
Menina, eu lancei um livro! Acredita? Pois bem, fui selecionada na chamada da Editora Urutau para escritos de pessoas que residem na Amazônia e voilá “Eu começaria incêndios” saiu das minhas gavetas virtuais para o mercado editorial.
O livro é uma reunião de poemas que escrevi nos últimos quatros anos, três dos quais estive intensamente envolvida com minha pesquisa de doutoramento sobre feminicídios no Acre. Eu não lembro como cada um dos poemas surgiu, mas lembro bem como a ideia do livro apareceu, aliás, não a ideia, mas a constatação de que eu tinha um livro dentro do meu computador e que o elo de ligação entre os poemas até então escritos era o fogo.

Eu estava em uma cafeteria em Rio Branco, no trânsito entre Fortaleza e Cruzeiro do Sul, me enchendo de doce e café amargo, como faço quando preciso me convencer a realizar uma tarefa incômoda e me peguei fazendo o que faço de melhor nessas ocasiões: procrastinar. Pego o telefone e envio mensagem em um dos grupos de amigas: “Gente, acho que estou escrevendo um livro! ”. Isso foi no início de 2023, corta pra setembro de 2025 e, sim, temos um livro.
Conseguir me enxergar escritora é um negócio que faz um carinho danado na alma, algo como achar meu lugar no mundo, mas é um lugar que também veio acompanhado do tal “hate” de internet.
Para divulgar meu livro na rede social ao lado, a Editora escolheu um trecho do poema “dejejum”. Nele, faço uma metáfora sobre uma vagina tão incendiada de prazer e desejo que seria capaz de apagar esse mesmo fogo em razão de tamanha lubrificação, ou mesmo de ejaculação.
Caí no agrado de muita gente, mas também no hate. Não tenho pretensões de que a minha escrita seja unanimidade. Como diria Clarice – sim a Lispector – a arte é assim: ou toca ou não toca. E tudo bem a gente não gostar de tudo, né?
Eu confesso que até hoje não entendi a música de Björk e penso que ela passa muito bem sem a minha admiração. Mas o hate não é apenas sobre desgostar ou mesmo criticar, é sobre sentir a necessidade de tirar um tempo de sua vida para comunicar o seu desagrado com palavras ofensivas e pretensões de menosprezo do escrito e de quem o fez. E o que há de interessante aqui, em verdade, é como alguns comentários confirmam minhas premissas de escrita, como este:
Drummond, Vinícius de Moraes, Mário Quintana…meu critério ta [sic] bem diferente.
O comentário acima me chama atenção porque o leitor está diante de uma escritora mulher falando da experiência de um corpo feminino cisgênero e ele faz questão de frisar o seu “critério” com escritores masculinos, aliás, dentre os eleitos, está um dos poetas mais escancaradamente machistas que já tivemos – e sim, eu também gosto da poesia de Vinícius de Moraes. Convenhamos que desmerecer minha escrita por autoras como Hilda Hilst ou Anais Nin seria bem mais justo, não?
Alguns outros comentários que chamaram minha atenção utilizaram termos como “rasa”, “lixo”, “bosta”, “pornográfico”, “erótico” e “apelativo”. Acho interessante como essas e outras conclusões que recebi sobre meu escrever foram embasados não a partir do meu livro, não a partir de um poema e nem mesmo a partir de um verso inteiro, mas de um recorte de um verso que não é revelado em sua inteireza pelo enquadramento da fotografia que o expõe.
E é justamente por isso que sei que o hate não é apenas sobre minha escrita, mas especialmente sobre o incômodo que uma mulher falando abertamente de seu corpo e de sua sexualidade provoca, sobretudo se essa sexualidade não está voltada ao prazer masculino.
Podemos conviver bem com imagens de mulheres seminuas expostas na televisão como objetos para consumo – tal qual expõem os estudos de Laura Mulvey acerca do “male gaze” – e também com músicas que restringem a experiência sexual à penetração e reduzem as mulheres a partes de seus corpos disponíveis ao gozo masculino.
Há um universo de entretenimento imenso voltado a esse tipo de conteúdo, treinando interpretações de textos (em sentido lato) para o corpo feminilizado sempre disposto ao prazer e ao consumo do outro, como necessariamente “erótico”, “pornográfico” e “apelativo”.
Como expressão do que se projeta para ser visto e para provocar, não para se auto-observar, se referenciar e se maravilhar com os lugares que um corpo em êxtase é capaz de alcançar. Há culturas que mutilam a genitália dita feminina para retrair o prazer sexual desses corpos, mas que tipo de mutilações simbólicas são realizadas aqui mesmo na nossa cultura?
A escassez de narrativas do prazer sexual a partir das vivências femininas tem consequências drásticas, como a falta de conhecimento do próprio corpo, dificuldades de alcançar orgasmos em relações sexuais e modos limitados de percepção interpessoal e institucional de produção de violências sexuais.
Em minha tese, discuto o caso de um feminicídio em Rio Branco, ocorrido em 2021, com fortes indícios de violência sexual antes do resultado morte, o que foi deliberada e conjuntamente ignorado pelo magistrado e pelo médico legista responsáveis pela investigação do caso. Ambos restavam convencidos da ausência de violação sexual porque o corpo da vítima foi encontrado totalmente vestido, fato suficiente para afastar as suspeitas de “uma possível conjunção carnal”, nas palavras do juiz.
Desde 2009, o crime de estupro foi alterado para condutas bem mais extensas que apenas a conjunção carnal, mas o fato de esses dois profissionais do sistema de justiça ignorarem mais de dez anos de legislação é emblemático de uma sociedade que centraliza a sexualidade no falo.
Os relatos de uma testemunha – irmã da vítima e esposa do autor do crime – de como este último a violentava com “sexo anal, vaginal e oral” quando estava alterado, assim como na noite em que matou a cunhada, torna tudo ainda mais constrangedor, pois essa mulher, expondo seus traumas diante do Sistema Criminal, na tentativa de fazer justiça à sua irmã, foi solenemente ignorada e silenciada pela institucionalidade patriarcal. O tardio laudo pericial comprovando a presença de esperma no colchão em que vítima deitou na noite em que foi morta escancara a falência analítica do pensamento centrado no falo.
As concepções hegemônicas de que sexo é sinônimo de penetração peniana e da ejaculação masculina como marco temporal de encerramento da relação torna a experiência do prazer sexual muito reduzida às mulheres hétero e bissexuais. E também aos homens, afinal, o sexo é o território da pele e da exploração ritmada em conjunto, da demora e da produção de fluidez, seja de ordem orgânica ou experiencial.
Mas se a vivência sexual pode ser tão pobre para muitas mulheres (e homens) ou sistematicamente predatória na dinâmica de que um come e a outra “dá”, compreender as fronteiras borradas entre entrega e submissão pode se tornar difícil, e todas as pessoas que atendem seriamente mulheres que sofrem violência doméstica e/ou familiar sabem disso: atos sexuais “consentidos”, mas não desejados, são cotidianos.
Mesmo entre grupos progressistas, a discussão sobre sexualidade é sempre empurrada para um espaço menor, como algo fútil e superficial. Fico em dúvida se isso se dá em razão de uma moralidade cristã muito bem construída, ainda que inconscientemente; se porque esses espaços também são hegemonicamente patriarcais e os homens vão bem na expressão de seu prazer, atados a um certo ideal de masculinidade; ou, ainda, se porque lidar com esse conteúdo ativa territórios dolorosos demais, seja pelas repressões de desejos ou mesmo pelas violações sofridas ao longo da vida. Talvez tudo isso junto.
O que sei é que a sexualidade [feminina] ainda é tabu e que uma vagina lubrificada incomoda muita gente, mas uma mulher violada deveria incomodar muito mais – porém, a julgar pela estabilidade do hit “helicóptero” nos rolês cruzeirenes por 5 anos consecutivos, somados aos 9 feminicídios, só em 2025, e a mais de 600 casos de estupro em 7 meses no Acre, parece que o incômodo segue desajustado e o poder berra enquanto o prazer murmura.
E para me despedir, deixo um poema do “Eu começaria incêndios” que sintetiza o que eu me esforcei para expor de forma breve neste texto.
A soma do desejo
Para viver o desejo
coragem
Para desfrutar do desejo
tempo
segurança
Para defender o desejo
uma comunidade
unida
em chamas.
Leonísia Moura
Professora do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, pesquisadora feminista e militante de direitos humanos.
leonisia.mouraf@gmail.com



