
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
A nova pesquisa Quaest sobre a disputa pelo governo do Acre não apresentou grandes novidades no cenário eleitoral. O senador Alan Rick (Republicanos) permanece na liderança, com 33% das intenções de voto, seguido pela governadora Mailza Assis (PP), com 24%, e pelo ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom (PSDB), com 15%.
Um dado localizado fora da corrida propriamente eleitoral, no entanto, chama a atenção: a corrupção aparece como o segundo maior problema do estado na percepção dos acreanos, superando até mesmo a violência – isso num estado onde a sensação de completa insegurança pública é permanente e deixa a população trancada atrás de muros e cercas elétricas.
De acordo com o levantamento, 13% dos entrevistados apontaram a corrupção como o principal problema do Acre. O tema fica atrás somente da saúde, mencionada por 26% dos entrevistados A violência aparece na terceira posição, com 11%, seguida pelo desemprego, com 8%, e pela infraestrutura, com 7%.
A posição ocupada pela corrupção ganha ainda mais relevância por surgir em um estado que, desde 2019, convive com sucessivos escândalos envolvendo a aplicação de recursos públicos. O período foi marcado principalmente pela Operação Ptolomeu, investigação da Polícia Federal que alcançou o centro do governo estadual e terminou com a condenação do ex-governador Gladson Cameli (PP) pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A pesquisa foi encomendada pela Rede Amazônica e ouviu presencialmente 804 eleitores com 16 anos ou mais, entre os dias 23 e 26 de agosto. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número AC-09106/2026.
Sete anos sob a sombra da Ptolomeu
A preocupação registrada pela Quaest encontra correspondência na história política recente do Acre.
Deflagrada em dezembro de 2021, a Operação Ptolomeu mobilizou mais de 300 agentes federais no cumprimento de mandados judiciais. As buscas chegaram ao Palácio Rio Branco, sede do Poder Executivo, e colocaram Gladson Cameli, então governador, no centro da maior investigação de corrupção já realizada no estado.
A apuração identificou uma estrutura montada dentro da administração estadual para direcionar contratos públicos, favorecer empresas previamente escolhidas, lavar dinheiro e desviar recursos. Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público Federal, a organização atuava desde o início do primeiro mandato de Cameli, em 2019.
As investigações apontaram ainda a utilização de empresas sem capacidade operacional, movimentações financeiras consideradas atípicas e o emprego de recursos provenientes dos contratos sob suspeita na compra de imóveis e no pagamento de despesas pessoais.

O inquérito policial que deu origem à Ptolomeu tinha mais de mil páginas. Entre o final de 2021 e o início de 2022, os jornalistas Fabio Pontes, hoje editor-executivo do Varadouro, e Leonildo Rosas, do Portal do Rosas, analisaram os documentos e produziram a série investigativa Esquemão Azul.
As reportagens revelaram, entre outros pontos, compras com suspeitas de superfaturamento durante a pandemia, a abertura de uma holding por Gladson Cameli seis meses após assumir o governo, a aquisição de um imóvel de R$ 5 milhões em São Paulo e a movimentação de quase R$ 1 milhão em espécie nas contas do então governador.
A série também mostrou as suspeitas envolvendo empreiteiras contratadas pelo governo e as manobras que, segundo a Polícia Federal, teriam sido utilizadas para dificultar a fiscalização dos recursos federais.
Condenação histórica
Quase cinco anos após a deflagração da operação, a Corte Especial do STJ condenou Gladson Cameli por unanimidade. Os 11 ministros que participaram do julgamento reconheceram a existência dos crimes apurados pela Ptolomeu.
Oito ministros acompanharam integralmente o voto da relatora, Nancy Andrighi, que fixou a pena em 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado. Outros três votaram pela condenação, mas defenderam uma pena menor.
Gladson foi condenado pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. Além da pena de prisão, a decisão estabeleceu o pagamento de uma multa de quase R$ 13 milhões.
Os ministros consideraram que havia provas suficientes da participação do ex-governador e apontaram que ele exercia a liderança da organização criminosa instalada na administração estadual. A condenação também enquadrou Cameli nas hipóteses de inelegibilidade previstas pela Lei da Ficha Limpa.
Desde o início das investigações, Gladson Cameli nega as acusações, afirma ser inocente e diz confiar na Justiça.
O dado revela um paradoxo no comportamento do eleitorado acreano. Embora a corrupção apareça como o segundo maior problema do estado, essa preocupação parece ainda não recair diretamente sobre Gladson Cameli.
Mesmo condenado pelo STJ e enquadrado na Lei da Ficha Limpa, o ex-governador lidera a disputa por uma das duas vagas do Acre no Senado, com 19% das intenções de voto.
Gladson aparece cinco pontos à frente de Márcio Bittar (PL), que registra 14%. Jorge Viana (PT) e Mara Rocha (Republicanos) vêm em seguida, com 12% cada.
Os números indicam que, ao menos neste momento da campanha, a condenação por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação ainda não produziu um desgaste eleitoral suficiente para retirar o ex-governador da dianteira.
A pesquisa não permite explicar por que os eleitores que apontam a corrupção como uma preocupação continuam apoiando Gladson, nem afirmar que se trata exatamente do mesmo grupo de entrevistados.
O contraste, porém, sugere uma dissociação entre a percepção geral sobre a corrupção e a responsabilização de figuras políticas concretas. No Acre, o problema é reconhecido como grave, mas sua autoria e suas consequências parecem não atingir, na mesma proporção, o principal personagem do maior escândalo de corrupção da história recente do estado.
Corrupção também é violência
O fato de a corrupção aparecer acima da violência entre as preocupações dos acreanos não significa que os dois problemas estejam separados. O desvio de dinheiro público também produz uma forma de violência, embora seus efeitos nem sempre sejam imediatamente visíveis.
Quando recursos destinados à saúde, à educação, à infraestrutura ou ao atendimento das populações mais vulneráveis são desviados, a corrupção deixa de ser apenas um crime contra a administração pública. Ela reduz a capacidade do Estado de garantir direitos e oferecer serviços básicos à população.
No Acre, essa relação se torna ainda mais evidente porque a saúde – justamente uma das áreas que mais dependem da aplicação correta do dinheiro público – lidera a lista de preocupações dos entrevistados, com o dobro das menções recebidas pela corrupção.
Os dois dados não permitem afirmar, por si só, que os eleitores relacionam diretamente a precariedade dos serviços de saúde aos casos de corrupção. Mas ajudam a revelar uma população preocupada tanto com a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado quanto com a maneira como o dinheiro público é administrado.

Continuidade ou mudança?
O levantamento perguntou ainda se Gladson Cameli merece eleger um sucessor. Para 51%, o ex-governador deve conseguir transferir seu apoio político; 40% responderam que não.
Mailza Assis, que assumiu o governo em abril após a renúncia de Gladson para disputar o Senado, pertence ao mesmo partido e ao mesmo grupo político do ex-governador. A candidata aparece em segundo lugar na pesquisa, nove pontos percentuais atrás de Alan Rick.
Os resultados mostram que a responsabilização judicial de Gladson Cameli ainda não provocou necessariamente um rompimento eleitoral majoritário com seu grupo. Mas indicam que a corrupção já ocupa um lugar central entre as inquietações dos acreanos.
Mais do que revelar a dianteira de Alan Rick, a primeira pesquisa Quaest desta eleição coloca uma pergunta no centro da disputa pelo Palácio Rio Branco: de que maneira os candidatos pretendem enfrentar uma preocupação que, para os eleitores, já supera até mesmo a violência?