Brasil e Bolívia retomam agenda bilateral e reposicionam o Acre na integração regional

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Os presidentes da Bolívia, Rodrigo Paz, e do Brasil, Luíz Inácio Lula da Silva; compromissos de uma nova relação entre países vizinhos (Foto: Ricardo Stuckert / PR)




Diplomacia, infraestrutura e segurança voltam ao centro da relação – mas efeitos concretos para a Amazônia ainda são incertos. Crise climática que leva rio Acre a grandes inundações e secas severas impactam as comunidades dos dois lados da fronteira.



dos varadouros de Rio Branco

Em meio à retomada da agenda internacional do governo brasileiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, nesta segunda-feira,, 16, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, eleito em 2025 pelo Partido Democrata Cristão, após mais de duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS). O encontro, ocorrido no Palácio do Planalto, sinaliza um esforço de reaproximação entre os dois países, com foco em integração regional, segurança de fronteiras e cooperação econômica.

Diferentemente do que vinha sendo anunciado de forma genérica nos últimos meses, os acordos firmados ainda são limitados em alcance prático. Entre eles, estão memorandos nas áreas de turismo e entendimentos para ampliar a cooperação em segurança – especialmente no combate ao tráfico de drogas, ao contrabando e a crimes ambientais na faixa de fronteira.

Para o presidente Lula, o fortalecimento dessa parceria é vital para a estabilidade e o crescimento do continente. Em post nas redes sociais, o presidente brasileiro enfatizou que “a integração regional não é um projeto ideológico, é uma necessidade histórica”.

Lula destacou ainda que, em um mercado global competitivo, nenhum país da região prosperará de forma isolada, sendo a união a única via para ocupar um lugar de destaque na política e economia mundiais.

Atualmente, o diálogo bilateral também foca em desafios comuns, como o combate ao crime organizado transnacional. Lula e Paz assinaram acordos para reforçar a segurança na fronteira, visando punir o tráfico de drogas, o contrabando, a mineração ilegal e os crimes ambientais.

Com a retomada da agenda bilateral de investimentos em nível de Mercosul, o Acre se consolida como território estratégico para integração sul-americana, dentro da Amazônia Ocidental, impactando diretamente a política ambiental da região.

O Acre no centro – ou na margem – da integração

Na prática, o redesenho dessa relação passa diretamente pela Amazônia ocidental. O Acre, estado que faz fronteira com a Bolívia, volta a ser citado como peça-chave em projetos logísticos e comerciais – ainda que, historicamente, esses projetos avancem mais no discurso do que na execução.

Com cerca de 3,4 mil quilômetros de fronteira entre Brasil e Bolívia, cidades como Brasiléia e Epitaciolândia (AC) e Cobija (Pando) funcionam como zonas de circulação intensa de pessoas, mercadorias e também de ilícitos.

O Comitê de Integração Fronteiriça Brasiléia–Epitaciolândia/Cobija é um dos poucos mecanismos institucionais permanentes de articulação local, mas enfrenta limitações estruturais.

A infraestrutura segue como gargalo. A ponte binacional sobre o rio Acre, inaugurada em 2004 durante o primeiro mandato de Lula, simbolizou um avanço histórico ao romper o isolamento físico entre os países na região.

Duas décadas depois, no entanto, a promessa de integração plena ainda esbarra em entraves logísticos e baixa capacidade de investimento.

Nos últimos anos, porém, a tríplice fronteira pan-amazônica MAP, formada pelos territórios de Madre de Dios, no Peru, Acre e Pando na Bolívia, enfrentam crises climáticas e ambientais severas, que afetam as comunidades tradicionais. A mais grave delas são as grandes inundações e secas extremas do rio Acre, manancial que delimita a linha de fronteira entre os três países.

Desde 2023, o antropólogo boliviano Guillermo Rioja-Ballivián escreve artigos para Varadouro falando sobre as realidades sociais e ambientais da tríplice fronteira MAP.

A ponte binacional sobre o rio Acre que liga o Brasil à Bolívia: muitas integrações numa fronteira amazônica conturbada – inclusive os mesmos impactos da crise climática (Foto: Acervo Varadouro)



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Raízes históricas

A atual configuração territorial do Acre é resultado direto de um conflito histórico com a Bolívia no início do século XX. À época, a região — rica em seringais — atraía migrantes brasileiros, o que levou a disputas armadas conhecidas como Revolução Acreana.

O impasse foi resolvido com o Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, sob condução do diplomata Barão do Rio Branco. Pelo acordo, o Brasil incorporou o território do Acre mediante pagamento de 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia, cessão de áreas no atual Mato Grosso e o compromisso de construir a ferrovia Madeira-Mamoré, garantindo acesso boliviano ao sistema fluvial amazônico.

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