O processo de arrecadação pela União das terras da Gleba Novo Andirá traz de volta ao noticiário o legendário latifundiário Pedro Aparecido Dotto, que já teve em seu nome 2,1 milhões de hectares de terras na Amazônia, segundo cadastro do Incra de 1978. Nascido no interior de São Paulo e falecido em Rio Branco, aos 68 anos em 2004, Pedro Dotto chegou a ser chamado pelos grandes jornais e revistas de circulação nacional como “dono do Acre” e teve seu nome inscrito no Guiness Book.
Atualmente, um de seus herdeiros, João César Dotto, diretor regional do Senai em Rio Branco, reivindica a propriedade de 2,2 mil hectares na gleba, ou seja, 0, 1% do que teria sido o seu patrimônio, segundo Rosana Nascimento, coordenadora da Federação das Associações e Cooperativas de Produtores Rurais do Acre e do Amazonas (Faceasa).

Grande parte das terras que escaparam das mãos de Pedro Dotto estava localizada na Gleba Chandless, atualmente transformada no Parque Estadual do Chandless, um paraíso amazônico entre Sena Madureira, Manuel Urbano e Santa Rosa do Purus – bem na fronteira com o Peru e habitada pelos povos indígenas em isolamento voluntário.
Na ação contra a grilagem na Amazônia, do ministro Raul Jungman, o Incra conseguiu reaver ao patrimônio público a área de 992.611 hectares que estava em nome de Pedro Dotto, por meio de posse.
Era quase a metade da área que o fazendeiro dizia possuir. Segundo o “Livro Branco da Grilagem”, Dotto conseguiu registrar o imóvel com a planta fraudada, aumentando muitas vezes a dimensão real do imóvel.
Em maio de 1980, Varadouro já trazia na sua edição de número 19 uma reportagem especial apresentando os nomes e onde estavam os “Novos Donos do Acre”. A reportagem, feita com base nos dados do próprio Incra, mostrava como grandes corporações e latifundiários compravam gigantes porções de terra no estado – o que resultava na intensificação da violência no campo – com o assassinato de posseiros e o êxodo rural.

Porteira fechada com posseiros
A última propriedade supostamente pertencente ao espólio de Pedro Dotto está sendo reivindicada pelo herdeiro César Dotto. Ele é autor de um pedido de reintegração de posse concedido pela Comarca de Porto Acre, em que reivindica a propriedade de 2,2 mil hectares dentro da Gleba Novo Andirá, segundo Rosana Nascimento.
O problema é que a área reivindicada pelo herdeiro tem grande parte ocupada há mais de 40 anos por cerca de 80 famílias cadastradas e, segundo as lideranças de posseiros, outras 300 famílias foram entrando no decorrer dos anos.
As 80 famílias cadastradas já viviam e produziam nas terras quando Pedro Dotto se apresentou como o comprador do seringal. Segundo os posseiros, entre 1979 e 1982 o Incra fez um levantamento para identificar e cadastrar as famílias que tinham direito à posse, mas interrompeu o trabalho sem efetuar a demarcação e emitir títulos para os posseiros.
Durante estes mais de 40 anos, as terras foram invadidas, principalmente as áreas que estavam ocupadas por posseiros. Quando ajuizou, em 2021, ação de reintegração de posse, o herdeiro César Dotto não levou em consideração a parte dos posseiros que haviam sido reconhecidos por seu pai.
A juíza Bruna Barreto Perazzo Costa, da Vara Única Cível de Porto Acre, concedeu mandado de reintegração a João César Dotto e “outro” contra Raimundo Nonato Pinheiro da Silva e “outros” – número de posseiros indefinido, ou 80 que teriam sido cadastrados pelo Incra e os que foram entrando no decorrer dos anos.
A magistrada argumenta que a medida se tornou necessária porque restaram infrutíferas todas as tentativas de conciliação feitas pelo Tribunal de Justiça do Acre, e enquanto a execução do mandado era adiada mais posseiros estavam entrando na área. “O decurso de tempo tem agravado a situação autoral e majorado a quantidade de réus ditos invasores”, destacou.
A partir da publicação no Diário Oficial da arrecadação da área, segundo Rosana, a decisão da magistrada de Porto Acre será nula, pois o processo passará para a Justiça Federal, mas o destino das terras ainda não está definido, embora a lógica indique que será utilizada para fins de reforma agrária respeitando o direito dos posseiros.

Combo: duas vidas por R$ 50 mil
Enquanto aguardam a publicação do edital de arrecadação das terras pela União, o movimento dos posseiros espera ter um pouco de paz. Até aqui eles viveram uma época de tensão. Tanto que, em fevereiro passado, no auge das articulações para a arrecadação da gleba Novo Andirá, Jozias Nascimento da Silva, 47 anos, registrou boletim de ocorrência na 5ª Delegacia de Polícia de Rio Branco denunciando ameaças de morte supostamente feitas por um grupo de fazendeiros que ocupa terras irregularmente na gleba.
Vice-coordenador da Faceas, Jozias prestou depoimento ao delegado Leonardo Meyohas Neves, afirmando que, entre os envolvidos nas ameaças, estariam o médico gastroenterologista Arnaldo Thomas Cordeiro Barbosa e um veterinário identificado apenas como César. Segundo ele, as ameaças também teriam sido dirigidas à coordenadora da entidade, Rosana Souza do Nascimento.
O boletim foi registrado em 26 de fevereiro deste ano, duas semanas após decisão judicial que suspendeu mandado de reintegração de posse, cancelou matrículas consideradas suspeitas e remeteu o caso à Justiça Federal ao reconhecer que a área em disputa pertence à União.
Segundo Jozias, a ameaça foi comunicada publicamente pelo veterinário César, que teria relatado reunião entre fazendeiros para oferecer R$ 50 mil pela morte dele e de Rosana. “Eles já vinham ameaçando há tempos, colocando capangas a cavalo para intimidar os posseiros”, declarou.
O dirigente também citou um fazendeiro conhecido como Johnny da Marinete, que, segundo ele, estaria levando homens armados para a região. No boletim, Jozias menciona ainda pessoas identificadas como Fábio, Celso Furtado e um policial civil conhecido apenas como Josenildo.

Morador da Vila Caquetá, um pequeno vilarejo rural de Porto Acre localizado às margens da BR-317 – que liga o Acre ao sul do Amazonas – Jozias é uma das vozes mais ativas na luta pela reforma agrária numa região historicamente conhecida pela grilagem de terras públicas da União. Por vezes já escapou de “levar chumbo” de jagunços nas tentativas de ocupar terras na divisa Amacro.
É um dos alvos preferidos dos fazendeiros não só em ameaças, mas também em intimidações ao ser denunciado nas delegacias de Porto Acre, Senador Guiomard e Boca do Acre. Fica num vai-e-vem entre delegacias para prestar esclarecimentos, enquanto tem seu cotidiano vigiado pelos pistoleiros.
Em 2024, Varadouro se encontrou com Jozias na Vila Caquetá para retratar o ambiente de medo e violência na divisa entre o Acre e o Amazonas na disputa por terras.
Rosana Nascimento afirma que o médico Arnaldo Barbosa não possuiria título definitivo e reivindicaria a área com base apenas em requerimento de posse protocolado no Incra. “As terras pertencem à União e o Incra ainda está fazendo a arrecadação, primeiro passo para sua destinação à reforma agrária ou outra finalidade”, afirmou.
A coordenadora acusa ainda fazendeiros de influenciarem órgãos públicos para retardar a solução do conflito. “Os processos ficam engavetados ou nem começam. No Novo Andirá isso se arrasta há mais de 20 anos. Só começou a andar depois que acampamos na Defensoria Pública e no Ministério Público”, declarou.
B.O unilateral
A acusação de Jozias em boletim de ocorrência contra o médico Arnaldo Barbosa é refutada por seu defensor Antônio Olímpio. “O Sr. Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa refuta de maneira veemente e categórica qualquer acusação infundada de ameaça ou intimidação”, afirma.
Segundo o advogado, “eventual boletim de ocorrência unilateralmente registrado por ocupantes da área não possui valor condenatório e será enfrentado juridicamente nos meios adequados, inclusive porque inexistem elementos concretos capazes de sustentar narrativa incompatível com toda a trajetória pessoal e profissional do proprietário”, argumenta. (Leia abaixo a íntegra da nota)
Quando menciona “eventual boletim de ocorrência”, o advogado não incluiu outra dezena de BOs registrados na Delegacia de Polícia de Porto Acre por colonos afirmando temer por suas vidas depois de encontrarem empregados da Fazenda Boa Sorte rondando suas colocações e filmando as casas, cerca de 17 colocações de pequenos agricultores.

Em 2021, a agricultura Silene Gama Paiva, de 49 anos, prestou depoimento ao delegado Marcos Sobral da Silva, afirmando que dois homens em uma Hillux Preta, um deles identificado como gerente da fazenda do Arnaldo, lançaram um drone sobre suas terras.
“Que a esta declarante teme por sua segurança pois sua propriedade é uma área de confronto com o dr. Arnaldo; que o caso tramita na Justiça, haja vista ser uma terra da União”, relata o boletim registrado em Porto Acre.
O temor dos posseiros é justificável, pois se trata de uma região marcada por intensos e violentos conflitos por terra, com denúncias da atuação de pistoleiros e jagunços fortemente armados. Nos últimos meses, seis pessoas foram executadas em emboscadas na região sul do Amazonas, na divisa com o Acre. Todas as mortes praticamente têm algum tipo de relação pela posse da terra.
Há a acusação da participação de policiais contratados para atuar como seguranças das fazendas – incluíndo até mesmo a criação de empresas de segurança privada para “legitimar” o jaguncismo nas áreas em disputa.
O seringal Novo Andirá está imbricado bem no centro de uma das regiões onde mais se intensificam os crimes ambientais e de grilagem na região amazônica: a tríplice divisa Amacro, formada pelo encontro dos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia. Uma região marcada pela completa ausência do Estado e a atuação de milícias rurais armadas, com denúncias da participação de policiais contratados para atuar como jagunços dos fazendeiros e de facções criminosas.

Os casos registrados pelo Varadouro exemplificam a escalada na brutalidade. Recentemente, em Lábrea (AM), três trabalhadores rurais, incluindo Arthur Henrique Ferreira Said, um adolescente de apenas 14 anos, foram executados com tiros de fuzil na Gleba Recreio do Santo Antônio.
Já no começo de junho, nesta mesma região, um homem foi assassinado e outros três baleados numa emboscada. Segundo relatos, há uma lista de nove pessoas marcadas para morrer na disputa por terras dentro da gleba no sul amazonense.
O uso de armamento de guerra e a tentativa de ocultar os corpos em um córrego revelam o que organizações chamam de “A Justiça dos Jagunços”.
Este “novo jaguncismo” não atua mais apenas com revólveres antigos, mas com logística sofisticada e conexões com facções criminosas. Em Boca do Acre (AM), execuções em via pública com dezenas de disparos indicam a naturalização da “justiça pelas próprias mãos”. Em Machadinho d’Oeste (RO), operações policiais no acampamento Valdiro Chagas também resultaram em mortes e denúncias de abusos.
A violência é impulsionada pela expansão da soja e do gado, além de um novo fenômeno: a “grilagem verde”, onde o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é usado para validar a apropriação de terras de comunidades tradicionais como reservas legais privadas, segundo análise de especialistas, feitas durante o lançamento dos dados.
Grilar e se apossar das terras que formam o Seringal Novo Andirá é de interesse do grande agronegócio. Afinal, elas estão localizadas em uma região estratégica para a produção e a escoação de commodities do agro.
Elas são acessíveis por ramais e traçados das BRs 317 e 364, que, por sua vez, são os corredores de exportação da carne e da soja produzidas na zona Amacro – enviadas ao mundo a partir da hidrovia do Madeira e outras rotas estratégicas.

Defesa refuta acusação contra médico
“O advogado Antônio Olímpio de Melo Sobrinho, defensor do médico, empresário e produtor rural Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa, vem a público esclarecer fatos relacionados ao conflito possessório envolvendo a Fazenda Boa Sorte, localizada na região sul do Amazonas, bem como rebater acusações recentemente divulgadas por ocupantes irregulares da área.
Inicialmente, é importante destacar que a Fazenda Boa Sorte possui histórico dominial formalmente constituído, com matrículas imobiliárias válidas, cadeia sucessória registral contínua, georreferenciamento certificado pelo próprio INCRA, Cadastro Ambiental Rural, CCIR ativo e regularidade fiscal reconhecida pela Receita Federal do Brasil.
A área encontra-se submetida há muitos anos a litígios possessórios decorrentes de invasões ocorridas ainda no ano de 2007. Desde então, o proprietário sempre buscou a tutela de seus direitos exclusivamente por meios institucionais e judiciais, jamais recorrendo a qualquer forma de confronto pessoal.
A ação de reintegração de posse ajuizada pelo proprietário resultou em sentença favorável já no ano de 2012, reconhecendo judicialmente o direito possessório e determinando a desocupação da área. O processo tramita há quase duas décadas, evidenciando que o Sr. Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa sempre atuou dentro da legalidade, aguardando pacientemente a efetivação das decisões judiciais.
Nesse contexto, causa profunda estranheza a recente movimentação promovida por grupos invasores, liderados pelo Sr. Jozias Nascimento da Silva, junto ao INCRA, órgãos públicos e setores da imprensa, buscando associar o procedimento administrativo de arrecadação da gleba denominada Seringal Andirá, instaurado pelo INCRA à permanência irregular dos ocupantes na área.
É igualmente necessário registrar que a tentativa de transformar uma controvérsia fundiária complexa em narrativa de conflito pessoal não corresponde à realidade dos fatos.
O Sr. Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa é médico, empresário e produtor rural extremamente conhecido e respeitado no Estado do Acre, com longa trajetória de serviços prestados à sociedade acreana, sendo reconhecido por sua postura equilibrada, pacífica e institucional.
Durante todos esses anos de conflito possessório, jamais houve qualquer episódio concreto de violência praticada pelo proprietário contra ocupantes da área. Ao contrário: mesmo diante de reiteradas invasões, danos patrimoniais, dificuldades para o cumprimento da ordem judicial de reintegração e ameaças diretas a sua pessoa e a seus funcionários, o proprietário sempre recorreu exclusivamente ao Poder Judiciário e às vias legais.
Por essa razão, o Sr. Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa refuta de maneira veemente e categórica qualquer acusação infundada de ameaça ou intimidação.
A defesa esclarece que eventual boletim de ocorrência unilateralmente registrado por ocupantes da área não possui valor condenatório e será enfrentado juridicamente nos meios adequados, inclusive porque inexistem elementos concretos capazes de sustentar narrativa incompatível com toda a trajetória pessoal e profissional do proprietário.
Também merece destaque o fato de que o procedimento administrativo de arrecadação atualmente promovido pelo INCRA encontra-se judicializado, existindo Mandado de Segurança em trâmite perante a Justiça Federal questionando a legalidade da arrecadação sobre áreas privadas regularmente matriculadas.
No próprio processo administrativo do INCRA há documentos técnicos, registros imobiliários, plantas georreferenciadas e impugnações administrativas demonstrando a existência de domínio privado formalmente constituído há décadas sobre parcelas atingidas pela arrecadação pretendida.
Portanto, não se pode utilizar o debate administrativo fundiário como instrumento de legitimação automática de ocupações irregulares nem como tentativa de esvaziar decisões judiciais possessórias já existentes.
A defesa reafirma absoluta confiança no Poder Judiciário, nas instituições públicas e na correta apuração dos fatos, esperando que o debate público seja conduzido com responsabilidade, equilíbrio e respeito à verdade documental e processual”.
Nota da Editoria:
Os recursos gráficos que acompanham esta reportagem especial foram produzidos com o uso de recursos da inteligência artificial, utilizando como fundamentação a apuração jornalística de João Maurício da Rosa.


