
Tati Sousa
Val Martins
dos varadouros de Cruzeiro do Sul
Durante a realização de uma prova do 5º ano do Ensino Fundamental, o silêncio da concentração foi interrompido pelo estalo seco da madeira. Parte do assoalho da Escola Estadual Rural Professor Francisco Albecir Brito da Silva cedeu repentinamente. No susto, uma estudante de apenas 11 anos quase caiu no vão que se abriu sob seus pés. Para evitar o acidente, precisou se segurar às pressas na parede.
O episódio é o retrato de um problema que, segundo moradores e profissionais da unidade de ensino, vem sendo denunciado há mais de dois anos. Ao longo desse período, a comunidade escolar tem solicitado reformas à Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Acre (SEE), diante dos danos estruturais no assoalho, nas paredes e no telhado. Sem soluções efetivas, estudantes e familiares passaram a se mobilizar nas redes sociais e na imprensa para denunciar as condições do prédio e cobrar providências.
Localizada na comunidade Periquito, antigo seringal São Pedro, na Reserva Extrativista (Resex) Riozinho da Liberdade, em Cruzeiro do Sul, a escola atende 56 estudantes de três comunidades ribeirinhas, distribuídos em seis turmas do ensino fundamental e médio. Mas a escola do Periquito não é apenas um prédio deteriorado, é um prédio histórico para a educação no Rio Liberdade.
Para agravar ainda mais a situação, crianças e adolescentes do rio Liberdade perderam seu direito à educação por conta da suspensão do serviço de transporte escolar fluvial. A empresa responsável pela operação das embarcações afirma que a interrupção aconteceu pela falta de pagamento por parte da SEE. E, até o momento, não há previsão de retorno das aulas.
Muito mais do que uma escola, um símbolo de resistência
A escola, que antes levava o nome de Joaquim Nogueira, foi fundada no início da década de 1990 pelo seringueiro e professor Francisco Albecir, falecido em fevereiro de 2024. Naquele período, o acesso à educação formal ainda era uma realidade distante para muitos filhos de seringueiros.
Segundo as memórias registradas de Albecir e de moradores do rio Liberdade, antigamente, as crianças começavam a trabalhar no corte da seringa por volta dos sete anos de idade, enquanto as oportunidades de escolarização eram restritas e desiguais, historicamente concentradas entre os filhos dos patrões seringalistas.
A criação da escola representou uma mudança nesse cenário. Sua história está diretamente ligada à formação da própria comunidade do Periquito. Antes de sua fundação, muitas famílias viviam espalhadas pelas colocações dos seringais, em áreas de floresta e igarapés afastados das margens do rio.
Movidas pelo desejo de garantir que seus filhos pudessem estudar, passaram a construir suas moradias próximas da escola, contribuindo para a formação da comunidade que hoje existe às margens do rio Liberdade.
Diante daquele contexto, a escola significava a possibilidade de abrir novos caminhos para as gerações seguintes, permitindo que os filhos dos seringueiros tivessem acesso a um direito historicamente negado a muitas dessas famílias seringueiras.

Assim, o que nasceu como uma iniciativa voltada à educação acabou se tornando parte da história de organização e permanência da comunidade naquele território.
Seu Albecir foi ex-seringueiro antes de se tornar professor e conhecia de perto as dificuldades de estudar no rio Liberdade. Ele fez da educação uma das principais lutas de sua vida. Fundador da escola, atuou nela como professor, diretor e coordenador de ensino, dedicando sua trajetória à educação escolar na região.
A instituição que hoje leva seu nome guarda parte desse legado: a história de um educador que trabalhou para que crianças e jovens das comunidades ribeirinhas tivessem oportunidades que gerações anteriores não tiveram.
É justamente por essa história que a situação atual da escola provoca uma reflexão que ultrapassa a precariedade de sua estrutura física. O que significa homenagear um educador que dedicou a vida à educação dos filhos de seringueiros quando os estudantes, hoje, denunciam que não se sentem seguros em seu interior?
Como preservar o legado de quem lutou para abrir as portas da escola se as condições do prédio ameaçam o cotidiano e o ensino-aprendizado?
Ausência de providências
A preocupação com a estrutura da unidade de ensino já chegou ao Ministério Público do Acre. Alguns estudantes denunciaram ao órgão a situação da escola. A comunidade escolar também elaborou um abaixo-assinado reivindicando a construção de uma nova unidade em alvenaria.
Além disso, os moradores já acionaram a Defesa Civil para solicitar uma vistoria técnica no prédio. O órgão, contudo, ainda não realizou o atendimento, alegando dificuldades logísticas e a falta de estrutura própria para acessar a comunidade ribeirinha.
Em 2025, o então governador do Acre, Gladson Cameli, destinou R$ 1.010.326,56 para a manutenção preventiva e corretiva de cinco escolas da rede estadual de ensino em Cruzeiro do Sul, incluindo a escola do Periquito.
Apesar disso, segundo o relato da comunidade escolar, a Secretaria de Educação comunicou que seriam construídas apenas duas salas de aula para atender à demanda de alunos e turmas.

A construção dessas salas, contudo, não responde, por si só, à preocupação com as condições do assoalho, das paredes e do telhado. Para a comunidade, o desafio não é somente ampliar a capacidade de atendimento, mas garantir que a escola ofereça condições adequadas de segurança e aprendizagem.
Na semana passada, a reportagem do Varadouro entrou em conato com a Secretaria de Educação para obter informações atuais sobre planos ou perspectivas de reformas na escola do Periquito, mas até o momento não obtivemos respostas.
A história da escola na Resex do Liberdade é a história de uma comunidade que se organizou em torno do direito de estudar. Sua criação ajudou a transformar a vida de famílias seringueiras e a construir novas possibilidades para seus filhos. Décadas depois, porém, os estudantes precisam reivindicar algo que deveria ser básico: um espaço digno e seguro para aprender.
Uma triste realidade que se espalha pelo interior do Acre. Com escolas da zona rural completamente abandonadas pelo governo. Um dos casos mais emblemáticos e revoltantes foi a registrada na comunidade do Limoeiro, no Bujari, onde crianças precisaram transformar um curral numa escola.
A memória de Seu Albecir permanece viva na trajetória das famílias que conquistaram o direito à educação no rio Liberdade, em Cruzeiro do Sul. Mas honrar esse legado exige mais do que manter seu nome na fachada de uma escola. Exige compromisso com as crianças e os jovens que hoje ocupam suas salas de aula.
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