
dos varadouros de Rio Branco
O assassinato de uma liderança do povo Ashaninka no departamento peruano de Ucayali lança um novo alerta sobre a escalada da violência contra os povos indígenas que vivem na região de fronteira entre o Peru e o Acre. Américo Pascuala Tomisha, de 57 anos, foi morto a tiros no domingo, 23 de agosto, enquanto realizava uma ação de monitoramento e vigilância dentro do território da Comunidade Nativa Onconashari, no distrito de Yurúa, província de Atalaya.
Ex-chefe da comunidade e integrante da vigilância territorial, Américo teria encontrado pessoas estranhas retirando ilegalmente óleo de copaíba da floresta. Segundo informações divulgadas pela Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU), o encontro terminou em um ataque a tiros contra a liderança.
Getoshy Pérez Quiñonez, dirigente da Associação de Comunidades Nativas para o Desenvolvimento Integral de Yurúa, afirmou à imprensa peruana que Américo teria sido atingido por um disparo nas costas. Ele já havia denunciado publicamente a invasão do território e a retirada ilegal dos recursos naturais da comunidade.
A liderança também cobrava acesso à internet como instrumento de comunicação e denúncia diante do isolamento da comunidade. Agora, o Ministério Público peruano investiga as circunstâncias do assassinato.
A ORAU e a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep) exigem que as autoridades identifiquem tanto os executores quanto possíveis mandantes do crime. As organizações também cobram proteção imediata para os moradores, vigilantes e autoridades de Onconashari.
Segundo a Coordenadora Nacional de Direitos Humanos do Peru, desde 2020 o Estado peruano tinha conhecimento da entrada não autorizada de pessoas no território para a extração de copaíba e das ameaças sofridas pelos moradores. As ocorrências teriam sido comunicadas ao Ministério da Cultura e à Polícia Nacional.
“Diante da gravidade do ocorrido, a CPI-Acre cobra das autoridades peruanas a imediata investigação e apuração dos fatos, com total imparcialidade, transparência e responsabilização dos envolvidos, garantindo também proteção às lideranças e aos defensores indígenas que atuam na região”, diz trecho de nota emitida pela Comissão Pró-Indígenas do Acre, a CPI Acre.
“A violência que atinge os povos indígenas na região de fronteira entre Peru e Brasil não pode ser tratada como um problema isolado. A ineficiência dos Estados peruano e brasileiro na proteção das fronteiras e dos territórios indígenas amplia a vulnerabilidade das comunidades e pode resultar em novas mortes. A fronteira não pode permanecer entregue à própria sorte, especialmente diante de ameaças e ações criminosas que atentam contra a vida das pessoas, a integridade dos territórios e a conservação da floresta.”
Uma fronteira sob pressão
Onconashari está localizada em Yurúa, distrito peruano integrado à extensa região transfronteiriça das bacias dos rios Juruá, Yurúa e Alto Tamaya. Esse território reúne aproximadamente 3,5 milhões de hectares de Floresta Amazônica e abriga comunidades indígenas, inclusive povos em isolamento e de contato recente.
Do outro lado da fronteira está o Acre, onde o povo Ashaninka também denuncia o avanço de membros de organizações criminosas, invasores, madeireiros, garimpeiros e outros grupos envolvidos em atividades ilegais. O assassinato de Américo ocorre pouco mais de um mês após homens armados invadirem a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.
Cinco homens encapuzados, fortemente armados e falando espanhol entraram na região da aldeia Apiwtxa, entre os dias 5 e 6 de julho. O grupo procurava lideranças Ashaninka e ameaçou moradores.
A invasão aconteceu depois que a comunidade decidiu restringir a passagem de pessoas não indígenas pelo território. A medida foi adotada diante do uso dos rios e varadouros da região por grupos ligados ao narcotráfico.
A denúncia provocou a mobilização de forças de segurança do Acre e a criação da Operação Ashaninka. A presença estatal, entretanto, foi novamente temporária, enquanto os riscos enfrentados pelas comunidades permanecem.
Em entrevista ao Varadouro, o líder Francisco Piyãko advertiu que ações pontuais não seriam suficientes para enfrentar o problema.
“O Estado tem que ter uma ação estrutural, com planejamento, inteligência. Marcar presença na região de fronteira. Eu acho que a fronteira está muito desprotegida pra esse tipo de situação”, afirmou.
O assassinato em Onconashari reforça esse alerta. Embora não existam, até o momento, informações que estabeleçam uma relação direta entre a morte de Américo e a invasão registrada no rio Amônia, os episódios fazem parte de um mesmo cenário: o avanço de atividades ilegais sobre territórios indígenas isolados e a exposição das lideranças que tentam proteger suas comunidades.
Além das ameaças provocadas pelas ações ilícitas comuns desta região de fronteira, sobretudo o tráfico internacional de drogas, concessões de atividades exploratórias – como da indústria madeireira – no Peru também elevam as pressões sobre os territórios indígenas, em especial dos povos isolados.

Os guardiões na linha de frente
Em muitas áreas da fronteira, são os próprios indígenas que fiscalizam os territórios, identificam invasores, denunciam crimes ambientais e impedem que rios e caminhos tradicionais sejam transformados em rotas para grupos criminosos. Sem presença estatal permanente, essa defesa deixa as lideranças diretamente expostas. Foi durante uma dessas ações de vigilância que Américo Pascuala Tomisha foi assassinado.
A morte também traz à memória o massacre ocorrido em setembro de 2014, quando quatro lideranças Ashaninka da Comunidade Nativa Alto Tamaya–Saweto foram assassinadas no Peru.
Edwin Chota Valera, Leoncio Quinticima Meléndez, Jorge Ríos Pérez e Francisco Pinedo foram mortos quando atravessavam a floresta em direção à aldeia Apiwtxa, no Acre. Eles denunciavam havia anos a atuação de madeireiros ilegais dentro do território indígena.
Mais de uma década depois, a região de fronteira continua atravessada por rotas clandestinas, enquanto aqueles que denunciam os invasores seguem ameaçados. O caso de Américo revela também que a violência não está restrita ao narcotráfico.
A retirada ilegal de madeira, óleos, minérios e outros recursos naturais alimenta diferentes redes econômicas e coloca os povos indígenas e comunidades tradicionais de ribeirinhos e seringueiros em confronto com invasores que entram armados nos territórios.
*Nota do editor: A imagem que abre esta reportagem foi criada com a ajuda de Inteligência Artificial. Como a foto original da liderança Ashaninka tinha a presença de uma criança, esta editoria achou por melhor fazer a supressão da mesma. Ao fundo está o território da TI Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.