Desmatamento compromete segurança hídrica da população de Rio Branco

Com mais de 40% da mata ciliar do rio Acre devastada apenas no entorno da capital, manancial fica exposto ao assoreamento e erosões. Sem floresta de borda, mais sedimentos são empurrados para o leito do rio, o que eleva o nível de turbidez. Aterramento de afluentes por madeireiras pode ser outro fator de ameaça.
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
A mais recente crise de distribuição de água potável em Rio Branco – que deixou milhares de domicílios sem água ou com fornecimento reduzido – é a clara exposição do grave processo de deterioração por que passa a única fonte de abastecimento da cidade: o rio Acre. Por mais de uma semana, o serviço de captação e tratamento precisou ser reduzido em 20% por causa da alta concentração de sedimentos no manancial. Essa alta presença de sedimentos também é chamada de turbidez.
De acordo com a prefeitura, as intensas chuvas que caíram ao longo de outubro foram as responsáveis por aumentar a presença de mais material particulado nas águas do rio Acre, o que dificulta (e encarece) os processos de purificação até o nível ideal para a distribuição aos consumidores. Porém, para especialistas ouvidos por Varadouro, o fenômeno também pode ter sido influenciado por ações humanas.
Uma das suspeitas recai sobre a denúncia de que madeireiras estariam construindo barragens (ou pontes) com pedaços de tora e barro sobre afluentes do rio Acre – como o Riozinho do Rola e o igarapé Espalha – para a passagem de caminhões. A denúncia foi feita pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores Extrativistas e Assemelhados de Rio Branco (Simpasa), Josimar Ferreira do Nascimento, O possível aterramento do leito dos mananciais acaba por despejar mais sedimentos na Bacia do Rio Acre.
O barro que se acumula às margens do rio durante os meses do verão são arrastados para o leito com a chegada das primeiras chuvas. Nos últimos cinco anos, a Bacia do Rio Acre vem sendo atingida diretamente por secas severas, que levam o manancial a alcançar níveis críticos de vazante. Foi o que aconteceu em 2024, quando o rio Acre alcançou o volume mais baixo em 50 anos de medições: 1,23m, em 21 de setembro.
Além das influências de um “novo normal” no clima da região, outro fator tem peso crucial na atual crise de abastecimento: o desmatamento da mata ciliar do rio Acre. A ausência de floresta de borda contribui diretamente para o despejo em assa de sedimentos ao leito do manancial – o que compromete a segurança hídrica da população rio-branquense.

Em janeiro, Varadouro publicou reportagem especial na qual mostra que, ao longo de cinco décadas, o rio Acre já perdeu mais de 40% de toda a cobertura de sua mata ciliar. Dos 11.670 hectares de mata ciliar do manancial localizada dentro do estado, ou 4,5 mil já foram completamente devastados.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em seu núcleo da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rio Branco é o segundo município com a maior destruição da mata ciliar do manancial; 43%. A capital fica atrás só de Epitaciolândia (58%). Do Alto ao Baixo Acre, a perda de floresta no entorno do rio é significativa – o que potencializa a ocorrência de oscilações extremas durante os períodos do inverno e do verão.
A ausência da floresta de borda potencializa os processos erosivos já comuns das margens de rio – o fenômeno da terra caída. Sem a mata, sedimentos dos barrancos e mesmo de áreas abertas são “empurrados” para o leito com a força das chuvas. É o que se chama de assoreamento do rio. Ou seja, o manancial reduz o tamanho de sua profundidade – o que contribui para a ocorrência de grandes alagações e secas.
“Quando se tem uma área sem floresta, mais assoreado o rio ficará, pois mais sedimentos são levados pela força das águas. Um rio assoreado implica num leito mais raso, com pouca profundidade. Por isso que o rio Acre, aqui na região de Rio Branco, quando se tem uma chuva mais acentuada, você tem um risco maior de alagamento por já termos perdido grande parte de nossa mata ciliar”, sintetiza o cientista Evandro Ferreira, do Inpa/Ufac.
SAIBA MAIS: Sucateado, sistema de distribuição de água em Rio Branco não está adaptado ao novo normal do clima
Quanto mais sedimentos na água, maior a sua turbidez, apresentada pela prefeitura como a justificativa para a atual crise de abastecimento. O Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb) afirma que este é um problema comum, mas intensificado. O comum, afirmam os gestores municipais, era a turbidez durar, no máximo, três dias. Agora já passam de dez.
Entre os dias 11 e 20 de outubro, o nível de turbidez foi superior a 1.000 NTU, quantidade considerada bastante incomum, fora da normalidade. Em três dos nove dias avaliados, os índices ficaram acima de 2.000 NTU. O Saerb reduziu a produção das duas Estações de Tratamento (ETAs 1 e 2) de 1.600 litros por segundo para 1.300, chegando a 1.200 litros por segundo em quatro dos últimos nove dias – tão alta esteve a presença de material em suspensão na água.
Após dias de alta turbidez, o rio Acre voltou a apresentar níveis normais de sedimentos no leito, o que possibilitou a volta à normalidade nos serviços de fornecimento de água potável para a população rio-branquense.




