
dos varadouros de Rio Branco
A Polícia Federal investiga uma estrutura montada para acompanhar os passos da própria corporação no Acre. O objetivo, segundo os investigadores, seria descobrir a movimentação de agentes e viaturas, antecipar operações e reduzir a eficácia de medidas judiciais contra pessoas investigadas em fases anteriores da Operação Ptolomeu. Essa é a frente de apuração que deu origem à Operação Umbra, deflagrada na terça-feira (22).
Uma reportagem da TV Gazeta publicada pelo site agazeta.net acrescenta um dado central ao caso: Gladson Cameli é apontado na investigação como chefe do grupo suspeito de espionar a PF.
Não é por menos. Foi por conta dos inquéritos da operação Ptolomeu, deflagrada em dezembro de 2021. que o ex-governador foi condenado a 25 anos e 9 meses de cadeia, pelo Superior Tribunal de Justiça, pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro, fraude a licitação e formação de organização criminosa.
Conforme a reportagem, um ajudante de ordens e o ex-secretário da Casa Civil Jonathan Donadone seriam responsáveis pela execução das ações.. Dias atrás, Donadone também foi alvo da operação Death Note, da PF e CGU, que apura suspeitas de fraudes na Secretaria de Educação, cujos valores chegam a R$ 30 milhões.
A contrainteligência teria começado na recepção da Superintendência da PF em Rio Branco. Segundo a apuração apresentada pela TV Gazeta, um vigilante terceirizado observava quem entrava no prédio, e repassava informações ao grupo, principalmente a Taiane Santos (PDT), candidata a deputada estadual.
Os dados incluiriam a identidade dos visitantes, o motivo da ida à PF e o tempo de permanência no local. O vigilante já não presta serviço à superintendência. Durante o cumprimento dos mandados judiciais da operação Umbra, a PF apreendeu dinheiro em espécie na casa dele.
A vigilância de quem entrava e saia do prédio da PF, ainda conforme a reportagem, continuaria depois que essas pessoas deixavam a sede da instituição. Integrantes do grupo também teriam buscado informações em hotéis de Rio Branco para acompanhar deslocamentos de hóspedes, sobretudo quem chegava de fora. A proprietária de um dos hotéis suspeitos de repassar informações ao grupo criminoso sobre pessoas que estiveram no prédio da PF também é alvo da operação Umbra.
No Acre pós-Ptolomeu, uma outra tática comum também era acompanhar a movimentação no aeroporto da capital, sobretudo a chegada de aeronaves da Polícia Federal.
O objetivo era saber se aviões e helicópteros da corporação traziam uma grande quantidade de agentes para realizar operações que viessem a ter como alvo figuras-chave do governo Cameli. A cada pouso de uma aeronave da PF, criava-se uma celeuma na capital acreana, com vídeos circulando em redes sociais. Movimentações atípicas de viaturas da PF – apelidadas de Uber Black – também chamavam a atenção.
A espionagem sobre as ações da Polícia Federal, obviamente, era para se antecipar a possíveis cumprimentos de mandados de busca e apreensão – e sobretudo prisões. O objetivo era traçar um plano de fuga antes da chegada dos agentes federais, em especial fugas terrestres para a vizinha Bolívia – onde os federais ficariam impedidos de cumprir os mandados de prisão.
Desde 2021, o ex-governador Gladson Cameli cumpre medidas cautelares impostas pelo STJ, entre elas a retenção de seu passaporte – como forma de evitar fugas para fora do Brasil.
A PF informou que apura a possível participação de um ex-terceirizado e de um agente da própria instituição no repasse indevido de dados sobre operações policiais. A TV Gazeta relata que 16 pessoas são investigadas nessa frente.
Entre os nomes citados pela emissora estão o vereador de Rio Branco Moacir Júnior, do Solidariedade, e sua irmã, Taiane Santos, alvos de buscas na terça-feira, quando a operação Umbra tomou as ruas da capital.
A reportagem informa ainda que Anne Caroline Arantes Rodrigues, também investigada, teria feito uma doação em dinheiro à campanha de Taiane. Durante as diligências, agentes encontraram dinheiro em espécie no carro da esposa do vereador e apuram sua possível destinação.
Esses pontos permanecem sob investigação; a reportagem da TV Gazeta afirma que a apuração envolvendo os irmãos não foi apresentada como investigação de crime eleitoral.
Umbra e Ptolomeu IV foram deflagradas simultaneamente, mas tratam de frentes distintas. Enquanto a Umbra investiga a suspeita de espionagem e tentativa de embaraçar as apurações, a Ptolomeu IV examina contratos relacionados à construção da nova sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).
Uma auditoria da Controladoria-Geral da União apontou cerca de R$ 1,2 milhão em possível superfaturamento por serviços pagos e não concluídos na etapa inicial da obra.
Nas duas operações, foram cumpridos 28 mandados de busca e apreensão em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre, Maringá, no Paraná, e Navegantes, em Santa Catarina. As ordens partiram do Superior Tribunal de Justiça. A PF informou a apreensão de aproximadamente R$ 1 milhão em espécie e a prisão em flagrante de três suspeitos por posse ilegal de armas de fogo.
