
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
A Polícia Federal voltou às ruas nesta terça-feira, 22, para cumprir mandados relacionados à Operação Ptolomeu, investigação que há quase cinco anos expõe suspeitas de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro dentro do governo do Acre. Desta vez, agentes estiveram na casa do ex-governador Gladson Cameli (PP), onde veículos de luxo foram apreendidos, segundo informações divulgadas pela imprensa local.. Imagens divulgadas pela assessoria da PF também mostram a apreensão de relógios de luxo – algo semelhante ocorrido durante as primeiras fases da Ptolomeu, em 2021.
As operações Ptolomeu IV e Umbra cumpriram, juntas, 28 mandados de busca e apreensão em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre, além de Maringá, no Paraná, e Navegantes, em Santa Catarina. Todas as ordens foram expedidas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde tramitam as investigações.
A nova fase da Ptolomeu apura possíveis fraudes relacionadas à construção da sede do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac). Auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) identificou um superfaturamento estimado em R$ 1,2 milhão decorrente de serviços que foram medidos e pagos pelo poder público, mas não teriam sido integralmente executados.
Segundo a Polícia Federal, também foram encontrados indícios de que parte dos recursos recebidos pela empresa contratada teria sido desviada para o pagamento de despesas particulares e para a concessão de vantagens indevidas a agentes públicos. A movimentação financeira da empreiteira revelou ainda grandes saques em dinheiro vivo e outras operações consideradas atípicas.
A investigação alcança também uma segunda empresa, posteriormente contratada para concluir a mesma obra. Para a PF, há sinais de sucessão empresarial e de continuidade das práticas investigadas, além de vínculos entre pessoas relacionadas à nova contratada e empresas que já haviam aparecido nas fases anteriores da Ptolomeu.
Durante o cumprimento dos mandados, os agentes apreenderam cerca de R$ 1 milhão em espécie. Três investigados foram presos em flagrante por posse ilegal de armas de fogo. O STJ também autorizou o sequestro de bens e valores para eventual ressarcimento aos cofres públicos.
Entre as medidas cautelares determinadas estão o afastamento de investigados de funções públicas, a proibição de contato entre eles e de acesso a determinados órgãos, além da proibição de deixar a comarca onde residem ou o país. Os passaportes deverão ser entregues à Superintendência da Polícia Federal no Acre.
Esta é a segunda operação deflagrada pela Polícia Federal, em menos de uma semana, para investigar suspeitas de corrupção dentro da estrutura do governo do Acre. Na quinta-feira, 17, a Operação Death Note cumpriu 27 mandados de busca e apreensão durante a apuração de um possível esquema de desvio de recursos federais destinados à Secretaria de Estado de Educação e Cultura por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Segundo a PF e a Controladoria-Geral da União, empresários, agentes públicos e terceiros teriam atuado no direcionamento de licitações, desvio de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas, além da ocultação da origem e dos destinatários dos recursos. O prejuízo aos cofres públicos é estimado em mais de R$ 30 milhões. Agora, cinco dias depois, as operações Ptolomeu IV e Umbra atingem novamente a administração estadual, desta vez com suspeitas envolvendo a obra da sede do Imac.

Uma estrutura paralela para espionar a Polícia Federal
Paralelamente, a Operação Umbra investiga uma estrutura de contrainteligência que teria sido montada para espionar a própria Polícia Federal. O grupo buscaria informações sobre operações, deslocamentos de equipes e movimentação de viaturas para antecipar o cumprimento de mandados e reduzir a eficácia das medidas judiciais.
A PF identificou a possível participação de um ex-servidor terceirizado e de um agente da própria instituição no vazamento de informações sigilosas. A suspeita é de que os dados fossem repassados a pessoas investigadas nas fases anteriores da Ptolomeu.
Os alvos poderão responder, conforme a participação de cada um, pelos crimes de organização criminosa, fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação de organização criminosa.
Da investigação à condenação
Deflagrada em dezembro de 2021, a Operação Ptolomeu revelou as entranhas de um esquema que, segundo a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, foi instalado dentro do governo estadual para direcionar contratos, desviar recursos e lavar dinheiro público.
Na série especial Esquemão Azul, Varadouro mostrou como as investigações alcançaram contratos milionários, compras superfaturadas durante a pandemia, movimentações em dinheiro vivo, imóveis e veículos de luxo, além da atuação de empresários apontados como operadores do grupo político comandado por Gladson.
As denúncias deixaram de ser apenas objeto de investigação. Em maio deste ano, a Corte Especial do STJ condenou Gladson Cameli a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicialmente fechado, pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. Para o tribunal, o então governador liderou o esquema criminoso instalado no governo acreano.
A condenação também atingiu a candidatura de Gladson ao Senado. Em agosto, a Corte Especial do STJ rejeitou o principal recurso apresentado pela defesa e manteve a decisão. No dia 11 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Acre indeferiu, por unanimidade, o registro de candidatura do ex-governador, reconhecendo que a condenação colegiada o enquadra na Lei da Ficha Limpa. Ainda cabe recurso às instâncias superiores.
Agora, em plena campanha eleitoral e apenas 11 dias depois de ter sua candidatura barrada pelo TRE, Gladson volta ao centro de uma operação policial. A Ptolomeu, que começou com agentes entrando no Palácio Rio Branco em 2021, retorna à porta do ex-governador condenado e revela uma nova e ainda mais grave suspeita: a existência de uma estrutura criminosa dedicada a vigiar e sabotar quem investigava o esquema.
Outro lado
Em nota, a campanha de Gladson Cameli afirmou considerar “estranha” a deflagração da operação às vésperas das eleições e acusou influenciadores, blogs e sites ligados a adversários de terem recebido informações antecipadas para prejudicar a candidatura. A defesa declarou que ainda não teve acesso aos fundamentos da diligência, mas disse que o candidato e seus advogados estão à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos e reiterou a alegação de inocência.
A campanha também classificou as medidas como abusivas e acusou as instituições de perseguição com finalidade eleitoral. Segundo a nota, a operação teria desrespeitado decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 1017, que, conforme a defesa, restringiria medidas cautelares contra candidatos a cargos majoritários nos 15 dias anteriores ao pleito. A manifestação conclui afirmando confiar na Justiça, em Deus e no julgamento dos eleitores acreanos.
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