Do Beco à Esperança: o que o Acre ensinou ao Brasil sobre habitação popular

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Transformar um beco esquecido em uma comunidade viva é mais do que obra: é política pública feita com princípios, respeito e participação.

Há lugares que carregam a marca do abandono, mas também o poder do recomeço. O Beco da Pista, no bairro da Sobral, era um desses lugares: uma mistura de desordem urbana, lama e esquecimento. Um emaranhado de palafitas ligadas por trapiches, onde o Estado só chegava de galochas e promessas. Hoje, aquele mesmo beco é a Comunidade da Esperança — um conjunto habitacional com 120 casas, ruas arborizadas, acessibilidade, rede de água e esgoto, e, sobretudo, dignidade. O nome foi escolhido pelos próprios moradores. E o projeto, construído com eles.

Essa transformação simboliza mais do que uma obra. Representa um modo diferente de fazer política pública de habitação popular, aquele que praticamos no Governo da Floresta, iniciado pelo então governador Jorge Viana e mantido por mim entre 2007 e 2010, quando meu governo entregou 2.500 casas e deixou outras 7.000 em execução. Mas o que mais me orgulha não são os números. É o modo de fazer. Porque construir casas é importante, mas construir cidadania (ou florestania) é essencial.

Nos nossos governos, entendemos que a habitação popular não é favor nem presente de político — é um direito constitucional e uma expressão da dignidade humana. No Beco da Pista, as famílias participaram desde o início, ajudaram a escolher o nome do condomínio, opinaram sobre o projeto e decidiram onde ficariam durante as obras. Essa escuta muda tudo. Quando o povo participa, a casa deixa de ser obra do governo e passa a ser conquista coletiva. Moradia digna não é tijolo: é cidadania em alvenaria.

No início do governo do Tião Viana, quando a Comunidade da Esperança foi entregue, o líder comunitário Celcimar resumiu bem a situação: “Nos viam como gente de outro mundo”. Durante décadas, o Beco foi um território invisível. Transformá-lo num condomínio com infraestrutura, acessibilidade e áreas de convivência foi um ato de justiça urbana. A função social da cidade se cumpre quando todos têm o direito de viver bem, no mesmo lugar onde sempre viveram, com respeito e reconhecimento.

As casas térreas foram destinadas a idosos e pessoas com deficiência, com rampas e calçadas acessíveis. O espaço ganhou árvores, bancos e hortas comunitárias. A urbanização respeitou o entorno, as águas e a paisagem. Essa é a essência da sustentabilidade amazônica: urbanizar sem apagar a natureza, melhorar sem expulsar, crescer sem destruir.

O antes e o depois:Comunidade da Esperança, antiga área do Beco da Pista, bairro da Sobral — símbolo da política habitacional participativa do Acre (2007–2010)




Além da moradia, o projeto integrou políticas sociais e de inclusão produtiva. Todas as famílias foram inscritas no Cadastro Único e receberam apoio em programas como o Bolsa Família e o ProJovem. Foram criados viveiros de plantas, oficinas, hortas e pequenos empreendimentos comunitários. Habitação, no nosso modo de ver, não é só teto. É oportunidade, trabalho e autoestima.

Infelizmente, em muitos lugares do Brasil, a habitação popular ainda é tratada como política de despejo disfarçada. Tiram o povo do centro, empurram para longe, constroem conjuntos sem transporte, sem escola, sem vida. No Acre, o Governo da Floresta fez diferente. Reconstruímos territórios sem arrancar as pessoas de suas raízes. O Beco virou Esperança sem perder a alma. Cada morador voltou para o seu lugar, agora em uma casa sólida, limpa e cheia de futuro.

A experiência do Beco da Pista mostrou que as políticas públicas dão certo quando nascem de princípios claros: direito, participação, sustentabilidade e equidade. Nada disso é passado — é referência para o presente e especialmente para um futuro digno para todas as pessoas. Porque, no fim das contas, a boa política é aquela que transforma dor em dignidade, e descaso em esperança.





Binho Marques, 62 anos, é ex-governador do Acre (2007-2010). Historiador e mestre em educação pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Atuou como professor, gestor público, secretário de Educação (municipal, estadual e no MEC/SASE), consultor do Unicef e parceiro de Chico Mendes em comunidades extrativistas.

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