HISTÓRIA MAL CONTADA

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Reinaugurada, Biblioteca da Floresta permanece sem o acervo com a história de Chico Mendes

Após resisistir ao descaso do governo e ao fogo, Biblioteca da Floresta é reaberta, mas sem um dos capítulos mais importantes da história do Acre (Foto: Clemerson Ribeiro/Secom)



Após ficar fechada ao público desde 2019 e ser atingida por um incêndio em 2022, biblioteca continua sem o acervo da história de vida e de luta do líder seringueiro Chico Mendes – e ninguém sabe onde está. Governo diz que material não estava sob sua responsabilidade.


dos varadouros de Rio Branco

A reabertura da Biblioteca da Floresta marca a retomada de um dos principais espaços culturais do Acre após anos de fechamento e obras de revitalização. O prédio, que ficou interditado desde 2019, passou por reformas estruturais e agora abriga também a sede do Instituto de Mudanças Climáticas (IMC). A reinauguração é apresentada pelo governo como um novo capítulo para a valorização da memória e da produção científica sobre a Amazônia.

A reabertura do espaço aconteceu na última segunda-feira, 23, em uma solenidade que também serviu como palanque e vitrine eleitoral para a vice-governadora Mailza Assis (PP), pré-candidata ao governo nas eleições de 2026.

No entanto, a reabertura ocorre sob a sombra de uma perda irreparável. Parte significativa do acervo dedicado à trajetória do líder seringueiro Chico Mendes – que integrava o patrimônio histórico da biblioteca – está desaparecida desde o período em que o espaço permaneceu fechado. O material, composto por documentos, registros audiovisuais e pesquisas, sumiu após a desativação do local para reforma em 2019, sem que até hoje haja informações claras sobre seu paradeiro ([Portal Amazônia][1]).

A situação se agrava com o histórico recente do prédio. Em 2022, um incêndio atingiu parte da estrutura da biblioteca, afetando áreas onde funcionavam serviços e armazenamento de arquivos. O episódio reforçou preocupações sobre a preservação do acervo e levou o Ministério Público Federal (MPF) a cobrar providências para localizar e proteger os itens ligados à memória de Chico Mendes, considerado um dos maiores símbolos da luta socioambiental na Amazônia.

Em agosto do ano passado, o MPF enviou representação ao Ministério Público do Acre (MPAC) pedindo que sejam avaliadas providências para a localização e a preservação do acervo cultural do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes.

Procurada por Varadouro, a assessoria de imprensa do MP informou que a Procuradoria Geral de Justiça instaurou uma notícia de fato e encaminhou o caso à Promotoria de Habitação e Urbanismo e Patrimônio Histórico, sem passar mais detalhes.

Também questionada pela reportagem, a assessoria de comunicação do governo informou “que esse material não estava sob a guarda ou à disposição do Estado.”

“A atual gestão, assim como a gestão da Fundação de Cultura Elias Mansour, nunca teve conhecimento formal da existência desse acervo nas condições mencionadas”, diz nota enviada.

“Todas as informações e esclarecimentos solicitados já foram devidamente prestados aos órgãos de fiscalização e controle competentes, reforçando a transparência e a colaboração do Estado em qualquer apuração necessária.”

Assim, embora a reinauguração represente um avanço na recuperação física da Biblioteca da Floresta, ela também evidencia uma lacuna histórica ainda não resolvida.

A ausência do acervo de Chico Mendes não apenas empobrece o conteúdo do espaço, mas levanta questionamentos sobre a gestão e a preservação da memória cultural no estado – especialmente de um legado que ultrapassa fronteiras e segue fundamental para compreender a história do Acre, Amazônia e de seus povos.

Desde 2019, com a volta ao poder da velha direita ruralista acreana, representada pela eleição de Gladson Cameli (PP) ao governo, há uma tentativa sucessiva de apagamento da imagem e da memória de Chico Mendes. Sua estátua no centro de Rio Branco é alvo constante de vandalismo. Representações artísticas em graite feitas em espaços públicos foram apagadas.

O incêndio de 2022 na Biblioteca da Floresta foi o caso mais claro do desprezo do atual governo acreano com a identidade cultural e histórica do estado com o território amazônicos e as populações que aqui vivem. Atualmente o espaço passa por obras de revitalização.

Foi a partir de 2019 que a casa do líder seringueiro, em Xapuri, foi fechada pelo governo Gladson. O espaço servia como um museu aberto a visitas públicas. Recentemente houve o rumor de que o espaço voltaria a ser fechado, o que foi negado pela Prefeitura de Xapuri.


Espaço dentro da reformada Biblioteca da Florestado dedicado à história dos povos indígenas do Acre (Foto: Clemerson Ribeiro/Secom)
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