ELEIÇÕES E CLIMA

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Com maioria na Aleam, Roberto Cidade assume o governo do Amazonas sob pressão da cheia e de sua própria lei climática

O governador interino Roberto Cidade fez sua primeira coletiva em Manaus e indicou continuidade administrativa ao lado do ex-governador e seu vice, Wilson Lima e Tadeu de Souza. (Foto: Divulgação)

Entre previsões ignoradas e uma transição política inédita, o Amazonas enfrenta a cheia de 2026 sob um governo interino que terá de responder, em tempo real, à crise anunciada, sob o regime de emergência, em ano eleitoral

Steffanie Schmidt

dos Varadouros de Manaus

A subida do Rio Negro não é surpresa. O alerta é emitido todos os anos, a partir de dados técnicos e estudos públicos. Para este ano, o risco de que o rio Negro atinja sua cota máxima é de 92% de probabilidade de inundação em 2026, segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

Ainda assim, o Amazonas entra nesse cenário com uma mudança abrupta no comando político e com uma política de adaptação climática que até já existe no papel, mas que ainda não chegou ao território.

Com maioria na Assembleia Legislativa, o deputado Roberto Cidade (União) deve ser confirmado como governador na eleição indireta. Como presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), ele já exerce o papel de governador em exercício desde domingo, 05 de abril, quando, de forma inédita na história do Amazonas, o governador Wilson Lima (União) e o vice, Tadeu de Souza (PP), renunciaram simultaneamente aos respectivos cargos para disputar as eleições deste ano. Em ato estratégico, encaminharam documento de próprio punho às 23h de sábado à Assembleia, no último momento do prazo legal para desincompatibilização, previsto pela legislação eleitoral.


Um governo tampão em meio à cheia


Com a saída da chapa eleita, quem assume interinamente, de acordo com a Constituição Estadual, é o presidente da Aleam Cabe agora ao parlamento conduzir, em até 30 dias, uma eleição indireta que definirá o chamado “mandato-tampão” até 5 de janeiro de 2027.

Roberto Cidade assume com o desafio e a oportunidade de responder à cheia que ameaça o Estado este ano. Além de Manaus, onde vive mais da metade da população do estado (2.063.689 habitantes, correspondendo a cerca de 52,3% dos moradores do Amazonas, segundo o Censo de 2022), municípios como Manacapuru e Itacoatiara também devem atingir cota de cheia este ano, segundo 1º Alerta de Cheias do Amazonas de 2026 divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) no último dia 31 de março.

O novo governador em exercício tem em mãos o desafio de provar que a sua Política Climática Estadual não é apenas “letra morta” em papel timbrado, mas um plano de ação capaz de proteger as populações ribeirinhas e urbanas que, ano após ano, sofrem com o rigor dos eventos climáticos extremos na Amazônia.

Como deputado, Cidade é o autor da Lei nº 6.528/2023, que instituiu a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas. A norma prevê planos de adaptação, instrumentos econômicos e estratégias para reduzir impactos de eventos extremos — como as cheias que hoje ameaçam comunidades inteiras. Dois anos depois de sancionada, a lei ainda não foi implementada na prática.

Agora, no cargo de governador, Cidade é o principal responsável por executá-la. A partir de agora, a implementação da política climática depende diretamente de sua decisão política.

O Amazonas vem enfrentando uma sequência de eventos climáticos históricos. Os mais recentes foram registrados em 2021 e 2022, com cheias extremas e secas severas, com colapso logístico e isolamento de comunidades, registrados nos anos de 2023 e 2024.

A sazonalidade estável do ciclo das águas, não é mais o padrão exclusivo dos fenômenos, mas a variabilidade extrema dos ciclos, cada vez mais comuns e associados às mudanças climáticas globais.

Antes considerados excepcionais, eventos climáticos extremos estão se tornando recorrentes. A ausência de adaptação aumenta custos sociais e econômicos realizados, todos os anos, pelo regime das águas e a falta de política pública.

Na ausência de políticas efetivas, a resposta institucional segue fragmentada e reativa, com um padrão que segue a sequência de ações emergenciais tardias, descoordenadas, cumprindo um ciclo vicioso de reconstrução, alugueis sociais, sem foco na prevenção e resolutividade de problemas estruturais antigos como falta de moradia, saneamento básico, drenagem e infraestrutura urbana adequada. E com o “plus” da contratação direta pela administração pública por conta do “tradicional” decreto de estado de emergência. Um prato cheio em ano de eleição.

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