FLORESTA ENCANTADA

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Nas matas e campestres do Juruá, uma Amazônia habitada não só por humanos e animias, mas também seres encantados

Nas aldeias, seringais e varadouros da Amazônia acreana, há muito mais do que mulheres, homens, espécies animais e vegetais: há a força da espiritualidade que emana de toda a sua força e seres que disciplinam a relação dos humanos com a floresta (Foto: Edson Fernandes/Secom)




Em seu novo texto para Varadouro, escrito desde os varadouros e as ladeiras de Cruzeiro do Sul, Tatiane Sousa nos brinda e nos encanta com os encantes da Resex Riozinho da Liberdade. A partir dos relatos e saberes dos velhos mestres da floresta, ela nos fala sobre como os seringueiros construíram e constróem a sua relação de respeito com as riquezas da mara, a partir das “regras” estabeleiidas pelos seres encantados.



Tatiane Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul


As florestas e águas dos seringais e comunidades da Reserva Extrativista (Resex) Riozinho da Liberdade, em Cruzeiro do Sul, são habitadas por uma série de entidades não humanas que possuem agência sobre as relações e modos de vida das famílias que residem na localidade. “Tudo tem dono”, afirmam os caçadores.

No território, além de humanos, animais, vegetais e outras formas de vida biológica, também habitam seres encantados como o Batedor, a Matiru do igarapé Miolo, a Mãe D’água e a (o) Caipora, também chamado (a) de Caboquinho(a) da Mata e dono (a) da caça. No rio Liberdade, existem grandes remansos povoados por entidades não humanas, que coabitam o território em suas cidades submersas.

São seres encantados das matas e das águas, que podem interagir com os humanos de diversas formas, notadamente por meio de acordos, avisos, castigos, cedendo a caça, estabelecendo relações de confiança, respeito e assombrando através de manifestações invisíveis classificadas localmente com o nome de terremotes da noite. Há ainda o trabalho com caboclo, espécie de ritual de cura espiritual realizado com o auxílio dos encantados. Neste caso, o espírita atua, incorporando o ser encantado para realizar a cura em outrem.

No entanto, hoje irei me ater a contar um pouquinho sobre o (a) caboquinho (a) da mata e sua relação com a caça e os caçadores. Este encante da floresta, em algumas localidades do Vale do Juruá, também pode ser chamado de caboclo da terra firme em oposição ao caboclo da várzea, que seria o Batedor. Ele ou ela, protege os animais e habita grandes áreas de florestas na Amazônia, afastando-se de áreas muito abertas e desmatadas. Dono (a) da caça, está em seu poder fazer o caçador feliz ou não.

Ilustração de Angie Nobre representando a(o) caipora montada (o) num porco e o caçador em seu tapiri. A ilustração e histórias sobre os encantes da Resex Riozinho da Liberdade compõem o livro Uma Luz na Floresta (2025)



Às quinta-feiras, cuida da saúde dos animais e por isso não é recomendado caçar neste dia da semana. “A caça é uma ciência” e a felicidade do caçador também depende do tratamento que dá aos bichos da mata, pois o dono ou a dona da caça não gosta de caçador que judia dos animais.

Afinal de contas, como Seu Francisco Marques muito sabiamente me disse: “Todo bicho tem seu chefe, tem o seu dono”. Ah! E a propósito, Seu Nem Soares já tinha me avisado: “Caboclinho da Mata não gosta de caçador ambicioso!”.

Os caçadores podem ainda fazer tratos com o caboquinho oferecendo tabaco para obter sorte na caçada. Caso estejam se viciando em caçar e abatendo mais caças que o necessário, podem ficar panema, se enrascar, se assombrar, receber avisos, cachorros podem ser açoitados e há até mesmo relatos de um caçador que, após receber três avisos e não ouvir, pegou uma pisa!

Esses acordos são realizados em áreas conhecidas como campestres, local da morada de caboquinho. São áreas relativamente abertas presentes dentro de florestas muito bem preservadas, com predominância de apenas uma espécie de planta, dentro da qual habita uma formiga.

De toda forma, é melhor deixar o Mestre da Floresta contar um pouco dessa história…


“Diz que tinha um cara que gostava de pastorar… Aí foi pastorar numa comida boa ou era um barreiro. Ele tava atrepadinho pastorando e nada. Queria que a caipora, o caboquinho mandasse pelo menos um veado pra ele matar, mas ele não via nada. Que mandasse pelo menos um veado pra matar, um porco… E nada! Diz que com um pedacinho escutou foi a batedeira… Vinha um bando de veado! Passou assim quase por debaixo da rede que ele estava pastorando. Diz que era a embiricica de veado, um atrás do outro e ele atira num, atira noutro, atira noutro. Passou tudinho e foi-se! Aí diz que lá vem a batedeira, um bando de porco, aí vinha porco! Foi passando, aí lá vem, lá vem, lá vem, lá vem mesmo! E ele atrás de atirar, ia passando quase o derradeiro. Ele ia atirar num assim e o cara falou:

— “Epa, não atire não”!


Quando apareceu, era um caboquinho, um menino em cima de uma onça! Montado assim e disse:


— “Não é pra matar nenhum, pode deixar passar tudinho, o seu vem atrás! O outro que vier atrás pode matar que é o seu.”


Aí ele ficou lá atrepado, quando viu vinha um bacorinho de porco, vinha andando. Pow! Matou e veio embora. Diz que foi verdade esse causo. Ele passou, foi-se! Aí ele conta que o caboclo ainda disse assim:


— “Os bichos tão tudo com bicheira, quem tá se batendo pra curar esses bichos sou eu.”


Diz que o caboclo curava tudinho. Ele queria matar, mas o caboclo disse:


— “Não é pra atirar em nenhum não. O seu vem atrás, o que vier é seu, pode matar.”


Diz que vinha um bacorinho do tamanho de uma cutia.


— “É esse aqui mesmo.”


Aí pooow! Ele ainda teve foi coragem! Ainda esperou ele, hein? O pessoal contava essas coisas, assim eu ouvi…




Francisco Marques, rezador e veterano da comunidade Periquito no livro Uma Luz na Floresta (2025).

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