Na Ufam, primeira banca de doutorado 100% indígena marca um capítulo inédito na história universitária brasileira

Entre seus pares, o doutorando Jaime Diakara Dessano, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Ufam (PPGAS/Ufam), coloca o pensamento indígena no centro da produção de conhecimento ao defender sua tese diante da primeira banca totalmente indígena da história Universidade brasileira, inaugurando novos caminhos para uma academia verdadeiramente plural.
Steffanie Schmidt
dos Varadouros de Manaus
Passados mais de 525 anos da colonização portuguesa, a história começa a ser reescrita pelos vencedores – aqueles que não desistiram de lutar. Nesta quarta-feira, 10.12, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sediará, pela primeira vez na história, uma defesa de doutorado integralmente indígena. O feito inédito em uma universidade brasileira, reúne o rito acadêmico, com tese escrita em língua indígena, defendida por um pesquisador indígena e avaliada por uma banca composta integralmente por professores indígenas, ao ritual cerimonial indígena.
A tese intitulada “Pamüse: a força do sopro e da saliva entre os dessana wahri dihputiro porã no alto Rio Negro” é de autoria de Jaime Diakara Dessano, como se reconhece o doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Ufam (PPGAS/Ufam), pertencente ao povo Dessana.
Presidida por João Paulo Lima Barreto, do povo Tukano, a banca conta com Silvio S. Barreto, do povo Baré; Justino S. Rezende, do povo Tuiuka; Rosilene Fonseca, representante dos Piratapuya; e João Rivelino Barreto, também pertencente ao povo Tukano.
Por trás do feito histórico, há uma longa trajetória, feita de luta coletiva, insistência e rearranjos internos que levaram mais de quinze anos para se concretizar em uma defesa do pensamento indígena entre os pares. “É raro. Mas não deveria ser. Desejo que um dia, que isso seja comum: ver bancas indígenas em todas as áreas”, afirmou Jaime Diakara, também conhecido por Jaime Moura Fernandes, que é professor, ilustrador e escritor.
“Isso é uma coisa única na história da universidade, a primeira da América Latina”, afirma o professor Dr. Gilton Mendes dos Santos. Antropólogo e um dos criadores do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) dentro da pós-graduação, explica que a formação da banca se tornou viável depois de anos de esforço institucional do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, pioneiro no país em políticas afirmativas para povos indígenas.
“Trabalhamos para garantir que indígenas não apenas entrassem na universidade, mas que seu pensamento florescesse lá dentro, sem se tornar uma cópia da academia branca. A interculturalidade não pode ficar apenas na fala. É preciso investimento real: professores indígenas, pesquisadores indígenas, conhecimento indígena”, completou.
Reinventar a academia por dentro
O programa vem formando, ao longo de quinze anos, mestres, doutores, acompanhando trajetórias, abrindo caminhos entre a resistência acadêmica para o enriquecimento do conhecimento a partir de uma nova visão, a do pensamento indígena.
Para isso, foram necessárias mudanças profundas no modo como a pós-graduação compreende a presença indígena – e muita insistência.
Um edital específico para candidatos indígenas foi criado para evitar que estudantes fossem comparados de forma desigual dentro de seleções universais. “Não se trata de falta de competência, trata-se de parâmetros distintos e de reparar uma injustiça histórica”, explica.
Além disso, entendeu que escrever dissertações e teses nas línguas indígenas eram parte de produção intelectual não forçada a caber apenas no português — uma língua que, para muitos, é estrangeira. A partir daí, houve o reconhecimento de que o português poderia ser a ‘língua estrangeira’, já que no doutorado, há a exigência de domínio de dois idiomas. Dessa forma, passou-se a considerar a língua materna do aluno indígena como a primeira língua; o português, a segunda; e uma terceira língua estrangeira corresponde ao requisito formal.
Por fim, entendeu-se que a aceitação de grafismos, desenhos e outras formas narrativas também são parte do conhecimento e, portanto, da produção acadêmica. “A tese pode ser escrita em imagens, em grafismos. Isso não é um adorno estético — é pensamento”, afirma Gilton Santos.
Segundo ele, a presença simultânea de dois professores indígenas no corpo docente, um como convidado e outro como temporário, abriu a brecha formal necessária para que a banca pudesse existir. A partir daí, completá-la com membros externos também indígenas se tornou um gesto político, acadêmico e simbólico. “Não perdemos essa janela. A possibilidade se abriu”. Gilton é o orientador, mas o coorientador, João Paulo Barreto Tukano, tem prerrogativa formal para presidir a banca, o que convergiu para o encontro do momento histórico.
A ciência do sopro e da saliva
Jaime é pesquisador do povo Desana e traduz em imagens, grafismos e cosmologia a sua produção antropológica. Ele conta que sua formação começou muito antes de chegar à universidade. “Eu vim da escola da floresta, da escola do silêncio. Cresci ouvindo os mais velhos, os sábios. Meu conhecimento vem dessa memória”.

Em seu processo acadêmico, escolheu não se tornar uma “cópia” do antropólogo tradicional: “Eu não queria ser uma réplica. Eu queria fazer antropologia com o meu próprio conhecimento, trazer as imagens, as cores, a potência do pensamento indígena.” Ele relata que enfrentou preconceito e críticas por não se expressar no formato esperado pela academia. “Diziam que eu não sabia escrever. Mas eu tinha outras linguagens, que não são menores. Elas vêm da memória do meu povo.”
Sua tese nasce da força da fumaça, do mito e da imagem. A pesquisa é inteiramente escrita em Dessano, acompanhada de um resumo em português. Seu trabalho é guiado por grafismos e conceitos que vêm da tradição oral.
“A imagem nasce da memória ancestral. A oralidade se transforma quando passa pela fumaça, pelo sopro, pelo ritual. É assim que o mito vira conhecimento”, explica Jaime Diakara Dessano.
Para esta quarta-feira, esse processo será real: o mito se tornará conhecimento a partir de uma cerimônia ritual com canto, grafismos, bebida tradicional e defumação, simbolizando um encontro da academia com seu passado ancestral.
“A universidade precisa ouvir e aprender com os povos indígenas. Respeitar o conhecimento que está na memória, no corpo, na ancestralidade. Não colocar pedras no caminho. O conhecimento indígena é ciência”, afirma Gilton Santos.
A tese de Diakara mergulha na cosmopolítica do Alto Rio Negro, revelando a complexidade da produção do caxiri e seus poderes transformadores. O trabalho descreve duas fontes complementares de força: o sopro de fumaça de tabaco (basese) emitido pelo homem (kumu), e a saliva concentradora produzida pela mulher (tüñarĩ mahsõ).
Na pesquisa, o corpo da mulher é apresentado como um microcosmo, um “vaso de vida” conectado à avó da argila, capaz de fermentação e geração de vida através da saliva. Já o cocho de caxiri é a extensão do corpo masculino e do herói cultural Bahsebo, ativado pelo sopro do kumu para circular conhecimento, alegria e afetos durante as festas.
Em muitos momentos, Jaime se viu questionando sobre qual seria a dificuldade em reconhecer o conhecimento indígena como ciência científica? “Isso a universidade tem que entender e fazer a formação do professor e da universidade. Espero que a universidade indígena, ao a ser implantada, também traga outra visibilidade a partir dos conceitos, a partir da teoria indígena em vez de se tornar uma outra universidade que coloca pedra enorme para os indígenas ao não conseguir identificar os poderes ancestrais que estão na memória, que estão com seu avô, com seu pai, que são grande laboratórios vivos e pode não pode ser escrito”, explica.
É uma vitória coletiva dos povos do Rio Negro e de todo o movimento indígena”, afirma Gilton e conclui que a decolonização não pode ser apenas um discurso bonito; ela precisa acontecer nna estrutura de poder e na forma como o conhecimento é validado.
Universidade indígena
Jaime Diakara afirma que ao sair de suas aldeias para a universidade, muitos parentes se sentem como peixes entrando em um “matapi” (armadilha de pesca), mas que este momento representa a quebra dessa armadilha. Por isso, sua tese também lança luz sobre as transformações no território.
No último dia 27 de outubro, o governo federal formalizou a criação da primeira Universidade Federal Indígena do Brasil (UNIND) com a assinatura de um Projeto de Lei durante cerimônia no Palácio do Planaltoo. A iniciativa é apresentada como uma reparação histórica e um marco na valorização das ciências, línguas, medicinas e formas de conhecimento dos povos originários. A proposta, construída ao longo de anos, resulta de um amplo processo participativo: foram realizados 20 seminários regionais com educadores e lideranças de 236 povos, consolidando uma demanda apresentada desde conferências nacionais em 2009 e 2013.
Com sede no Distrito Federal e funcionamento em rede por meio de Institutos de Formação Indígena vinculados a outras universidades federais, a UNIND terá gestão majoritariamente indígena e uma oferta inicial de dez cursos, com expansão prevista para 48. Entre as áreas prioritárias estão gestão territorial, saúde indígena, agroecologia, direito e formação de professores. A nova universidade pretende garantir espaço às ciências indígenas, promover uma ciência plural e fortalecer a autonomia das comunidades, formando lideranças livres de perspectivas colonizadas. O PL segue agora para apreciação do Congresso Nacional, onde deverá mobilizar novamente o movimento indígena para assegurar sua aprovação.



