A CORTINA DE FUMAÇA DE BITTAR

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Com Acre em crises política e climática, bolsonarismo se articula para as eleições 2026

O senador Márcio Bittar (PL) e o deputado Nikolas Ferreira (PL) fazem visita ao Acre para reforçar discurso antiambiental e anti-índigena típicos do bolsonarismo (Fotos: Edilson Rodrigues/Agência Senado e Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)




Velhas figuras ligadas às oligarquias ruralistas como Márcio Bittar e Bocalom têm um alvo preferencial: a agenda ambiental e os povos indígenas do estado. Enquanto Bittar faz caravanas com extremistas como Nikolas Ferreira para conhecer a “Amazônia manipulada pela esquerda” e ONGs, Bocalom diz que rasgará a Constituição para abrir estradas em terras indígenas e reservas.



Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

Há uma fumaça que encobre o Acre todos os anos. A cada aproximação de julho, agosto e setembro (os meses críticos do verão amazônico) a população já sabe que dormirá e acordará inalando a poluição expelida pelas queimadas. Ela invade casas, escolas, hospitais e os pulmões de quem vive nas cidades e no campo. Mas existe também uma outra névoa, menos visível e igualmente sufocante: a da radicalização política, do negacionismo climático e da transformação da floresta em inimiga pública. Nos últimos anos, as crises ambiental e política passaram a caminhar entrelaçadas no Acre.

E o senador bolsonarista Márcio Bittar (PL) tem usado com maestria a temática da agenda ambiental como arma eleitoral. Após exercer por oito anos um mandato apagado e de poucos resultados para o Acre, Bittar usa a agenda de preservação da Amazônia como a sua “cortina de fumaça” para ofuscar uma passagem medíocre pelo Senado Federal, cuja única atuação foi no sentido de defender os interesses da família Bolsonaro – e menos do Acre.

Para continuar a se mostrar como o verdadeiro e o mais autêntico embaixador do bolsonarismo em sua versão mais nefasta, decidiu trazer ao estado uma das figuras mais deploráveis da extrema-direita brasileira: o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

A visita a um dos estados mais bolsonaristas do país era para o parlamentar conhecer a verdadeira Amazônia, que para o grupo radical é usada pela esquerda, por ONGs e governos estrangeiros para preservar a floresta e deixar a população na miséria.

Juntos, Bittar e Nikolas Ferreira fizeram o que sabem de melhor: propagar desinformação e discursos de ódio contra a agenda ambiental. Adentraram até uma aldeia numa tentativa de legitimar as suas falas, as suas retóricas; de dividir o movimento indígena do Acre. Isso tudo de uma turma que, no Congresso Nacional, vota favorável a projetos que fragilizam os direitos dos povos indígenas – em especial quando se trata da demarcação de territórios.

Francisco Piyãko, liderança do povo Ashaninka, reagiu à presença do deputado Nikolas Ferreira no estado, colocando no centro da discussão aquilo que, para os povos indígenas, vem antes de qualquer disputa eleitoral: as terras, os rios, os conhecimentos tradicionais, os modos de vida e a resistência de quem sustenta a floresta em pé enquanto enfrenta, no Congresso e fora dele, ataques aos direitos conquistados na Constituição.

Piyãko associa a vinda de Nikolas Ferreira ao Acre a uma estratégia de visibilidade, uma tentativa de manter vivas as narrativas alimentadas pela extrema-direita bolsonarista, e não a uma agenda real de escuta com os povos da floresta.


Leia artigo de Francisco Piyãko: O rio não é esgoto, o rio é vida


Para ele, o interesse está no alcance digital do deputado, capaz de transformar uma passagem pela Amazônia em material para milhões de seguidores em todo o país. O problema, segundo a liderança, é o conteúdo levado adiante: uma narrativa que trata os povos indígenas como caricatura e tenta convencer a opinião pública de que políticas voltadas aos povos originários seriam desperdício ou privilégio.

“Nikolas mostrou que não conhece e não vai nos conhecer a realidade da Amazônia porque ele não tem capacidade de compreender os povos e as florestas.”.

As lideranças Ninawa Huni Kuĩ e Francisco Piyãko rebatem as falas de Bittar e Nikolas sobre os povos indígenas e Amazônia (fotos: Acervo Pessoal e Katie Maehler/Mídia Ninja)



Liderança do povo Huni Kuĩ – a maior população indígena do Acre – Ninawa Huni Kuĩ também teceu duras críticas à vinda do deputado mineiro ao Acre e à visita de Márcio Bittar. “Essas pessoas não têm nenhum compromisso com os povos indígenas, pelo contrário, querem destruir, tomar os territórios em favor de seus interesses”, afirma ele.

“Essa visita é mais uma questão de marketing. Nós não autorizamos que essas pessoas falem em nome dos povos indígenas. Eles passam a imagem de bonzinhos mas são as pessoas que estão no Congresso Nacional lutando pra retirar os nossos direitos, querem entregar nossos territórios para as corporações”, ressalta Ninawa.

“Não estamos precisando deste tipo de representatividade. Nós somos povos que temos a nossa liberdade, que temos a nossa forma de viver e queremos que seja respeitado a forma como estamos vivendo dentro de nossos territórios”, define Ninawa Huni Kuĩ.

A visita de Márcio Bittar e Nikolas Ferreira ao Acre é apenas um esquenta do que tendem a ser as eleições de 2026 ao estado, onde os principais nomes na disputa ao governo e ao Senado estão ligados ao campo da direita e extrema-direita. Eleito na esteira da onda bolsonarista que sacudiu o Acre em 2018, Bittar quer repetir a dose para conquistar mais oito ano ocupando uma cadeira no Senado.

Nesse contexto, a aproximação entre Márcio Bittar e o deputado bolsonarista Nikolas Ferreira possui enorme simbolismo político. A proposta de levar Nikolas ao Acre para conhecer a “verdadeira Amazônia” não é apenas uma agenda de turismo político. Trata-se de uma disputa narrativa.

Ao afirmar que é necessário “desmistificar” a Amazônia, setores da extrema-direita constroem a ideia de que existe uma conspiração ambiental contra o desenvolvimento da região. Alimentam o sentimento de perseguição e reforçam discursos de ódio contra indígenas, cientistas, jornalistas e organizações socioambientais.


Rasgando a Constituição

Não por acaso, declarações recentes do prefeito Sebastião Bocalom sobre povos indígenas foram recebidas com indignação por organizações indígenas e defensores de direitos humanos. Em muitos casos, o preconceito é instrumentalizado politicamente para transformar minorias em inimigos internos e consolidar uma identidade conservadora baseada no ressentimento.

Em entrevista no começo de maio, o ex-prefeito de Rio Branco e pré-candidato ao governo do Acre pelo PSDB, Sebastião Bocalom, voltou a sua carga contra os povos indígenas, os seus territórios e unidades de conservação. “Se precisar abrir estrada no meio de área indígena, vai abrir”, afirmou.

As falas são uma referência à polêmica construção da rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru e ao Ramal do Barbary, cujas obras só não foram adiante graças à resistência dos povos indígenas que teriam suas terras devastadas pelos impactos do empreendimento. E os ataques de Bocalom não pararam por aí.

“O índio hoje não quer mais ficar lá no mato só comendo bicho. O índio hoje quer internet, quer televisão. O índio hoje sabe que, se alguém ficar doente dentro da tribo e tiver uma estrada, ele pode salvar a vida do irmão dele”, vociferou o bolsonarista numa fala preconceituosa.

As declarações resultaram em reações da sociedade civil organizada.

“Repudiamos qualquer fala que reduza os povos indígenas a estereótipos e desconsidere nossas realidades. Não somos “atraso”, não somos “problema” e muito menos argumento político. Somos povos com direitos, história, cultura e territórios que precisam ser respeitados. O uso do termo “índio”, de forma genérica e carregada de estereótipos, apaga a diversidade dos povos indígenas. Somos muitos povos, com identidades próprias, não uma só categoria”, escreveu o coletivo de jovens comunicadores indígenas Tetepawa.

“Falar em ‘mato’ de forma pejorativa reforça uma visão colonial que desvaloriza nossos territórios, que são espaços de vida, conhecimento, espiritualidade e existência.”

Essa não é a primeira vez que Bocalom solta as suas bravatas contra a agenda ambiental e os povos indígenas. Em julho do ano passado, quando pavimentava os primeiros passos e sua candidatura ao Palácio Rio Branco, fez críticas ao fato de Marechal Thaumaturgo ter grande parte de seu território formado por terras indígenas e unidadess de conservação.

Ligado ao agronegócio, ex-prefeito de Acrelândia e de Rio Branco faz sucessivos discursos contra a agenda ambiental (Foto: Assessoria PMRB)



“O discurso de Bocalom ignora evidências concretas sobre os impactos da expansão desordenada de projetos de infraestrutura na Amazônia, especialmente em regiões de fronteira marcadas pelo avanço das economias ilícitas, do narcotráfico, da exploração ilegal de madeira e da violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais”, ressalta nota conjunta emtida entre a Comissão Transfronteiriça Juruá–Yurúa–Alto Tamaya e a Conexão Cipó, aliança formada por organizações socioambientais, indígenas e indigenistas.

“Anunciar que, caso eleito governador, abrirá estradas “no meio de terra indígena” ou “no meio de reserva”, sem considerar estudos técnicos, processos legais e mecanismos de consulta previstos em lei, não representa ousadia administrativa ou visão de futuro. Representa, ao contrário, o desrespeito deliberado das garantias institucionais que o próprio Estado brasileiro construiu para prevenir conflitos, danos ambientais e violações de direitos.”

E este cabo-de-guerra de uma campanha que promete estar muito mais focada em questões ideológicas e na pauta “conservadora” da extrema-direita se dará justamente no momento em que o Acre estará sob os efeitos daquele que tende a ser um dos El Niño mais intenso das últimas décadas – levando a população acreana a ser impactada por um severo verão amazônico, comprometendo sua segurança hídrica, a produção rural das famílias do campo e ocasionando queimadas e incêndios florestais de imensuráveis impactos ambientais e para a saúde humana.

Enquanto bolsonarismo consolida e amplia seus tentáculos no Acre com agenda antiambiental, população é cada vez mais impactada pelos eventos climáticos extremos (Fotos: Paulo Henrique Costa e Alexandre Cruz Noronha)



A fumaça das queimadas geradas em áreas recém-desmatadas entra na casa do pequeno produtor rural, da criança indígena, do empresário urbano, do pastor e do padre – e também do eleitor bolsonarista. Ela não faz acepções. As enchentes não perguntam em quem alguém votou. A seca não distingue conservadores de progressistas. A crise climática é democrática em seus impactos, embora profundamente desigual em suas consequências.

Talvez o maior drama acreano seja justamente esse: enquanto a floresta arde, parte da elite política local continua travando guerras ideológicas contra a própria ideia de preservação ambiental.

As eleições de 2026 devem aprofundar esse conflito. De um lado, uma extrema-direita cada vez mais organizada, financiada e conectada às redes sociais, às igrejas e ao discurso antiambiental. Do outro, setores progressistas que ainda tentam reconstruir uma narrativa capaz de dialogar com uma população cansada de promessas vazias e ainda bastante encantanda pelos fetiches do bolsonarismo.

Se tudo der certo nos planos da extrema-direita, a sua “cortina de fumaça” tem de tudo para funcionar.



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