Um século atrás nascia Dió, acreano que enfrentou o latifúndio em Rondônia

Nascido na capital acreana, Dionisio Xavier construiu sua vida e a trajetória política por Rondônia, num dos momentos de maior efervescência política do país e da Amazônia. Intelectual e militante, por vezes recorreu ao jornalismo para denunciar violações de direitos das comunidades tradicionais com a transformação da floresta em pasto pelo grande latifúndio.
Montezuma Cruz
Dos varadouros de Porto Velho
Franzino, simples, sereno, cativante na transmissão da doutrina, o comunista Dionísio Xavier da Silveira, seu Dió, parecia um vulto na noite porto-velhense ao fazer circular raríssimos exemplares do jornal “Voz Operária. Mas foi notável nos palcos e plenários onde pisou. Um século atrás ele nascia em Rio Branco.
O soco desferido pelo empresário Roberto “Jotão” Geraldo sangrou-lhe a boca, arrancando-lhe alguns dentes. Essa dor sentida por ele e os familiares somou-se a outras ameaças de grileiros de terras públicas, incluindo as psicológicas. Na ocasião, Dió dirigia o jornal semanário “A Palavra”.
O homem nascido em 7 de outubro de 1925 foi pai de Aníbal, Domitília, Agliberto e Zola. A esposa, dona Maria dos Anjos Gomes da Silveira, faleceu em novembro de 2012 aos 80 anos, vítima de distúrbios hepáticos. “
“A Maria do Dió, como era chamada, já não está entre nós. Depois de uma intensa caminhada terrena, a “Nega Velha” se despede dessa vida para a calendas do infinito. Altiva e forte, lutou como uma onça pintada para defender sua cria mais carente, o velho e bom Aníbal”, descreveu na ocasião o cronista e escritor Antônio Serpa do Amaral.
Dió era muito amigo do médico cearense Claudionor Couto Roriz, que antes de chegar ao extinto Território Federal de Rondônia, militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em Terra Roxa, na conflagrada região oeste do Estado do Paraná. Em Ji-Paraná, mais tarde, seria um forte militante do MDB.
Naquele período do início dos anos 1970, o jovem barbudo já fazia parte do fichário do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em Curitiba, que atuava dia e noite contra sindicalistas e estudantes da Universidade Federal.
Em Porto Velho, Dió se encontraria mais tarde com o contabilista (depois vereador) maranhense Cloter Saldanha Mota, o líder estudantil João Lobo, o sociólogo Antônio Barbosa, entre outros militantes.
Político com P maiúsculo
Dió deixava Rio Branco aos 22 anos, em 1947, cheio de esperança. Soubera pelos companheiros que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) seria posto na ilegalidade naquele ano. A ida para o (ainda) Território Federal do Guaporé fora, de certa forma, estratégica.
Rondônia, que assim seria conhecida só depois de 1956, abria espaço para negociações políticas entre comunistas e o Partido Social Progressista (PSP), então liderado pelo governador do Estado de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros.
O PSP abrigaria a chamada Frente Popular da época, cuja maior feito fora enfrentar a oligarquia do coronel Aluízio Ferreira, governador territorial e ex-presidente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
A sigla ademarista “aliançou” com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 1940. Adhemar pretendia garantir votos e apoio político, aproveitando a influência que o PCB, ainda legalizado, possuía nos centros urbanos.
Zola Xavier da Silveira, filho, ex-secretário na Prefeitura de Maricá (RJ), depõe: “Meu pai teve sangue republicano. Seus avós participaram da fundação do Partido Republicano do Pará. A família, por divergência com o Barata (Joaquim de Magalhães Cardoso Barata) foi para Sena Madureira, lá chegando no início da Revolução Acreana.”
Barata fora interventor entre 1943 e 1945, e eleito governador em 1955.
Repetindo o Imperador Constantino, mesmo involuntariamente, Dió cumpriu o dístico: In hoc signo vinces (“Com este sinal vencerás”): elegeu-se vereador na Câmara Municipal de Porto Velho, da qual foi secretário.

Em 1969, com o país sob a ditadura no período do general Arthur da Costa e Silva, ele realizou concurso público para preenchimento do quadro de servidores da Câmara e criou uma biblioteca aberta à população. “Ela foi extinta pela estupidez dos vereadores de então”, lamentava. E não é diferente hoje: o legislativo municipal possui cerimonial, protocolo, mas não dispõe de biblioteca.
O jornalista Lúcio Albuquerque lembra o período em que militantes comunistas integravam-se a partidos situacionista sem tempos de bipartidarismo: “Ainda em 1969 o presidente Costa e Silva determinou a realização de eleições para vereadores nos territórios, e aqui aparece um fato curioso: dentre os eleitos em Porto Velho pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do governo, estava o jornalista e dirigente comunista Dionísio Xavier da Silveira.”
Conforme relata Albuquerque, estudantes, dirigentes de entidades comunitárias, jornalistas e praticamente toda a sociedade iniciavam um movimento Pró-Rondônia Estado, do qual Dió participaria, juntamente com outro acreano, o advogado Odacir Soares Rodrigues, de Xapuri.

Imprensa a fórceps no poeirão
Eram poucas as amizades de Dió na Vila Rondônia (ex-Urupá) mesclada por latifundiários, posseiros e indígenas perseguidos – uma terra sem delegado de polícia, explorada a ferro e a fogo pela Colonizadora Calama, gerenciada pelo paranaense de Londrina João dos Santos Filho, que veio a ser assassinado a tiros na festa junina de 1980 por um dos seus empregados.
A região era centro da pistolagem: fazendeiros contratavam jagunços vindos de Mato Grosso. Cadáveres eram jogados nas águas do Rio Machado.
A reação no bairro Casa Preta não se distanciava da poeira da estrada Cuiabá-Porto Velho, porque ali também tudo era empoeirado e no “inverno chuvoso amazônico”, enlameado.
Foi ali que, em meados dos anos 1970, chegou o sociólogo francês Hervé Théry, cuja pesquisa para tese de doutorado na Universidade Sorbonne, na França, providencialmente deu visibilidade às amarguras do latifúndio, até então mantidas longe dos tribunais pelo seu executor, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Amizade sólida formada, Dió nomeou Théry correspondente em Paris – caso único naquele período. De lá, o professor enviava textos fundamentados naquilo que via nas terras e vilas da BR-364, na Amazônia Ocidental Brasileira.
Um dos textos de Théry mostrava que “os verdadeiros donos da terra de Rondônia seriam os grandes empresários rurais, que depois do serviço de arrumação do solo tomavam conta de tudo, usando para isso as maneiras legais ou não”.
“Apesar de cercado por pistoleiros numa guerra desigual, meu pai viveu com alegria e ternura por toda aquela gente que sabia dos seus ideais”, recorda o filho Zola Silveira.
No jornal “A Palavra” trabalhavam apenas Dió, o aguerrido jornalista paraense Nelson Townes de Castro e dois tipógrafos cujos nomes a (des)memória de Ji-Paraná é incapaz de lembrar.

Sem fugir à luta
Mesmo calejado pela aventura anterior, em 1984 Dió não poupava esforços em ser o maior e melhor consultor do amigo médico ginecologista e clínico geral Claudionor, quando este aventurou-se a publicar o “Diário de Rondônia”, uma ousadia, pois o jornal mais reunia leitores desafetos do que admiradores e até anunciantes.
Quantas gestantes esposas de camponeses daquele período deram à luz filhos crescidos em Ji-Paraná; quantos acompanharam pelo jornal do médico o relato sincero do que ocorria no interior das glebas rurais e na periferia de uma cidade onde morava a pobreza, em ranchos ou casas de madeira.
O “Diário” era distribuído todas as madrugadas e manhãs em dois automóveis Gol alugados, nos eixos da rodovia entre Ji-Paraná e Vilhena, e Ji-Paraná-Porto Velho. Confeccionado e impresso a quente (no chumbo da máquina linotipo), durou apenas dois anos.
Nessa incursão de Dió pelo jornalismo corajoso praticado no interior de Rondônia, há situações pouco conhecidas por estudiosos e novas gerações: dois anos, antes, nas primeiras li eleições do novo estado, em 1982, Claudionor fez parte da trinca eleita pelo PDS, numa manobra do governador, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, o Teixeirão.
Assim, fora eleito para o Senado Federal ao lado do acreano Odacir Soares Rodrigues (governista a vida toda) e do sul-mato-grossense ex-coordenador regional do INCRA, Reinaldo Galvão Modesto.
Ocorre que, conforme Roriz relatou a este repórter, o Senado “não seria sua casa ideal.” Não por ser gago, mas pela vontade de prosseguir fazendo o que fizera antes de aceitar trabalhar com Teixeirão: se antes, procurado por um emissário do governador escalado para cooptá-lo conseguira demovê-lo da ideia de construir um presídio – obra então abandonada – dando prioridade a um hospital público.
Roriz permaneceu apenas dois anos (1983-1985) no Senado, onde se sentiu desconfortável: “Além de grupos de lobistas, todo dia vinham ao gabinete funcionários graduados a mando da direção, oferecendo mais gasolina, carro novo, cotas disso e daquilo, e eu me irritei com a coisa; imaginava que poderia exercer um mandato bem diferente, sem a necessidade de tanta mordomia.”

Voltou para o estado, foi secretário de saúde. Trabalharam com Roriz: Dió e o médico Caio Penna, dois ideólogos que muito somaram com ele. Todos são falecidos. Caio era irmão do cineasta Hermano Penna, que fez o primeiro filme no distrito de Nova Londrina, em Rondônia: “Fronteira das almas”, lançado em 1987, mostrou a questão agrária e as dificuldades de pioneiros no campo.
No Bar do Zizi
Militante no Movimento Negro em Porto Velho, o jornalista Adaídes dos Santos, o Dadá, lembra-se do Bar do Zizi, onde conheceu Dió: “Ficava quase em frente ao Palácio Presidente Vargas, sede do governo! Lá se reuniam diversos tipos de pessoas, do pedinte, ao ateu, religioso, abonado e blefado, e com eles todos ele se relacionava.”
Com Dadá sentava-se à mesa o professor José Aldemir Saldanha, o Pereca, amigo de adolescência no bairro do Areal e ex-aluno do Colégio Dom Bosco. Além de músicos, ambos haviam sidos seminaristas.
– Dadá, este é seu Dió, jornalista e comunista – assim ali me apresentava aquele senhor de cabelos brancos que passaria a conversar diariamente com eles a respeito de cultura, tradições e política. “A esposa do José Aldemir, dona Eliana, é filha de criação do velho Dió.”
“Sempre atualizado, ele me recomendou o livro “Os Donos do Poder”, do sociólogo, jurista e cientista político Raymundo Faoro, onde se estuda a formação do patronato político brasileiro – uma obra extraordinária para quem busca conhecer politicamente o Brasil; corri para a leitura.”
Santos, que então chegara de Manaus (AM), onde se graduava em jornalismo e militava no PCB (Partidão), conta que teve a honra de viver com Dió em Porto Velho “na euforia da abertura democrática, em 1984.” “Sonhávamos com o Brasil que se libertava do arbítrio e da exceção.”
Na história
Um ser humano extraordinário, sem dúvida!”, comenta a jornalista Mara Paraguassu, que com ele trabalhou na Secretaria de Administração do estado: ” Trabalhou comigo na biblioteca, adorava os livros e lamentava-se da perda da visão, a cada dia acentuada, o que impedia a leitura por tempo mais prolongado.”
Em 30 de maio de 2001, Dió se foi, aos 75 anos, pautando sua atuação na antiga Vila Rondônia em defesa dos camponeses, quase todos migrantes, alguns deles vítimas da malária, sem contas bancárias e sem títulos de terras, esperançosos por encontrar novos horizontes. Alguns “sortudos” conseguiam, mas uma grande parte não sobrevivia às endemias e seus corpos eram ali mesmo sepultados.
Insatisfeito com notícias de “A Palavra” abordando o latifúndio urbano do qual era protagonista, empresário Roberto “Jotão” Geraldo ameaçou fechar o jornal, e não conseguindo, atacou Dió com um forte soco que lhe quebrou vários dentes, sangrando fortemente sua boca. Mas nunca negou seus princípios.




