Da floresta às Nações Unidas: liderança indígena do Acre fortalece defesa dos territórios em Genebra

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Jovem liderança indígena, Samuel Arara, do povo Shawãdawa/Arara, natural de Porto Walter, participa do Programa de Bolsas para Povos Indígenas da ONU, um dos nove brasileiros selecionados. (Foto: Arquivo Pessoal/Samuel Arara)

Programa de Bolsas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) leva à ONU a voz da Amazônia, da juventude indígena e da defesa dos direitos humanos. Participação de Samuel Arara amplia a presença amazônica em espaços internacionais onde são debatidos direitos territoriais, consulta prévia e políticas que influenciam diretamente o futuro das comunidades indígenas.

Da Redação*

A trajetória que leva um jovem do povo Shawãdawa/Arara, natural de Porto Walter, no interior do Acre, até os corredores das Nações Unidas em Genebra, a crescente necessidade de os territórios indígenas ocuparem espaços de decisão. Como um dos nove indígenas brasileiros selecionados para o Programa de Bolsas para Povos Indígenas da ONU, Samuel Arara representa a porção da Amazônia brasileira mais afetada por conflitos de terra e por desrespeito aos territórios dos povos originários.

A região Amacro é marcada pela violenta expansão do agronegócio e sua necessidade de ecoamento da produção por meio de estradas. Nos últimos dez anos, acumulou 75 assassinatos e quase 1.600 conflitos de terra, média que se mantém alta em relação às demais porções do bioma.

A participação de lideranças locais em instâncias globais responde à demanda histórica de que os povos originários sejam protagonistas na formulação de políticas que impactam diretamente seus modos de vida. Para Samuel, que atua na comunicação indígena como coordenador Regional do Tetepawa Comunica – Coletivo de Comunicação Indígena do Acre, e também é presidente do Coletivo de Estudantes Indígenas da UFAC (CEI-UFAC), a presença na Suíça é uma oportunidade de conectar as realidades da floresta às agendas internacionais de justiça climática e proteção territorial.

O objetivo da formação é capacitar lideranças indígenas para que saibam utilizar os instrumentos da ONU de forma estratégica. Isso significa transformar as demandas que nascem nas comunidades em incidência política real, garantindo que as decisões tomadas em âmbitos globais não ignorem as particularidades de quem vive e protege a Amazônia. A formação visa aprofundar o conhecimento sobre mecanismos internacionais de direitos humanos.

Durante duas semanas de formação intensiva, antes de chegar à Suíça, a etapa preparatória aconteceu em Brasília, realizada entre os dias 8 e 19 de junho, na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Relações Internacionais.

Os participantes aprofundaram conhecimentos sobre relações internacionais, direito internacional dos direitos humanos, funcionamento do Sistema ONU, mecanismos de proteção internacional e instrumentos específicos voltados aos direitos dos povos indígenas.

A programação incluiu encontros institucionais coordenados pelo ACNUDH com representantes da Funai, APIB, CIMI, Procuradoria-Geral da República (PGR), UNESCO e Defensoria Pública da União (DPU), permitindo um diálogo direto entre lideranças indígenas, organismos internacionais e instituições brasileiras.

Treinamento ocorrido em Brasília, como preparativo para a imersão em Genebra. (Foto: Arquivo pessoal/ Samuel Arara)

Intercâmbio de resistências

Em Genebra, a delegação brasileira soma-se a outros 37 representantes de diversas regiões do mundo, como África, Ásia e Oceania. Esse intercâmbio revela que, embora os contextos sejam distintos, os desafios são compartilhados como a luta pela preservação das línguas, a proteção das culturas e, fundamentalmente, a defesa dos direitos territoriais.

Samuel destaca que ocupar a sede das Nações Unidas é uma responsabilidade coletiva. “Não represento apenas a mim mesmo. Trago comigo meu povo, o Acre, a Amazônia, a juventude indígena e todas as comunidades que seguem resistindo”, afirma. A agenda inclui o acompanhamento da 19ª Sessão do Mecanismo de Peritos sobre os Direitos dos Povos Indígenas (EMRIP), onde temas como consulta livre, prévia e informada serão debatidos com especialistas internacionais.

Um dos pontos cruciais dessa iniciativa é o compromisso de que o aprendizado técnico sobre o Sistema ONU retorne aos territórios. A formação em Genebra é vista como uma ferramenta para fortalecer as organizações indígenas locais, qualificando a incidência política dentro do Brasil e ampliando a capacidade de denúncia e monitoramento de violações de direitos.

Ao unir a ancestralidade com a formação técnica, a nova geração de lideranças reafirma que a preservação da Amazônia e o enfrentamento da crise climática são indissociáveis do reconhecimento do papel estratégico dos povos indígenas.

Aprender na ONU só faz sentido se esse conhecimento voltar para nossas comunidades. Nosso maior compromisso é transformar essa experiência em ferramentas concretas para fortalecer a luta dos povos indígenas, proteger nossos direitos e garantir que nossas futuras gerações encontrem territórios vivos, culturas fortalecidas e direitos respeitados”, conclui.

A presença de lideranças indígenas amazônicas em espaços internacionais ganha relevância em um momento em que os conflitos pela terra voltam a se intensificar na região. Em um contexto de transformações aceleradas na Amazônia com projetos de infraestrutura, como a pavimentação de rodovias e a abertura de novos corredores logísticos, que têm impulsionado mudanças no uso da terra e ampliado pressões sobre territórios indígenas e áreas protegidas, juntamente com a expansão da agropecuária na região mais preservada da Amazônia, a capacidade de incidência política das comunidades passa a integrar uma estratégia de defesa dos direitos territoriais diante de decisões que extrapolam as fronteiras nacionais.

Leia aqui: Mailza recoloca Acre no mercado de carbono sob cobrança por transparência e participação indígena

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