QUANDO O RIO MUDA

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Na era dos eventos extremos climáticos, o rio Acre revela uma Amazônia em transformação

Cheias históricas e secas recordes passaram a se alternar com mais frequência na bacia do rio Acre. Ao percorrer o caminho das águas, da nascente no Peru até a capital do estado, Rio Branco, são visíveis as fortes transformações na paisagem da nova fronteira agrícola que ajudam a explicar a instabilidade no sistema hidrológico.

Ponte sobre o Rio Acre, registrado em julho de 2026 – como a maior parte das imagens desta reportagem – na divisa entre o Brasil e o Peru. Foto: Alexandre Cruz-Noronha/Jornal Varadouro



Izabel Santos
dos varadouros de Manaus

Antônio Chaves, de 82 anos, aposentado e também morador do município de Brasiléia, aponta o lugar onde ficava sua casa, às margens do rio Acre, destruída pela enchente de 2023. O terreno fica em uma área que, segundo ele, abrigava um campo de futebol e espaços de convivência frequentados pela comunidade. “A água quebrou tudo”, resume, ao lembrar da força da correnteza, capaz de arrancar as barrancas do rio e levar embora tudo o que encontra pelo caminho.

Ele também lembra de outra mudança que, para ele, ajuda a explicar a sensação de que o clima já não é o mesmo. Segundo o morador, as friagens – massas de ar frio que chegam à Amazônia vindas do sul do continente – costumavam durar muito mais tempo. “Quando eu era criança, a gente passava oito dias, às vezes até duas semanas de friagem. Agora faz dois dias de frio e acabou. Os bichos morriam [de frio], até os passarinhos”, recorda.

Antônio Chaves, às margens do Rio Acre. Foto: Alexandre Cruz-Noronha/Jornal Varadouro



A preocupação da moradora reflete uma realidade vivida por milhares de pessoas ao longo da bacia do rio Acre. Desde 2012, grandes enchentes desalojaram famílias em diferentes municípios e, pouco tempo depois, foram sucedidas por estiagens severas que afetaram o abastecimento de água, a pesca e outras atividades que dependem do rio.

A dependência do rio deixa a capital Rio Branco vulnerável aos dois extremos. Nas cheias, a força da correnteza pode comprometer a estrutura usada para captar água; nas secas, as bombas precisam operar diante de níveis cada vez mais baixos. Em uma das enchentes, um dos flutuantes que sustentavam as bombas da Estação de Tratamento de Água (ETA 2) chegou a ser arrastado pela correnteza e ficou preso à Ponte Metálica, na região central da capital acreana, comprometendo grande parte do abastecimento da cidade.

Em Rio Branco, onde há maior visibilidade política e midiática, a população assistiu, em uma década, o rio Acre ultrapassar cotas históricas de inundação e, depois, atingir níveis históricos e criticamente baixos durante a seca. Mas não foi só ele, o Purus e o Juruá, outros rios importantes do estado, também passaram pelo mesmo processo. A diferença é que o rio Acre impacta uma população maior durante o seu percurso, pois mais da metade da população do estado vive na bacia e depende diretamente de suas águas.

O antigo seringal Empreza – então terras bolivianas – virou cidade e teve seu processo de urbanização acelerado a partir da década de 1970, quando milhares de famílias foram expulsas da floresta pelos chamados “paulistas”- pessoas do Sudeste e do Sul do Brasil que migraram para a região – durante o processo de bovinização da Amazônia na ditadura militar. Famílias construíram suas casas – ou barracos – às margens do rio em bairros como Cidade Nova, Bairro do 15, Baixada da Sobral, Taquari e outros; regiões que hoje são classificadas como áreas de risco por estarem mais expostas às alagações, às terras caídas.

Nem mesmo o centro histórico – de onde o crescimento de Rio Branco avançou – passa incólume aos movimentos do rio. As enchentes e secas constantes e mais intensas levam ao desbarrancamento de espaços turísticos como o Calçadão da Gameleira e do Mercado Velho, locais onde – em décadas passadas – ancoravam as grandes embarcações vindas de Manaus e de Belém trazendo mercadorias e pessoas para a pujante capital acreana.

Na volta, desciam o rio carregando pedras e mais pedras de borracha. Hoje, o rio já não permite esse tipo de navegação. As rodovias abertas na Amazônia durante a ditadura aceleraram o desmatamento e contribuíram para levar o manancial ao colapso destas atividades e reduzir o uso do rio no abastecimento. 

Visão aérea de Brasiléia e do Rio Acre. Foto: Alexandre Cruz-Noronha/Jornal Varadouro



Em Rio Branco, a régua instalada à margem do rio tornou-se um símbolo desse cotidiano: é por ela que muitos medem o ano pela intensidade da cheia ou pela severidade da seca. Nos bairros às margens do rio, as marcas d’água nas paredes dão a dimensão da severidade das últimas enchentes.

Em muitos bairros há ainda o fenômeno da “terra caída”, o desbarrancamento das margens por conta do sobe e desce das águas – engolindo casas, comércios, ruas e toda uma história de uma cidade surgida há mais de um século nos barrancos do rio Acre.

As pontes ligando o primeiro ao segundo distrito da cidade substituíram a velha figura do catraieiro e suas catraias, que levavam os rios-branquenses de uma margem a outra e eternizados na canção do sambista acreano Da Costa: Catraieiro rema, me leva pro lado de lá, menino seguro o remo, não deixa a catraia virar, que eu não sei nadar.   

Um ambiente que mudou e se transformou ao longo das últimas décadas. No entorno da cidade a floresta desapareceu. Saíram os seringais, entraram as grandes fazendas de gado.

O rio Acre é a principal fonte de abastecimento dos municípios do vale do Acre, onde vive mais da metade da população do estado, e integra uma bacia transfronteiriça que conecta Peru, Bolívia e Brasil. Apesar de sua importância social, econômica e ambiental, o rio enfrenta um processo acelerado de degradação desde a década de 1970, provocado pelo desmatamento das matas ciliares, pela expansão da pecuária e da soja, pela exploração madeireira e pelo uso de agrotóxicos, que alcançam seus afluentes e comprometem a água consumida pela população. 

As consequências podem ultrapassar as fronteiras nacionais: secas e enchentes afetam cidades brasileiras e localidades vizinhas no Peru. As cabeceiras da bacia também sofrem pressões, atingindo territórios indígenas e áreas ocupadas por povos isolados. No Acre, quatro áreas protegem oficialmente povos indígenas isolados: as TIs Kampa e Isolados do Rio Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira, além do Igarapé Taboca Alto Tarauacá, sob restrição de uso. Juntas, somam 636 mil hectares, 26% das Terras Indígenas do estado. No Peru, os departamentos de Ucayali e Madre de Dios reúnem 2,3 milhões de hectares em quatro reservas destinadas a esses povos: Madre de Dios, Isconahua, Murunahua e Mashco Piro.

Em 2012, o rio atingiu 17,63 metros, então a segunda maior marca da série histórica, deixando cerca de 90% da área urbana de Brasiléia submersa. O município tem 26 mil habitantes – a sexta maior cidade do estado – fica na fronteira com a Bolívia e faz divisa com a cidade de Cobija. Três anos depois, em 2015, alcançou 18,40 metros e provocou a maior enchente já registrada no Acre, afetando mais de 102 mil pessoas – o equivalente a 11,5% da população ou 1 em cada 10 pessoas no estado. Em 2023, uma nova cheia voltou a figurar entre as maiores da história. Poucos meses depois, em setembro de 2024, o rio registrou a menor cota desde o início das medições, em 1971: apenas 1,23 metro.

Em apenas doze anos, o rio Acre registrou quatro das maiores cheias de sua série histórica (2012, 2015, 2023 e 2024), além de recordes consecutivos de seca em 2022 e 2024. E 2024 foi um ano de extremos, com seca e cheia dentro do intervalo de um ano. A sucessão desses eventos revela uma alternância cada vez mais rápida entre enchentes excepcionais e estiagens severas, fazendo com que a população da bacia viva em permanente expectativa pelo próximo evento extremo.

O rio Acre nasce na região amazônica de Madre de Dios, no Peru, atravessa áreas de floresta, pastagens e assentamentos rurais ao mesmo tempo em que atua como divisor entre três países, entra no Brasil por Assis Brasil, fronteira com o Peru, passa por Brasiléia, Epitaciolândia, fronteira com a Bolívia, e Xapuri – onde nasceu o famoso líder sindicalista da indústria da borracha e ambientalista Chico Mendes –  até chegar à capital acreana. 

Depois, segue seu curso até desaguar no rio Purus, que percorre 3382 quilômetros até desaguar no rio Amazonas, conectando diferentes paisagens, populações e formas de ocupação ao longo de mais de mil quilômetros.

Nesta reportagem publicada pelo Varodouro como parte do projeto Águas Partidas, uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), investigamos como as drásticas mudanças do rio Acre afetam a vida de comunidades ribeirinhas e urbanas em uma das regiões onde agricultura se expande rapidamente na Amazônia.




As marcas de um rio que mudou


À primeira vista, a rua tranquila de Assis Brasil não revela as marcas deixadas pelas enchentes que, nos últimos anos, transformaram a rotina de dezenas de famílias. Para Dona Maria das Neves, de 52 anos, moradora da região há duas décadas, as grandes inundações romperam uma história de convivência aparentemente segura com o rio. “Quando cheguei aqui, o rio era bem perto da casa e não alagava. Agora ele seca mais do que secava e enche mais do que enchia”, relembra. 

Segundo ela, a primeira grande enchente ocorreu em 2012 e surpreendeu toda a comunidade. Até então, mesmo vivendo às margens do rio, nunca havia enfrentado uma inundação dessa proporção. Sem tempo para retirar os pertences, perdeu materiais de construção, móveis e parte do pequeno comércio que mantinha ao lado da residência. Desde então, a chegada do inverno — como a população chama o período de chuvas na Amazônia — passou a significar medo. “Quando começa o ano, o medo já é total. A gente vê a água chegando e sabe que pode perder tudo de novo”, relata.



De forma simplificada, o nível do rio Acre acompanha o regime de chuvas da bacia. Períodos de chuva intensa aumentam a quantidade de água que chega ao rio e podem provocar transbordamentos; durante estiagens prolongadas, a vazão diminui e o nível pode atingir marcas críticas. Essa relação, porém, não depende apenas de quanto chove. A forma como a água chega ao rio e circula pela bacia também interfere em seu comportamento, uma relação que será retomada adiante. Nas secas mais severas, em pontos próximos às cabeceiras, na fronteira com o Peru, há trechos em que é possível atravessar o rio caminhando.

Para quem vive às margens do Acre, outra mudança percebida está no calendário das chuvas. O que durante anos serviu de referência para organizar a vida e a produção já não parece tão previsível. As primeiras chuvas do chamado “inverno amazônico”, antes esperadas entre o fim de setembro e o começo de outubro, podem demorar mais a chegar, prolongando o período seco.

A memória de Dona Maria acompanha essas mudanças. Ela conta que, quando chegou à região, a mata ocupava uma parte muito maior da paisagem ao redor. Com o passar dos anos, viu a floresta perder espaço para áreas abertas. “Antes era só mata. Hoje é só campo”, resume.

Em dezembro de 2025, o rio Acre ultrapassou, pela primeira vez em 50 anos naquele mês, a cota de transbordamento em Rio Branco, de 14 metros. “Em todo o nosso histórico de 55 anos de monitoramento, observamos que apenas uma vez houve transbordamento no mês de dezembro, em 26 de dezembro de 1975”, afirmou, na ocasião, o tenente-coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil Municipal. “Tivemos uma situação semelhante em dezembro de 2019, quando o rio marcou 13,78 metros.”

Mais dolorosa que as perdas materiais foi a tragédia familiar vivida durante uma das enchentes mais recentes. Enquanto tentava salvar os bens da casa, o  marido de Maria das Neves, que era diabético, passou mal após o esforço físico e o estresse provocado pela rápida subida das águas. Ele foi levado ao hospital, mas não resistiu. Ao recordar aquele momento, ela resume o sentimento que permanece: “Depois eu consegui limpar a casa e colocar as coisas no lugar. Mas ele já não estava. Nada do que eu fizesse ia trazê-lo de volta”.

Dona Maria das Neves com a filha. Foto: Alexandre Cruz-Noronha/Jornal Varadouro




Em seu relato, a experiência cotidiana se mistura à fé, que lhe serve de amparo diante das perdas e da incerteza. Seu testemunho revela como as mudanças ambientais ultrapassam os impactos físicos das enchentes e atingem profundamente a vida, a memória e a história das famílias que vivem às margens dos rios.

O que a ciência já sabe sobre as mudanças no rio Acre


Desde as cabeceiras, na região peruana de Madre de Dios, até sua foz no rio Purus, o rio Acre atravessa uma região que passou por profundas transformações nas últimas décadas. Parte de sua bacia está inserida na Amacro, território formado por 32 municípios do Amazonas, Acre e Rondônia e que se tornou uma das principais frentes de expansão agropecuária da Amazônia brasileira.

A região é marcada pelo avanço da pecuária e do cultivo de soja, pelo desmatamento e pelo uso de agrotóxicos. A tríplice divisa entre os estados também registra conflitos pela terra, com denúncias de grilagem e violações de direitos humanos. As mudanças no uso da terra alcançam áreas próximas aos rios e às nascentes que alimentam a bacia do Acre.

Os registros hidrológicos mostram que as mudanças não se restringem à paisagem. Uma análise feita pelo cientista ambiental Renan Cassimiro Brito a partir de dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) encontrou sinais de alteração no comportamento dos rios associados à região da Amacro nas últimas duas décadas. O levantamento reuniu 63 estações de medição de vazão e 102 estações de chuva que atenderam aos critérios de qualidade e continuidade dos registros.

Entre as estações que medem a vazão dos rios, 31 – quase metade das 63 analisadas – apresentaram tendência significativa de redução. Em outras 19, não foi identificada uma tendência estatisticamente significativa, enquanto 13 registraram aumento. Os resultados não apontam, portanto, para um comportamento uniforme em toda a região, mas mostram que a redução da vazão aparece em uma parcela expressiva dos pontos monitorados.

Mudanças na vazão: Das 63 estações analisadas nas bacias dos rios Purus e Madeira, 31 registraram redução significativa da vazão, 13 apresentaram aumento e 19 não tiveram mudança significativa.


Outro sinal aparece na duração das secas dos rios. A análise mediu quantos dias consecutivos a vazão permaneceu abaixo de um limite considerado baixo para cada estação, calculado a partir de seu próprio histórico. Em 34 das 63 estações, aumentou o tempo em que os rios permaneceram nessa condição. Nos registros mais recentes, esses períodos chegaram a ultrapassar 50 dias.

Períodos com pouca água: Evolução do número de dias consecutivos em que a vazão permaneceu abaixo do nível histórico de referência nas estações analisadas.


Também foram identificados meses em que a vazão ficou muito distante do comportamento esperado para aquela época do ano. Ao longo do período analisado, foram registrados 687 casos classificados como anomalias severas e 105 como extremas, com concentrações importantes em anos como 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2018 e 2024.

Vazão fora do padrão: Número de meses em que as estações analisadas nas bacias dos rios Purus e Madeira registraram alterações severas ou extremas de vazão.



Os dados de chuva ajudam a entender parte desse comportamento, mas não oferecem uma explicação única. Das 102 estações pluviométricas analisadas, 33 apresentaram tendência significativa de redução da precipitação. Nas demais, não foi identificada uma tendência estatisticamente significativa de queda.

A diferença chama atenção: enquanto a redução das chuvas apareceu em cerca de um terço das estações pluviométricas, a queda da vazão foi identificada em quase metade das estações fluviométricas. As duas redes não cobrem exatamente os mesmos pontos do território e, por isso, a comparação não permite estabelecer uma relação direta entre chuva e vazão. Ainda assim, os resultados mostram que o comportamento dos rios não pode ser explicado apenas pela quantidade de chuva.

A transformação ocorreu nas três porções da Amacro, mas em escalas diferentes. Na parte acreana, foram cerca de 948 mil hectares de formação florestal a menos, enquanto as pastagens cresceram aproximadamente 942 mil hectares. No sul do Amazonas, a perda chegou a 1,7 milhão de hectares de formação florestal, enquanto as pastagens avançaram 1,74 milhão de hectares. Rondônia concentrou a maior mudança: foram 2,57 milhões de hectares de formação florestal a menos e 2,48 milhões de hectares de pastagem a mais.

A pressão sobre a floresta chega às margens do rio. Um levantamento publicado pelo Varadouro, com dados do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que cerca de 4,5 mil dos 11.670 hectares de mata ciliar do rio Acre dentro do estado já foram destruídos, o equivalente a aproximadamente 40% do total. A perda não ocorreu da mesma maneira ao longo da bacia. Em Epitaciolândia, chegou a 58%; em Rio Branco, a 43%; em Capixaba, a 35%; em Xapuri, a 33%; e em Porto Acre, a 32%.

Entre 2008 e 2023, outros 141,2 quilômetros quadrados de vegetação nativa foram derrubados numa faixa de até um quilômetro das margens do rio, e metade dessa perda ocorreu depois de 2018.

O pesquisador e agrônomo Evandro Ferreira, doutor em Ciências Botânicas pela City University of New York e pesquisador ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e à Universidade Federal do Acre (Ufac), explica que a retirada da vegetação das margens deixa o solo mais exposto à erosão. Quando chove, parte desse material é carregada para os cursos d’água, aumentando a quantidade de sedimentos e contribuindo para o assoreamento. Com o acúmulo de sedimentos, trechos do leito podem se tornar mais rasos.

Os sinais de degradação da bacia já preocupavam pesquisadores antes da sucessão mais recente de cheias e secas recordes. Em artigo publicado originalmente em 2014 e atualizado dez anos depois, Ferreira alertava para o risco de escassez hídrica no leste acreano. Essa porção do estado concentra cerca de 70% do desmatamento registrado no Acre, embora corresponda a apenas 22,5% de seu território. É também nessa região que se encontra a bacia do rio Acre, responsável por drenar aproximadamente 90% do leste do estado e em cuja área de influência vivem cerca de 500 mil pessoas.

Os dados, porém, não permitem concluir que o desmatamento seja responsável pelas cheias ou secas extremas registradas nos últimos anos. A análise hidrológica identifica tendências e anomalias, mas não determina suas causas. Da mesma forma, a redução da floresta e o avanço das pastagens ocorreram no mesmo território e no mesmo período, mas essa coincidência não basta para estabelecer uma relação de causa e efeito.

O que emerge dos diferentes levantamentos é uma região em transformação. Parte dos rios apresenta redução de vazão, os períodos de baixa vazão estão mais longos em dezenas de estações e episódios severos e extremos aparecem repetidamente nas séries históricas. Ao mesmo tempo, milhões de hectares de formação florestal desapareceram e as pastagens avançaram sobre a Amacro.



A questão que permanece é quanto dessas mudanças no comportamento da água está relacionado às alterações do clima e quanto pode estar associado às transformações ocorridas dentro da própria bacia.

Segundo os pesquisadores, a fragmentação da floresta altera processos fundamentais do ciclo hidrológico. A vegetação funciona como uma infraestrutura natural: intercepta parte da chuva, favorece a infiltração da água no solo e libera essa água gradualmente para os rios. Com a perda dessa cobertura, a água tende a escoar mais rapidamente durante as chuvas e a permanecer menos tempo disponível no sistema durante os períodos secos. As queimadas recorrentes reforçam esse processo ao degradarem o solo e reduzirem sua capacidade de retenção de água.

“Os dados não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre desmatamento e eventos específicos de cheia ou seca. Mas eles mostram que estamos observando mudanças simultâneas no uso da terra, no comportamento das chuvas e em indicadores hidrológicos importantes.”, diz Renan Cassimiro Brito, cientista ambiental e doutorando em Geografia Física da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do programa de ecologia quantitativa do Serrapilheira. “O desafio científico é entender até que ponto esses processos estão conectados”.

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A dimensão transfronteiriça da bacia amplia esse desafio. Parte das transformações ocorre nas cabeceiras do rio Acre, em território peruano, o que exige analisar a bacia como um sistema único.

“Os rios não reconhecem fronteiras políticas. O que acontece nas cabeceiras pode repercutir centenas de quilômetros abaixo. Por isso é fundamental olhar para a bacia inteira e não apenas para o trecho do rio que está dentro do Brasil”, analisa Natale Dias, bióloga da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e também participante do programa do Instituto Serrapilheira.

Essa conexão ficou evidente durante a cheia de 2024. Em fevereiro, o rio Acre alcançou 15,83 metros em Cobija, na Bolívia, então um recorde histórico, afetando mais de 2,3 mil pessoas, 15 a 18 bairros e três comunidades rurais. Do outro lado da fronteira, no Acre, Brasiléia também foi tomada pelas águas, deixando cerca de 75% do município isolado. 

A recorrência das inundações levou autoridades bolivianas a discutir obras de contenção na margem de Cobija, localizada bem em frente a Brasiléia, enquanto especialistas e autoridades acreanas passaram a questionar quais efeitos uma intervenção realizada de um lado da fronteira poderia provocar no outro.

A instabilidade das águas também chega aos roçados, como em 2023, quando os agricultores ribeirinhos da zona rural de Rio Branco perderam plantações e criações durante a cheia. Meses depois, enfrentaram o extremo oposto: uma estiagem severa, acompanhada de temperaturas elevadas, comprometeu cultivos de banana, macaxeira e milho. Algumas famílias passaram a depender de caminhões-pipa para conseguir água potável. Antes que houvesse tempo para recuperar completamente o que havia sido perdido, uma nova enchente atingiu a região no início de 2024.




A experiência que supera dos dados

Antônio Chaves, aos 82 anos, não precisa recorrer aos dados para dizer que percebe mudanças, pois ele se lembra das friagens que duravam uma semana ou mais, das margens que foram cedendo com a força da água e das enchentes que passaram a alcançar lugares antes preservados. Em Brasiléia, mostra o ponto onde ficava sua casa, destruída pela cheia de 2023.

Antônio conhece essa sequência. Depois da enchente de 2023, voltou ao lugar onde havia construído sua vida e encontrou uma paisagem diferente. A casa não existe mais. Diante dele, permanece o rio Acre. Um rio de extremos. 





Com colaboração de Steffanie Schmidt, Alexandre Cruz Noronha e Fabio Pontes



   
     
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Este projeto é resultado de uma colaboração entre jornalistas e cientistas latino-americanos, promovida pelo Instituto Serrapilheira, do Brasil, e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP), com o objetivo de explorar o ciclo hidrológico Atlântico – Amazônia – Andes e as perturbações nos serviços ambientais que ele proporciona ao continente.

     
   




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