Obstrução de mananciais marcam a atuação da atividade madeireira “sustentável” no Acre

Construção de barragem para a passagem de caminhões “toreros” no rio Yaco é apenas um entre muitos caso invisíveis aos olhos do órgão responsável por licenciar “manejo sustentável”. Destruição de pontes e bueiros em ramais da zona rural também são frequentes. Em Rio Branco, veículos carregados com toras circulam a qualquer hora e dia.
Dos varadouros em Rio Branco
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Extrativistas e Assemelhados de Rio Branco (Simpasa), Josimar Ferreira do Nascimento, está denunciando uma escalada de tensão entre posseiros e empresários madeireiros nas áreas remanescentes de floresta no entorno da capital acreana. Conhecido como Josa, ele afirma que os projetos de “manejo florestal sustentável” autorizados pelo governo estariam sendo usados como fachada para desmatamento e expulsão de pequenos produtores.
Além disso, os madeireiros estariam aterrando o leito dos igarapés para improvisar pontes que suportem as carretas de toras e, consequentemente, ameaçando os mananciais que abastecem o rio Acre, como o Riozinho do Rola e o Igarapé Espalha. A denúncia vem à tona após a revelação da construção de uma barragem no rio Yaco, em Sena Madureira, para a passagem de caminhões “toreros”
As imagens causaram revolta e grande repercussão nas redes sociais por a “ponte” construída pelas madeireiras atrapalhar a navegabilidade. Imagens mostram os ribeirinhos tendo que arrastar as embarcações sobre as barragens para continuar suas viagens.
Em 2022, durante a campanha de reeleição, o governador Gladson Cameli (PP) se reuniu com os empresários do setor madeireiro e prometeu “desburocratizar” a atividade no estado. O encontro foi intermediado pelo diretor-presidente do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), André Hassen, órgão responsável pelo licenciamento dos planos de manejo madeireiro – e sua eventual fiscalização.
Há ainda denúncias de que a passagem frequente de caminhões carregados com toras acabam por piorar as condições nos ramais da zona rural, atrapalhando a vida dos agricultores que precisam levar, diariamente, suas produções aos mercados da capital. Há relatos de destruição de pontes e bueiros por causa do grande peso das cargas
Dentro da cidade, também é possível se deparar frequentemente com o tráfego de caminhões carregados de toras. Sem fiscalização, circulam a qualquer hora do dia ou da noite em meio ao trânsito congestionado de Rio Branco, passando entre carros, ônibus e motocicletas.

“Quando se fala em manejo, você imagina uma técnica de exploração, mas aqui é diferente. Aqui estão levando tudo”, afirma Josa. Segundo ele, as práticas em curso vão muito além do corte seletivo de árvores maduras, princípio básico do manejo sustentável. “Estão expulsando posseiro, é briga, é ameaça. Onde tem castanha, os caras fazem manejo, metem o trator e depois vira pasto”, relata.
As consequências, segundo o sindicalista, já atingem os cursos d’água que abastecem comunidades rurais. “As bacias dos rios e igarapés estão secando. Os madeireiros aterram os rios para passar os caminhões com madeira. Jogam barro por cima e o rio fica entupido”, diz. “Quando chega o verão, eles aterraram o rio pra fazer as estradas da madeira. Depois, só uma enchente forte consegue desobstruir. Mas na seca, fica tudo parado.”
O sindicato, sediado em Rio Branco, reúne 11 mil trabalhadores extrativistas e comunidades tradicionais afetadas pela expansão do suposto manejo sustentável. As denúncias, segundo Josa, têm sido acompanhadas de ameaças a posseiros e extrativistas, especialmente em áreas de castanhais e reservas comunitárias.
De acordo com Josa, ele já denunciou o problema para o Imac, mas o órgão fez vistas grossas. Ele também procurou a Defensoria Pública e o Ministério Público Estadual e aguarda providências.
Procuradas, as autoridades ambientais do Acre ainda não se manifestaram sobre os casos citados. O governo do estado costuma defender que os projetos de manejo florestal são fiscalizados e seguem critérios técnicos de sustentabilidade. Enquanto isso, nas margens dos rios acreanos, cresce o temor de que o chamado “manejo sustentável” esteja acelerando a degradação ambiental e social que deveria evitar.
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