Por unanimidade, STJ condena Gladson Cameli por corrupção e ex-governador fica inelegível

Corte Especial formou maioria de 11 votos pela condenação do ex-governador acreano; ministros apontaram existência de organização criminosa e esquema de desvio de recursos públicos investigado pela Operação Ptolomeu. Condenação acontece quase seis anos após PF desbaratar o maior esquema de corrupção da história do Acre. Agora, STJ reconhece Gladson como o chefe da organização criminosa.
dos varadouros de Rio Branco
Em uma decisão histórica para a política acreana, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou por unanimidade, nesta quarta-feira, 6 de maio, o ex-governador do Acre Gladson de Lima Cameli (PP) pelos crimes investigados no âmbito da Operação Ptolomeu. Ao todo, 11 ministros votaram pela condenação do ex-chefe do Palácio Rio Branco.
A maioria da Corte – oito ministros – acompanhou integralmente o voto da ministra-relatora Nancy Andrighi, que já havia se manifestado, em dezembro do ano passado, pela condenação de Cameli a 25 anos e nove meses de prisão em regime inicial fechado, além da perda do mandato e dos direitos políticos.
Outros três ministros seguiram parcialmente a divergência apresentada pelo ministro revisor João Otávio de Noronha, que votou pela condenação do ex-governador, mas defendeu uma redução na dosimetria da pena, fixando-a em 16 anos de prisão.
Com a decisão da Corte Especial, Gladson Cameli passa a se enquadrar na Lei da Ficha Limpa e fica inelegível. O ex-governador abandonou o cargo no início de abril para disputar uma vaga ao Senado Federal nas eleições de 2026.
Durante a sessão desta quarta, os ministros destacaram a robustez do conjunto probatório reunido pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal no curso das investigações da Operação Ptolomeu, deflagrada em 2021 para apurar um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes em contratos públicos dentro do governo acreano.
Em seu voto, o ministro João Otávio de Noronha afirmou que havia provas suficientes para sustentar a condenação do ex-governador, embora divergisse parcialmente da relatora quanto ao tamanho da pena aplicada. Segundo Noronha, as investigações revelaram uma estrutura criminosa articulada dentro da administração estadual para beneficiar empresários e operadores financeiros ligados ao núcleo político e empresarial do ex-governador.
Os demais ministros que votaram após o revisor acompanharam a tese central apresentada pela ministra Nancy Andrighi, reforçando o entendimento de que Gladson Cameli exerceu papel de liderança no esquema investigado.
Em seu voto de dezembro, a ministra Nancy Andrighi condenou Gladson Cameli pelos crimes organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. Além da pena de prisão, ela ainda determinou o pagamento de multa no valor de quase R$ 13 milhões.
A Ação Penal 1076 julgada pelo STJ teve origem nas investigações conduzidas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Ptolomeu. Segundo a acusação, o esquema envolvia direcionamento de contratos públicos, utilização de empresas de fachada, lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos.
Ao longo das investigações, a PF apontou movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo empresários, operadores financeiros e pessoas ligadas ao então governador. Parte dos recursos, segundo os investigadores, teria sido usada para aquisição de imóveis de luxo e pagamento de despesas pessoais.
A denúncia do Ministério Público Federal sustentou que a organização criminosa atuava de forma estruturada desde o início do primeiro mandato de Gladson Cameli, em 2019, utilizando a máquina pública para favorecer empresas previamente escolhidas.
Em dezembro de 2025, ao apresentar seu voto, a ministra Nancy Andrighi afirmou que as provas reunidas nos autos demonstravam a existência de um esquema sofisticado de corrupção instalado no governo do Acre. A relatora também destacou o uso de empresas sem capacidade operacional para execução de contratos milionários.

O julgamento havia sido interrompido no ano passado após pedido de vista do ministro João Otávio de Noronha. A retomada ocorreu nesta quarta-feira em meio a grande expectativa política no Acre, sobretudo após a saída de Cameli do governo para disputar o Senado.
Apesar da condenação, a defesa do ex-governador ainda poderá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a embargos dentro do próprio STJ. Desde o início das investigações, Gladson Cameli sempre negou as acusações. Em diferentes entrevistas públicas, afirmou ser inocente e disse confiar na Justiça.
A condenação do ex-governador representa um dos episódios mais emblemáticos da história política recente do Acre e aprofunda a crise enfrentada pelo grupo político que comandou o estado nos últimos sete anos.
A Operação Ptolomeu é considerada uma das maiores investigações de corrupção já realizadas no Acre. Conforme estimativas apresentadas pelos órgãos de controle, os contratos sob suspeita movimentaram centenas de milhões de reais em recursos públicos.
Entenda mais sobre os crimes e as denúncias envolvendo Gladson Cameli na série de reportagens especiais Esquemão Azul produzidas entre os jornalistas Fabio Pontes, do Varadouro, e Leonildo Rosas, do Portal do Rosas.



