Gladson precisa ser expurgado da disputa eleitoral; ele atrapalha o processo democrático

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Gladson precisa ser expurgado da disputa eleitoral; ele atrapalha o processo democrático


O eleitor acreano se prepara para escolher dois senadores. Um dos nomes que aparecem nas pesquisas, pede votos e ocupa espaço na campanha teve o registro de candidatura indeferido pela unanimidade do Tribunal Regional Eleitoral. Gladson Cameli continua na disputa porque recorreu. É um direito seu. Mas o direito de recorrer não apaga o fato que deveria estar no centro do debate: até aqui, a Justiça Eleitoral disse que ele não pode ser candidato.

Gladson foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça a 25 anos e nove meses de prisão por crimes ligados a um esquema de corrupção em seu governo, entre eles peculato, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A condenação colegiada fundamentou o indeferimento do registro com base na Lei da Ficha Limpa.

Há recursos em andamento; a condenação não deve ser apresentada como se todos eles já tivessem terminado. Também não pode ser tratada como um detalhe incômodo que a propaganda eleitoral resolve com um sorriso e uma dancinha.

No TRE, a defesa já tentou reverter o indeferimento por meio de embargos de declaração. O tribunal manteve a decisão, e Gladson levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral. É esse o estado da candidatura: indeferida no Acre, com recurso pendente em Brasília. Em resumo, Gladson é um candidato sub-judice, em coppleto estado de insegurança jurídica.

Dizer ao eleitor apenas que Gladson “está concorrendo” é esconder a parte da informação que pode definir o destino do voto.

Precisa saber que uma eventual vitória nas urnas não significará, por si só, uma cadeira assegurada no Senado, uma anulação de sua condenação no STJ ou o engavetamento dos outros processos a que ele responde naquela mesma Corte.

O eleitor não pode ser chamado a decidir às cegas enquanto a campanha vende como certa uma candidatura que a Justiça Eleitoral já indeferiu.

Também não é sério prometer uma solução automática para o impasse. Se Gladson estiver entre os eleitos e o indeferimento do registro se tornar definitivo, poderá ser necessária uma eleição suplementar para a vaga, conforme as circunstâncias e a decisão da Justiça Eleitoral. Isso não decorre simplesmente da chegada do dia da diplomação.

O calendário do TSE fixa 18 de dezembro como prazo final para diplomar os eleitos em 2026; o que acontecerá com a vaga dependerá do resultado eleitoral e do desfecho judicial.

Em vez disso, mais uma campanha é arrastada para o calendário dos tribunais, enquanto parte do eleitorado tenta adivinhar se o nome exibido na urna poderá, afinal, assumir o mandato.

Já escrevi sobre a decadência da representação acreana no Senado. Hoje, o quadro é ainda mais constrangedor: um ex-governador condenado por um tribunal superior e barrado pelo TRE segue pedindo ao povo que deposite nele um dos dois votos para senador. Gladson tem direito à defesa. O Acre também tem direito a uma eleição clara, com candidaturas cuja situação jurídica seja dita sem truques ao eleitor.

Por isso defendo que Gladson seja expurgado da disputa eleitoral, pelos meios da lei e por uma decisão definitiva da Justiça. Quanto antes seus recursos forem julgados, melhor para todos – inclusive para quem pensa em votar nele. Democracia exige voto livre e informado. Não se fortalece a vontade popular convidando o eleitor a apostar seu voto numa candidatura que pode não chegar ao Senado.

A impugnada e indeferida candidatura de Gladson Cameli embaralha a cabeça do eleitor. Traz mais dúvidas do que certezas. Ela cria uma insegurança jurídica e atrapalha por completo o processo democrático. Mesmo sabendo que tem poucas chances de anular a sua condenação, Gladson aposta todas as fichas em sua eleição ao Senado para lhe ter assegurada a imunidade parlamentar – ou seja, a impunidade. Ao fim e ao cabo, essa conta ficará pra gente pagar.







Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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