O VISUAL DO SERINGAL

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Seringueiro-artista, Hélio Melo, que faria 100 anos, pintou a alma acreana e da Amazônia

O seringueiro e artista plástico acreano Hélio Melo, que completaria 100 anos agora em julho, conseguiu retratar a essência da nossa identidade enquanto povos da floresta (Foto: Acervo FEM/Acre)




Dissertação sobre o artista publicada em livro por professor e pesquisador acreano se tornou referência para estudos de outros pesquisadores sobre a história de vida e obra de Hélio Melo; nascido no seringal, Hélio Melo trazia em sua arte a sensibilidade de retratar a relação do homem com a floresta. quadros do artista em galeria de São Paulo custam a partir de R$ 130 mil.



João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

Desde 2006, quando o artista Hélio Melo foi homenageado na 27ª Bienal Internacional de São Paulo – uma das três mais importantes do mundo – sua obra passou a despertar crescente interesse de pesquisadores. Entre eles está o professor e escritor acreano Rossini de Araújo Castro, 62 anos, graduado em Licenciatura em Educação Artística pela Universidade de São Paulo (USP).

Em 2010, Rossini concluiu o mestrado em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie com a dissertação “Ambiente Amazônico: A Arte Vivencial do Artista Hélio Melo”, publicada em livro três anos depois.

O estudo nasceu de três meses de pesquisas e entrevistas realizadas em Rio Branco, além de visitas a duas galerias de arte paulistanas e à sala especial dedicada a Hélio Melo na 27ª Bienal. O trabalho recebeu reconhecimento da crítica de arte Lisette Lagnado, mestre em Comunicação e Semiótica e curadora-geral da Bienal, que passou a recomendá-lo como referência para outros pesquisadores.

Lisette cita a dissertação de Rossini no catálogo monográfico de Hélio Melo, publicado em 2023 pela Almeida & Dale Galeria de Arte, por ocasião de uma exposição do artista realizada em sua sede na capital paulista. “É possível encontrar um repertório de textos e imagens no website baseado na dissertação do professor Rossini de Araújo Castro, dando ênfase à sua luta ambiental e ao combate contra o capital estrangeiro que dizimou as populações indígenas”, registra a curadora.

O catálogo foi lançado durante uma exposição do artista na galeria (onde as obras exibidas estavam cotadas a valores acima de R$ 130 mil) e exibe dezenas de fotos das obras de Hélio Melo ao lado de ensaios críticos de vários autores.

Entre os textos do catálogo está também um ensaio do crítico de arte italiano e co-curador da Bienal, Jacopo Crivelli Visconti. Ao buscar definir Hélio Melo, Visconti recorre às palavras do artista acreano Dalmir Ferreira, publicadas pela Universidade Federal do Acre (Ufac): “Temos que reconhecer que a obra principal do artista está por trás do que ele pinta ou do que ele faz.”

Além de Jacopo, os ensaios escritos por Tony Gross, Lisette Lagnado e Flávia Burlamaqui, trouxeram diferentes perspectivas sobre a produção de Melo, ressaltando o contexto em que viveu e trabalhou, e explorando as nuances de sua obra.

Foi Lisette Lagnado quem idealizou a homenagem póstuma ao artista na Bienal. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, em março de 2006, pouco antes da abertura da mostra, ela contou como descobriu sua obra.

“Conheci o trabalho de Hélio Melo durante minha viagem de pesquisa a Rio Branco pelo programa Rumos Visuais, do Itaú Cultural.” Segundo ela, foi justamente no Acre, enquanto elaborava o projeto conceitual da Bienal, que percebeu a importância histórica e geográfica do estado para a discussão proposta pela exposição.

“Foi no Acre, enquanto eu estava escrevendo meu projeto conceitual para a Bienal, que eu tive a intuição de que esse estado tinha uma riqueza histórica e geográfica absolutamente pertinente para a discussão de ‘Blocos Sem Fronteiras’, que, naquela ocasião, era o título da Bienal”, afirmou. Posteriormente, a mostra recebeu o nome de “Como Viver Junto”.

O entusiasmo da curadora pelo Acre aparece com clareza em seu depoimento.

“E, como eu via quadros de Hélio Melo em quase todos os lugares, principalmente instituições públicas, fiquei fascinada não somente pela pintura, de excepcional fatura, como pela história do personagem.”



Do seringueiro ao artista


Em artigo publicado em 2017, Rossini Castro lembra que, embora tenha nascido em 20 de julho de 1926, na vila amazonense de Antimari, no município de Boca do Acre, Hélio Melo é reconhecido como um artista acreano. Apesar de territorialmente pertencer ao Amazonas, o município tem uma relação muito mais próxima com o vizinho Acre. É ali onde o rio de mesmo nome se encontra com o Purus para, mais a frente, desaguar no Solimões (Amazonas).

Conhecido carinhosamente como “Seo Hélio”, ele compartilhou o destino de milhares de seringueiros que, expulsos das colocações durante as décadas de 1970 e 1980 com a chegada dos “paulistas”, migraram para as periferias de Rio Branco. Na capital, Hélio Melo passou a viver às margens do rio Acre, onde se concentravam muitos trabalhadores deslocados da floresta. Mas, se deixou os seringais fisicamente, nunca abandonou a sua essência da floresta.

Hélio Melo retratava muito bem em seus quadros este conflito entre seringueiros e a jagunçada recém-chegada à Amazônia acreana, cujo objetivo era transformar os seringais em pasto para o gado. Uma destas obras, por sinal, foi reproduzida na capa da edição número dezessete do Varadouro, de dezembro de 1979. A obra retrata o seringueiro e sua família expulsos do seringal. Forçados a abandonar sua terra, no lugar fica apenas o boi a observar a partida da janela da antiga casa do seringueiro – que passava a ter um novo proprietário: o gado.




“Já no campo simbólico o artista transitou pelos vários territórios da arte, apropriando-se da linguagem da música, das artes visuais, da literatura e do teatro. Quando se mudou para Rio Branco, levou a selva consigo e costumava dizer que as imagens o perseguiam e tinha a urgência de retratar a mata”, descreve Rossini.

O pesquisador destaca ainda que a expansão da pecuária exerceu influência decisiva sobre sua produção artística. “Nas décadas de setenta e oitenta do século 20, a pecuária e a agricultura extensivas devastavam a Floresta Amazônica num ritmo alucinado.

Como resposta a esta insensatez, o seringueiro-artista Hélio Melo produzia freneticamente paisagens da floresta para advertir que a floresta era finita e deveria ser preservada para o bem comum da humanidade.”

Logo na introdução da dissertação, Rossini define que o eixo central de sua pesquisa era acompanhar a trajetória de Hélio Melo “de seringueiro a artista plástico”, mostrando como sua experiência social, ecológica e política deu origem a uma produção artística singular.

No artigo de 2017, o pesquisador identifica três momentos distintos na obra de Hélio. A primeira fase, entre 1978 e 1984, constitui um verdadeiro inventário da vida do seringueiro. “Ela faz uma sociologia do trabalho na Amazônia”, resume Rossini.

Na segunda etapa, embora continue retratando a floresta e as lembranças da vida no seringal, Hélio passa a incorporar elementos da cidade. O contraste entre o povo e a classe dominante ganha espaço em sua pintura.

“O artista traz para sua construção poética o distanciamento entre o povo e a classe dominante. Tenta, através de metáforas, associar a classe dos mandatários ao animal burro”, observa. Já na terceira fase, segundo Rossini, o artista desenvolve uma espécie de pedagogia baseada na própria experiência.

Seo Hélio, com sua história peculiar, demonstra que, quanto mais circunscrito o repertório do artista, mais chance terá de se tornar universal. Ao retratar a floresta, registra em sua obra o seringueiro, o Acre, a Amazônia, a questão ambiental e a sustentabilidade, relacionando dialeticamente questões locais com processos universais.”

Essa relação entre vida e arte atravessa toda a pesquisa. Rossini demonstra que Hélio Melo formou-se longe das academias. Sua escola foram os seringais, as histórias dos povos indígenas, a convivência com os animais, os rios e a observação das profundas transformações provocadas pela ocupação econômica da Amazônia.


O cavalo sobre a árvore. Um dos quadros mais emblemáticos do seringueiro-artista



Por isso, o pesquisador apresenta Hélio não apenas como artista popular, mas também como educador – alguém que utilizou a pintura para preservar memórias, denunciar injustiças e estimular uma reflexão permanente sobre a relação entre sociedade e natureza.

“A marca de seu trabalho foi a insistência em divulgar a conjuntura de sua região”, resume Rossini. Ao aproximar arte e meio ambiente, Hélio Melo transformou sua produção em instrumento de conscientização.

Essa leitura ganha ainda mais força quando a dissertação analisa sua presença na 27ª Bienal Internacional de São Paulo. Embora já tivesse falecido, Hélio participou da exposição com 58 obras, em perfeita sintonia com o tema “Como Viver Junto”.

Para Rossini, sua presença naquele espaço estava longe de ser casual. As pinturas dialogavam diretamente com a proposta curatorial ao apresentar a Amazônia como território de convivência entre culturas, saberes e diferentes formas de viver.

Outro mérito da pesquisa foi o esforço de documentação. Rossini catalogou sessenta obras de Hélio Melo, reunindo um acervo até então disperso entre colecionadores, instituições públicas e familiares. Em entrevista ao Varadouro, Rossini afirmou que ninguém sabe a quantidade de obras que o artista espalhou pelo mundo vendendo ou presenteando.

Ao final do trabalho, Rossini deixa claro que sua intenção não era oferecer respostas definitivas, mas abrir novas possibilidades de interpretação. Sob essa perspectiva, as pinturas de Hélio Melo deixam de ser apenas belas representações da floresta para assumir outra dimensão. Tornam-se documentos históricos, reflexões filosóficas, manifestações culturais e testemunhos de uma Amazônia em permanente transformação.

Atualmente, a Almeida & Dale Galeria de Arte detém os direitos de representação comercial e artística das obras de Hélio Melo, cujo espólio pertence aos seus herdeiros liderados pela filha Fátima Melo, residente em Rio Branco. O número exato de obras é mantido em sigilo por razões comerciais.

Além da Almeida & Dale, a Flexa Galeria, também de São Paulo, possui obras de Hélio Melo, mas o espaço é focado em arte popular, moderna e contemporânea que frequentemente lista desenhos em nanquim, guache e técnicas mistas sobre papel feitas pelo artista.





No Instagram

No último dia 22, a herdeira gestora do espólio de Hélio Mello inaugurou uma página para registrar os 100 anos do artista (@hmelo100). Centenário de Hélio Melo: 100 anos de Arte e Memória da Amazônia.

Segundo definição em um dos posts, “mais do que um artista, Hélio Melo foi um cronista visual do seringal. Suas telas não são apenas pinturas; são memórias, o sussurro das árvores, o suor do seringueiro e a poesia pura da vida amazônica. Ele transformou a realidade da floresta em um universo de cores e sentimentos que o tempo não apaga”.



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