SEM REPRESENTATIVIDADE

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Bancada do Acre no Congresso acumula votos contra direitos indígenas, aponta Cimi

Os três senadores e cinco dos oito atuais deputados federais têm maioria de votos classificados como contrários aos povos indígenas; Alan Rick reúne 71 registros desfavoráveis, enquanto Socorro Neri tem 61 favoráveis e nenhum contrário. Resultado expõe uma contradição na representação política do Acre: parlamentares eleitos por um estado amazônico, onde os indígenas formam a nossa identidade enquanto povo, acumulam votos contrários aos direitos dessas populações.

Indígenas em frente ao Congresso Nacional, em Brasília: levantamento do Cimi mostra predominância de votos contrários aos direitos dos povos originários no histórico da atual bancada do Acre (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)




Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco

Eleita por um estado amazônico, onde os povos indígenas integram a história e a vida dos territórios, a bancada do Acre no Congresso apresenta predominância de votos contrários aos direitos dessas populações. Levantamento da plataforma Congresso Anti-Indígena, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que os três atuais senadores e cinco dos oito deputados federais acreanos acumulam mais votos classificados como desfavoráveis do que favoráveis aos povos originários nas votações analisadas entre 2019 e 2026.

A plataforma Congresso Anti-Indígena (CAI) reúne informações sobre propostas legislativas, votações e posições de deputados, senadores e legendas em assuntos que afetam os direitos dos povos originários.

Disponível para consulta pública, a ferramenta sistematiza 525 proposições legislativas apresentadas após a redemocratização. O levantamento sobre o comportamento dos partidos examinou 41.391 votos em 110 votações nominais, realizadas entre janeiro de 2019 e julho de 2026, envolvendo representantes de 28 legendas na Câmara e no Senado.

Os resultados mostram uma predominância de posições classificadas pelo Cimi como contrárias aos direitos indígenas. Dos votos analisados, 27.965, equivalentes a 67,56%, receberam essa classificação. Outros 13.081 votos, ou 31,60%, foram considerados favoráveis, enquanto 345 registros, correspondentes a 0,84%, foram classificados como neutros.

Na comparação entre as legendas, 19 partidos votaram total ou majoritariamente contra os direitos indígenas, segundo os critérios do levantamento. O PL – do presidenciável Flávio Bolsonaro – acumulou 6.630 votos contrários, correspondentes a 95,9% dos registros da sigla.

Também aparecem entre os destaques o União Brasil, com 85,8%, o PP, com 85,6%, e o PSD, com 80,9%. Oito partidos apresentaram posições majoritária ou totalmente favoráveis aos direitos indígenas nas votações examinadas.

A iniciativa atualiza, em formato digital, um trabalho divulgado pelo Cimi em 2018. Com dados públicos das duas legislaturas seguintes, a organização busca ampliar a transparência e apoiar comunidades indígenas, pesquisadores, jornalistas e movimentos sociais na fiscalização do Congresso. Em ano eleitoral, a ferramenta também oferece elementos para avaliar o histórico de parlamentares que voltam a disputar uma cadeira na Câmara ou no Senado.


Na TV VARADOURO
Uma série de entrevistas com candidaturas indígenas do Acre na disputa eleitoral de 2026


Como vota a bancada eleita pelos acreanos?


Varadouro usou a ferramenta do Cimi para saber como a atual legislatura do Acre se posicionou quanto à pauta indígena nos últimos anos. O resultado não traz nenhuma surpresa. Entre os senadores, Márcio Bittar (PL) – fiel porta-voz bolsonarista no estado, que está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto – aparece com três proposições e 52 votos anti-indígenas desde 2019.

Em sterceiro lugar com mais posições contrárias aos interesses dos povos indígenas está o senador Sérgio Petecão (PSD), que ocupa uma cadeira na casa desde 2011. Ele tem duas proposições e 47 votos anti-indígenas – isso apenas nos últimos oito anos.

Apesar de estar no Senado apenas por quatro anos e agora candidato ao governo do Acre, Alan Rick (Republicanos) é o campeão na votação de projetos que enfraquecem os direitos indígenas: 71. Ao todo, o parlamentar apresentou três propostas consideradas anti-indígenas pelo Cimi. O político acreano só votou uma vez favorável aos povos indígenas, enquanto Petecão votou duas e Márcio Bittar, nenhuma vez.




Câmara dos Deputados

Cinco dos oito atuais deputados federais do Acre apresentam maioria de votos classificados como contrários aos direitos indígenas. Coronel Ulysses (União Brasil) acumula 61 votos contrários e nenhum favorável, enquanto Antônia Lúcia (MDB) registra 13 contrários e Zé Adriano (PP), sete, ambos sem votos favoráveis. Roberto Duarte (Republicanos) aparece com 61 votos contrários e três favoráveis; Eduardo Velloso (Solidariedade), com 15 contrários e um favorável.

Entre os parlamentares com predominância favorável, Socorro Neri (PP) se destaca com 61 votos classificados como favoráveis aos povos indígenas e nenhum contrário. Meire Serafim (União Brasil) e Zezinho Barbary (PP) apresentam, cada um, 53 votos favoráveis e cinco contrários, proporção de 91,4% favorável entre os registros classificados nesses dois sentidos.

Os resultados revelam diferenças dentro das próprias legendas: no PP e no União Brasil, integrantes da bancada acreana apresentam históricos opostos nas votações analisadas.




Um Acre sem representação

O resultado expõe uma contradição na representação política do Acre: parlamentares eleitos por um estado amazônico, onde os povos indígenas integram a história, a diversidade cultural e a vida dos territórios, acumulam votos classificados pelo Cimi como contrários aos direitos dessas populações.

Embora representem toda a sociedade acreana, suas decisões no Congresso também recaem sobre comunidades que dependem da garantia dos direitos territoriais e do respeito à autonomia para manter seus modos de vida.

O levantamento oferece aos eleitores elementos para cobrar essa correspondência: a identidade amazônica do estado precisa encontrar expressão nos votos de quem foi eleito para representá-lo.

Na avaliação de Cleber César Buzatto, integrante do Cimi e autor de uma análise sobre o levantamento, os resultados demonstram que a escolha do partido tem importância para os povos indígenas e seus aliados, além da avaliação individual das candidaturas.

A consulta à plataforma Congresso Anti-Indígena permite ao eleitor conhecer esse histórico e cobrar coerência entre os compromissos anunciados nas campanhas e as decisões tomadas no exercício do mandato.




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Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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