
Alerta sobre suposto assassinato foi corrigido após uma comissão indígena chegar à comunidade de Onconashari, no Peru, e confirmar que a liderança estava viva e em segurança; episódio revela as dificuldades de comunicação e as ameaças permanentes enfrentadas pelos povos indígenas na região
Por Redação Varadouro
A liderança indígena Ashaninka Américo Pascual Tumisha, da Comunidade Nativa Onconashari, no Peru, está viva e em segurança junto à família. A confirmação encerra o alerta divulgado anteriormente sobre seu suposto assassinato, informação inicialmente comunicada pela Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU) e reproduzida pelo Varadouro.
A própria organização indígena corrigiu a informação nesta quarta-feira (26/08). Diante da confirmação, o Varadouro também corrige a publicação anterior.
No dia 25 de agosto, o jornal Varadouro publicou a informação com a ressalva de que não havia informações que estabelecessem uma relação direta entre a morte de Américo e a invasão de homens armados registrada no rio Amônia. Américo já havia denunciado publicamente a invasão do território e a retirada ilegal dos recursos naturais da comunidade, segundo Getoshy Pérez Quiñonez, dirigente da Associação de Comunidades Nativas para o Desenvolvimento Integral de Yurúa, em informações dadas à imprensa peruana. Ele também cobrou, na ocasião, acesso à internet como instrumento de comunicação e denúncia diante do isolamento.
O alerta inicial partiu de um integrante da própria comunidade, que comunicou ao filho de Américo a suspeita de que a liderança havia sido assassinada.
Diante da dificuldade de acesso a informações confiáveis e das limitações de comunicação existentes na região, a notícia chegou à ORAU, que emitiu um alerta sobre o suposto crime.

A confirmação só foi possível depois que uma comissão fluvial formada por integrantes da Guarda Indígena de Fronteira ACONADIYSH decidiu se deslocar até a Comunidade Nativa Onconashari para verificar pessoalmente o que havia acontecido.
A viagem foi feita de forma autônoma pelos próprios indígenas. Ao chegar à comunidade, a comissão constatou que Américo Tumisha estava vivo, bem e junto de sua família.
A verificação feita pela Guarda Indígena evidenciou o papel que as próprias comunidades desempenham no monitoramento e na proteção de seus territórios.
Isolamento, crime e medo
Na região, dificuldades de comunicação e isolamento geográfico se somam à presença de atividades ilegais, criando um ambiente permanente de insegurança para quem vive e protege os territórios.
Como o Varadouro mostrou em uma série de reportagens publicadas em 2024, comunidades indígenas e ribeirinhas da região estão submetidas a pressões que não cessam quando uma operação policial termina ou quando uma ameaça pontual é afastada.
As matérias denunciavam a intensificação de conflitos entre o grupo Mashco Piro e trabalhadores contratados por madeireiras, que adentravam em terras ocupadas pelos isolados para a retirada de madeira.
A extração ilegal de recursos naturais, incluindo madeira e óleo de copaíba, e a expansão de redes criminosas ligadas ao tráfico internacional de drogas fazem parte de um cenário em que lideranças e defensores dos territórios permanecem expostos.
Vidas em risco
A Comunidade Nativa Onconashari está localizada no distrito peruano de Yurúa, região de grande importância ambiental e sociocultural e que também abriga povos indígenas em isolamento voluntário e de contato recente. Do lado brasileiro da fronteira, no Acre, comunidades indígenas enfrentam problemas semelhantes.
Há pouco mais de um mês, a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, foi invadida por homens armados que ameaçaram lideranças locais em represália à restrição da passagem de embarcações utilizadas pelo narcotráfico pelo território indígena.
A resposta do Estado brasileiro veio por meio do envio de forças policiais e da criação da Operação Ashaninka. Operações pontuais que não fazem frente à realidade contínua que prevalece na região.
A preocupação foi expressa pelo líder indígena Francisco Piyãko em entrevista ao Varadouro:
“O Estado tem que ter uma ação estrutural, com planejamento, inteligência. Marcar presença na região de fronteira. Eu acho que a fronteira está muito desprotegida pra esse tipo de situação”, afirmou.
A avaliação de Piyãko é de que a proteção das comunidades exige presença permanente, planejamento e uma atuação coordenada entre Brasil e Peru.
A Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) também alertou para o risco de que a violência na fronteira seja tratada como uma sucessão de episódios isolados.
“A violência que atinge os povos indígenas na região de fronteira entre Peru e Brasil não pode ser tratada como um problema isolado. A ineficiência dos Estados peruano e brasileiro na proteção das fronteiras e dos territórios indígenas amplia a vulnerabilidade das comunidades e pode resultar em novas mortes.”
Para a entidade, a fragilidade da presença estatal diante das ameaças criminosas coloca em risco não apenas a vida das pessoas, mas também a integridade dos territórios e a conservação da floresta.
*Nota do editor: A imagem que abre esta reportagem foi criada com a ajuda de Inteligência Artificial. Como a foto original da liderança Ashaninka tinha a presença de uma criança, esta editoria achou por melhor fazer a supressão da mesma. Ao fundo está o território da TI Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.