Explosão na abertura de estradas e ramais revela nova engrenagem do desmatamento na Amazônia acreana

Estudo elaborado por cientistas da Ufac e Inpa indica que, em 30 anos, a abertura de estradas e ramais já somam 24.610 quilômetros. A média anual chega a 540 quilômetros – quase que a construção de uma BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho todos os anos. Em períodos mais críticos, essa expansão superou os mil Km. Abertura de ramais e estradas é apontada como principal vetor para expansão do desmatamento e grilagem na Amazônia.
dos varadouros de Rio Branco
A Floresta Amazônica no Acre está sendo redesenhada (e até mesmo retalhada) por uma malha viária invisível que avança longe dos olhares: a abertura acelerada de estradas e ramais. Um estudo inédito elaborado por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), revela que essas vias já somam 24.610 quilômetros ao longo do território acreano, configurando uma profunda transformação territorial nas últimas décadas, sendo um dos principais vetores para a expansão do desmatamento e da grilagem.
Essas são as conclusões do relatório “Expansão de Estradas e Ramais no Estado Acre: 1989 a 2025”, assinado pelos cientistas Sonaira Souza Silva, Eric Souza Nascimento, Emanuel Moraes de Souza, Willian Flores e Philip Fearnside.
O levantamento, que reúne dados das últimas três décadas, com imagens de satélite de alta resolução, mostra que apenas um quinto dessa rede existia até o fim dos anos 1980. Desde então, o crescimento tem sido contínuo – e acelerado. A média anual de abertura de novas estradas e ramais chega a 540 quilômetros – quase que a construção de uma BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho, anualmente.
Em anos mais críticos, como 2006, 2019, 2020 e 2025, esse ritmo mais que dobrou, ultrapassando 1.300 quilômetros por ano; ou seja, uma distância quase duas vezes maior do que entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul – as duas maiores cidades acreanas.
Para Sonaira Silva, o debate sobre as estradas na Amazônia precisa ir além da ideia de progresso. “Elas podem trazer benefícios, sim, mas sem controle e sem responsabilidade, acabam aprofundando desigualdades e destruindo aquilo que sustenta a vida na floresta”, afirma ela.
A declaração da cientista, que é coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (Labgama), foi dada durante palestra na 10o reunião da Comissão Transfronteiriça, realizada no fim de março em Cruzeiro do Sul.
A construção de estradas e ramais esteve entre um dos principais temas debatidos no encontro por serem vistas como uma grave ameaça à preservação dos territórios indígenas. “Não se trata apenas de perder floresta. Estamos falando de perda de alimento, de cultura, de modos de vida e de segurança para essas populações”, disse Sonaira Silva.

O ramal da barbeiragem
Mais do que números, o estudo revela uma mudança estrutural na dinâmica de ocupação da Amazônia acreana: os ramais – estradas vicinais de terra batida, muitas vezes abertas na ilegalidade e sem nenhum tipo de licenciamento – tornaram-se protagonistas da expansão territorial.
Um dos exemplos mais claros é o chamado Ramal do Barbary, no Vale do Juruá. Aberto “na tora” com o apoio do agora ex-governador Gladson Cameli (PP), a estrada tinha (e ainda tem) a justificativa de ser aberta para tirar a cidade de Porto Walter dos impactos ocasionados pelas secas do rio Juruá, a única via de conexão com o maior centro urbano da região, Cruzeiro do Sul.
Porém, a obra precisou ser paralisada por determinação judicial – a partir de ações movidas pelo MPF – já que seu traçado passava por dentro da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, em Rodrigues Alves. Tal situação colocava não só o território em estado de vulnerabilidade, mas o próprio povo Jaminawa.
O argumento de reduzir os impactos do isolamento é plausível. Afinal de contas, ano após ano o Juruá registra níveis recordes de vazante, o que inviabiliza a navegação para o transporte de cargas e passageiros para todas as cidades e comunidades do Alto Juruá. Oscilações extremas que ocorrem, em grande parte, pela intensificação da crise climática que impacta o Acre.

Uma crise agravada, sobretudo, pela expansão do desmatamento da Floresta Amazônica ao longo dos últimos anos. O período mais crítico (recente) aconteceu com Jair Bolsonaro (PL) na Presidência da República – entre 2019 e 2022 -, o mesmo período do primeiro mandato de Gladson Cameli no governo do Acre, quando o estado enfrentou níveis recordes de desmatamento.
Foi por essa mesma época, como aponta o estudo da Ufac/Inpa, que o Acre teve os picos na abertura de estradas e ramais. Um dos principais projetos patrocinados na ocasião foi a construção da rodovia que conectaria Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no departamento peruano de Ucayali.
O traçado da estrada coloca em risco a preservação de uma das regiões mais bem preservadas e ricas em biodiversidade da Floresta Amazônica – em ambos os lados da fronteira. No Peru, a simples perspectiva do projeto provocou a intensificação de ramais ilegais, como a UC-105, que liga Nueva Italia a Puerto Breu.
Outro projeto que ganhou força e apoio político local é a conexão rodoviária entre Santa Rosa do Purus a Manoel Urbano, o que permitiria à cidade do Alto Purus se conectar ao traçado da BR-364.
A lógica dos ramais: a espinha-de-peixe do desmatamento
Diferentemente das rodovias oficiais, planejadas e monitoradas por órgãos federais e estaduais, os ramais surgem de forma pulverizada. São abertos por prefeituras, fazendeiros ou até de maneira clandestina, muitas vezes sem qualquer controle ambiental.
Vistas de cima por imagens de satélites, formam padrões característicos – ficando conhecidos como “espinha de peixe”, por estarem de forma transversal às rodovias pavimentadas. Estes ramais facilitam a ocupação e a conversão da floresta em pasto ou lavoura, expandindo o impacto do desmatamento e do fogo para regiões antes intocadas da Amazônia.
Essa lógica aparece com força nos dados: 35% de toda a rede de estradas está dentro de projetos de assentamento (PAs) do Incra, onde a abertura de ramais é parte da estrutura de ocupação na zona rural.
Entre 2004 e 2006, por exemplo, a criação de 18 novos PAs no estado coincidiu com um dos maiores picos de abertura de estradas já registrados no estado. Mas o fenômeno não se limita às áreas oficialmente destinadas à reforma agrária. Propriedades privadas e terras públicas concentram juntas mais da metade da malha viária, evidenciando a expansão da fronteira agrícola para além das áreas planejadas.

Manoel Urbano, no Vale do Purus, é um dos exemplos clássicos. O município está entre um dos mais críticos em toda a região amazônica no registro de desmatamento a partir de 2019 – ano que de início do desmonte da agenda ambiental no Acre.
E a maior parte deste desmatamento se deu para a abertura de propriedades rurais. A não destinação das terras por parte do governo provocou uma corrida dos chamados “rondonienses” para invadir áreas na região.
O boom na concessão de projetos de manejo florestal sustentável também contribuíram de forma expressiva para a abertura de ramais – usados para retirar as toras extraídas. Estes ramais acabam sendo aproveitados para ampliar a invasão de territórios.
Unidades de conservação na linha de frente
Um dos achados mais alarmantes do estudo está dentro das áreas protegidas. As unidades de conservação já acumulam cerca de 2.949 quilômetros de estradas e ramais, o equivalente a 12% de toda a rede mapeada pelos pesquisadores.
Mais preocupante ainda é o ritmo recente: mais da metade dessa extensão foi aberta entre 2019 e 2025, indicando uma intensificação das pressões nos últimos anos – consequência direta no afrouxamento e flexibilização das normas ambientais prometidas pelo bolsonarista Gladson Cameli, em sua primeira eleição para o governo, em 2018.
Territórios historicamente associados à conservação e ao uso sustentável da floresta, como a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e a Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, aparecem entre os focos dessa expansão. Só em 2025, foram identificados 186 quilômetros de novos ramais na Resex Chico Mendes e 67 quilômetros na Cazumbá-Iracema.
Essas áreas, muitas vezes remotas, passam a funcionar como novas frentes de ocupação e a invasão pela atividade agropecuária – abrindo caminho para desmatamento, grilagem e exploração ilegal de madeira.
Municípios epicentro e novas frentes de avanço
A expansão não ocorre de maneira uniforme no território acreano. O estudo identifica um núcleo de municípios responsáveis por mais da metade da rede viária: Rio Branco, Sena Madureira, Xapuri, Brasiléia, Feijó e Bujari concentram 52% das estradas e ramais do estado.
Em 2025, três desses municípios lideraram a abertura de novos caminhos: Sena Madureira (284 km), Rio Branco (195 km) e Feijó (187 km). O dado reforça a existência de novas frentes de expansão da fronteira agrícola no Acre, sobretudo em regiões onde ainda havia grandes áreas de floresta contínua.
A abertura expressiva de ramais em Feijó já era esperada. Desde 2019, o município é o recordista de desmatamento e fogo no Acre – e sempre ocupando as primeiras posições no ranking da devastação entre os mais de 700 municípios da Amazônia Legal.
Terras indígenas: proteção relativa, pressão crescente
As terras indígenas permanecem, por enquanto, como as áreas menos impactadas diretamente pela abertura de estradas, com menos de 1% da malha total. Mas essa aparente proteção esconde um risco crescente. O estudo aponta que a abertura de ramais no entorno desses territórios vem aumentando, criando zonas de pressão que facilitam invasões, conflitos e degradação ambiental.
Territórios como o Poyanawa, em Mâncio Lima, Katukina/Kaxinawá, em Feijó, e Igarapé do Caucho, entre Feijó e Tarauacá, já apresentam acessos próximos ou conexões indiretas com a rede viária, o que pode alterar profundamente a dinâmica socioambiental dessas regiões.

Conexões que ultrapassam fronteiras e divisas
Outro elemento estratégico revelado pela pesquisa é a existência de uma rede de conexões que extrapola os limites do Acre.
Foram identificados:
72 pontos de ligação com o Amazonas
3 conexões com Rondônia
19 conexões com a Bolívia (Pando)
4 conexões com o Peru (Madre de Dios)
Esses corredores ampliam o alcance das atividades humanas e podem facilitar fluxos ilegais, como madeira, gado e grilagem, ameaçando a preservação em terras indígenas e unidades de conservação, configurando uma dinâmica transfronteiriça de pressão sobre a floresta.
Essa elevada abertura de ramais entre o Acre e o Amazonas sintetiza a razão da trílice divisa Amacro ser considerada hoje como a nova fronteira da expansão do desmatamento da Floresta Amazônica. Estes caminhos permitem o vai-e-vem de pessoas em busca de ocupar ou invadir novas áreas – o que contribui para tornar o território marcado por intensos e violentos conflitos fundiários e de crimes ambientais.
Entre o acesso e a degradação
Os próprios pesquisadores reconhecem que estradas e ramais cumprem um papel social relevante: garantem acesso a serviços básicos, escoamento da produção e integração regional. No Acre, onde rios e longas distâncias sempre foram barreiras logísticas, essas vias são, muitas vezes, a única ligação com escolas, hospitais e mercados.
Mas o estudo é categórico ao apontar que, sem planejamento e fiscalização, essas mesmas estradas se tornam vetores estruturais de desmatamento e da degradação ambiental.
A ausência de controle sobre a abertura sobretudo de ramais – especialmente em terras públicas e áreas protegidas – aparece como um dos principais gargalos. Nos últimos seis anos, essas categorias concentraram uma expansão considerada “preocupante” pelos autores.
Ao final, o diagnóstico traçado pelos cientistas é claro: o Acre vive uma nova fase de transformação territorial, impulsionada não por grandes obras de infraestrutura, mas por centenas de pequenos caminhos que se multiplicam silenciosamente pela floresta.
Regular essa expansão, reforçar o monitoramento e integrar políticas entre estados e países vizinhos são desafios urgentes apontados pelo estudo. No limite, o que está em jogo não é apenas a abertura de estradas – mas o modelo de desenvolvimento da Amazônia.




