Queda da ponte no Iaco expõe não só a “terra caída” dos barrancos, mas um governo em escombros

A tragédia em Sena Madureira completa uma semana em meio a muitas perguntas e poucas certezas. Uma das hipóteses levantadas é que o desabamento aconteceu por conta do fenômeno “terra caída” – o desbarrancamento natural das margens dos rios em meio a enchentes e vazantes. A pergunta é: a construtora responsável não levou isso em consideração no projeto? A obra foi construída durante a gestão de Gladson Cameli, condenado a quase 26 anos de cadeia por graves crimes de corrupção.
Fabio Pontes
João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco
Segundo alguns especialistas, o rio Iaco avisou antes de engolir a ponte Frei Paolino Baldassari, cujo desabamento aconteceu há uma semana, no dia 5 de junho. Era o início de uma noite de sexta-feira, o começo de mais um fim de semana, quando a estrutura de concreto, com mais de 230 metros de extensão, caiu sobre os barrancos e as águas do rio Iaco, em Sena Madureira Inaugurada em dezembro de 2023 ao custo superior de R$ 36 milhões, a ponte desabou deixando feridos, prejuízos e uma sucessão de perguntas que agora ecoam pelas margens do Iaco e pelos corredores do poder político acreano: afinal de contas, de quem é a responsabilidade por essa tragédia?
Em meio aos escombros, a grande preocupação era encontrar as quatro pessoas que estavam próximas à estrutura da ponte momentos antes da queda. Entre elas o juíz aposentado Ednaldo Muniz, que nos últimos anos emergiu na política e se destacou com a produção de vídeos expondo a malversação do poder público no Acre – seja o governo estadual ou a prefeitura da capital.
E entre essas malversações um possível caso de corrupção envolvendo a construção da ponte do Iaco, que liga o primeiro ao segundo distrito de Sena Madureira. E era exatamente isso o que Ednaldo Muniz – acompanhado de seu irmão, o advogado Edinei Muniz, e dois trabalhadores da cidade que os guiavam – apurava nos barrancos do rio, tentando identificar falhas na infraestrutura antes dela cair sobre eles.
Um dia antes, o Departamento de Estradas e Rodagens do Acre (Deracre) já tinha interditado a estrutura ao identificar avarias nos pilares de sustentação às margens do rio. A interdição, obviamente, evitou que a tragédia fosse ainda maior, atingindo um grande número de pessoas.
E também obviamente que o desabamento de uma ponte ao custo de quase R$ 40 milhões, nos interiores da Amazônia, ainda com cheiro de nova, teve como primeira suspeita de causa a marca da corrupção construída por Gladson de Lima Cameli (PP) durante os sete anos e três meses em que esteve à frente do Palácio Rio Branco.
Afinal de contas, é exatamente em obras de infraestrutura tocadas por seu governo onde estão as principais suspeitas de corrupção trazidas à tona pela Operação Ptolomeu, e que levaram o ex-governador acreano a uma condenação de quase 30 anos de cadeia pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Casos de corrupção que levaram este mesmo STJ a suspender obras estruturantes como a ponte sobre o rio Acre, em Xapuri, e o anel viário de Brasiléia. Agora condenado e inelegível, Cameli é novamente réu por suspeita de corrupção na duplicação da estrada do aeroporto de Cruzeiro do Sul, obra tocada por uma construtora de sua família.
A queda trágica da ponte do Iaco pode ser a síntese, infelizmente, da era Gladson Cameli enquanto governador do Acre. Um período marcado por muitas denúncias de corrupção, desmandos e muita patifaria na gestão da máquina pública. Uma verdadeira herança maldita que caiu sobre o colo de sua sucessora, a governadora Mailza Assis (PP).
Ainda na noite do desabamento a governadora foi até Sena Madureira acompanhar de perto a situação. “A determinação foi clara desde o primeiro momento: agir com rapidez para proteger as famílias atingidas, dar a resposta que a população de Sena Madureira espera e garantir a devida responsabilização da empresa responsável pela obra”, afirmou governadora Mailza Assis.

Terra e governo caídos
Mesmo sem nenhum envolvimento de sua pessoa em denúncias de corrupção (até o momento), Mailza buscará a reeleição carregando o peso de uma gestão fracassada, chamuscada por investigações e cujo símbolo de falência pode ser o desabamento da ponte sobre o rio Iaco.
Uma queda que reflete o momento de uma terra decaída que hoje parece ser o Acre. Uma terra caída que sempre oscila entre o apogeu e o fundo do poço – ou o fundo do rio onde agora estão os concretos da ponte.
E a terra caída agora é responsabilizada – tecnicamente – pelo colapso da estrutura em Sena Madureira.
Se o fenômeno do desbarrancamento das margens do rio é de notório conhecimento de quem vive pela Amazônia, o projeto para a construção da ponte não levou em consideração esta característica geológica da região?
Ao longo dos mais de 600 quilômetros da BR-364 entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul – no meio do caminho está Sena Madureira – são para mais de 40 pontes, e todas estão de pé há quase 20 anos. As que apresentaram algum tipo de problema são as sobre os rios Caeté e Tarauacá.
Todavia, elas não desabaram, pois já foram projetadas levando em consideração os movimentos dos barrancos e dos próprios mananciais. No caso de Tarauacá, os técnicos do Dnit tiveram que refazer o traçado da rodovia até a ponte para se adaptar ao novo desenho das curvas do rio. O mesmo tende a acontecer em Sena Madureira, na ponte do Caeté.
Mas o que derrubou uma ponte tão nova?
Enquanto peritos iniciam as investigações oficiais, uma hipótese ganha força entre especialistas: a ação das chamadas “terras caídas”, um fenômeno tão comum na Amazônia quanto pouco compreendido fora dela.

A engenheira civil Marília Araújo, especialista em patologia das construções, explica que o processo acontece quando as águas escavam lentamente a base das margens dos rios. A erosão avança por baixo da superfície.
O terreno perde sustentação. Durante as cheias, a água infiltra e encharca o solo. Quando o nível do rio baixa rapidamente, a pressão interna não consegue se reorganizar na mesma velocidade. O resultado é o colapso. A margem desmorona. E leva consigo tudo o que estiver sobre ela. Casas. Estradas. Pontes. Comunidades inteiras.
Na Amazônia, esse fenômeno tem nome, história e vítimas.
Não se trata de uma surpresa da natureza, mas de um processo amplamente documentado por pesquisadores e conhecido por populações que convivem há séculos com os grandes rios da região. E no Acre ele acontece com ainda mais intensidade por os nossos rios, na definição da geologia, serem definidos como “jovens” – ou seja, estão em constante processo de formação, algumas vezes alterando o seu próprio curso.
A especialista Marília Araújo acredita que é justamente por isso que o desabamento levanta questionamentos incômodos.
Quando os estudos geotécnicos foram realizados, o comportamento sazonal do Iaco foi analisado em toda sua complexidade?
As oscilações entre cheia e vazante foram devidamente consideradas?
A dinâmica erosiva das margens entrou nos cálculos da fundação?
Houve monitoramento permanente da área após a inauguração da obra?
Essas são as perguntas-chaves que precisam ser feitas na elaboração do projeto de uma ponte na Amazônia. Uma fase que, a depender da complexidade da obra, pode levar até um ano.
Agora a principal pergunta é: a Construtora Cidade – responsável pelo ponte – fez os devidos estudos prévios com bastante rigo técnico-científico?
E não se trata de nenhuma empreiteira neófita em construções na Amazônia acreana. A Cidade traz em seu portfólio obras de grande complexidade, incluíndo as pontes da BR-364, três delas de grande porte: a do rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, do rio Purus, em Manuel Urbano, e do Envira, em Feijó. Em Rio Branco foi a responsável pelas terceira e quarta ponte sobre o rio Acre e venceu a licitação para construir a sexta.
Em nota, a empreiteira afirmou que a obra foi construída “com observância à técnica e às normas vigentes da engenharia” e “sem registro anterior de anomalias estruturais que indicassem risco à sua estabilidade”.
“Os levantamentos preliminares realizados em campo identificaram movimentações significativas de solo em uma área muito mais ampla do que a própria ponte, abrangendo aproximadamente 16 mil metros quadrados e alcançando também áreas adjacentes do bairro localizado nas proximidades.”
Mesmo com toda essa expertise em construir pontes na Amazônia, agora a construtora apresenta em seu currículo a tragédia do Iaco; R$ 36 milhões jogados fora e quase a perda de quatro vidas.
Por que erraram agora?
As perguntas permanecem suspensas sobre os escombros da ponte que estão no leito do rio Iaco, atrapalhando a navegabilidade de canoas, catraias e batelões. Aliás, a figura do catraieiro voltou à cena, levando os sena-madureirenses de um lado para o outro do manancial.

O sobe e o desce das águas
Em entrevista após o acidente, o secretário estadual de Obras, Ítalo Lopes, reconheceu a existência de movimentações de solo na região e associou o problema ao fenômeno das “terras caídas”, observado em diversos municípios acreanos após o período de cheias.
Segundo ele, rios amazônicos considerados geologicamente jovens estão em permanente transformação. As margens avançam e recuam. O leito muda. A força das águas redesenha a paisagem ano após ano. Um processo que pode estar sendo intensificado pelas mudanças climáticas e pela velocidade com que os rios baixam após as enchentes.
Ainda assim, o secretário afirmou que a empresa responsável pela construção terá de demonstrar que todos os estudos exigidos foram realizados e que a estrutura foi projetada para suportar as condições do local.
A pressão aumenta porque a ponte ainda estava dentro do prazo de garantia contratual.
Agora, além dos engenheiros e geólogos, a Polícia Civil também entrou em cena. Três delegados foram designados para investigar o caso. Projetos, laudos, relatórios técnicos e documentos da obra serão examinados em busca de respostas.
Quem também está no encalço é o Tribunal de Contas do Estado, que no dia seguinte à tragédia emitiu uma contundente nota sobre o episódio.
“O Tribunal de Contas do Estado do Acre, por sua presidente, conselheira Dulce Benício, lamenta profundamente a trágica queda da ponte sobre o Rio Iaco. Trata-se de um episódio de extrema gravidade, que afeta diretamente a segurança da população e compromete uma importante estrutura de mobilidade e integração regional do Estado.”
“Diante da dimensão dos fatos, a presidente Dulce Benício, determinou o deslocamento imediato de auditores a Sena Madureira para acompanhar a situação e reunir informações técnicas que subsidiem a atuação institucional do Tribunal, que conduzirá a apuração com o máximo rigor técnico que a gravidade do caso exige, examinando minuciosamente todas as etapas do empreendimento, desde a concepção do projeto, contratação e execução da obra até os procedimentos de fiscalização, recebimento e monitoramento da estrutura após sua entrega.”
“Nenhuma hipótese será descartada e nenhuma eventual responsabilidade deixará de ser apurada.” E é exatamente isso o que o contribuinte acreano espera dos órgãos de controle, incluindo também o Ministério Público Estadual.

Rios e estradas
Além disso, o desabamento acendeu um alerta sobre outras estruturas espalhadas pelo estado. Ao longo da BR-364 existem 56 pontes, sendo que 47 delas estão entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul passando sobre rios que atravessam uma das regiões geologicamente mais instáveis da Amazônia ocidental. Muitas delas repousam sobre terrenos sujeitos às mesmas forças que, silenciosamente, podem ter condenado a Frei Paolino.
Apesar da quase unanimidade em torno da tese das “terras caídas”, o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Acre, Ricardo Araújo, defende cautela na análise das causas do desabamento. Segundo ele, qualquer conclusão neste momento seria precipitada, já que somente as perícias técnicas poderão determinar o que provocou o colapso da estrutura.
Vale ressaltar que a construção da ponte Frei Paolino Baldassari foi de responsabilidade do governo estadual,por meio da Secretaria de Obras e do Deracre.
Em entrevista ao Varadouro, Araújo destacou que a região de Sena Madureira apresenta características geológicas complexas, com frequentes movimentações de solo e alterações no curso dos rios, fenômenos que desafiam constantemente os projetos de engenharia na Amazônia.
Como exemplo, ele citou a ponte do Caeté, que sofreu deslocamento horizontal de cerca de 2,5 metros em um de seus pilares devido à movimentação do terreno. Segundo o diretor, a estrutura resistiu porque foi construída em metal, material mais flexível diante desse tipo de esforço.
“Não sabemos se houve relação entre algum movimento de solo e a queda da ponte. Isso precisa ser investigado tecnicamente”, afirma ele, sobre o caso Iaco.

Araújo também observou que os rios amazônicos estão em constante transformação. Segundo ele, o processo natural de mudança dos leitos exige soluções de engenharia cada vez mais adaptadas à realidade regional, incluindo pontes de grandes vãos livres, capazes de reduzir interferências causadas pela dinâmica dos rios.
O diretor do Dnit evitou comentar possíveis falhas de projeto ou execução da obra, alegando não ter acesso aos estudos técnicos realizados durante a construção da ponte.
“Eu não conheço o projeto e, por isso, prefiro não emitir opinião”, diz.
Para o engenheiro, o estudo geológico é a etapa mais importante na construção de qualquer ponte. É a partir dele que são definidas fundações, dimensões, altura da estrutura, posicionamento dos pilares e demais características do projeto.
Segundo Araújo, esse tipo de levantamento pode levar meses ou até mais de um ano para ser concluído, especialmente em regiões de elevada complexidade ambiental, como a Amazônia.
O diretor também informou que o Dnit mantém um programa permanente de inspeção e manutenção das pontes federais. Apenas no trecho entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul existem 43 pontes monitoradas regularmente, incluindo estruturas estratégicas sobre os rios Juruá, Purus, Tarauacá e Envira.
Ao final da entrevista, Ricardo Araújo classificou o desabamento como uma ocorrência lamentável e reforçou que a prioridade agora deve ser a apuração técnica dos fatos para que as causas do acidente sejam esclarecidas com precisão.
Mas como tudo nesta vida também é política – segundo aponta o escritor alemão Thomas Mann – a tragédia do Iaco (para a nossa infelicidade) é o retrato de um Acre em franco processo de decadência. Um Acre em escombros, tanto quanto a ponte Frei Paolino Baldassari. Um Acre onde obras que deveriam durar, no mínimo, 50 anos em pé desabam com pouco tempo de uso. Obras que parecem ser feitas sem levar em consideração as múltiplas realidades amazônicas.
Ao que tudo indica e deixa vestígios, o problema não é só a terra caída – mas um desgoverno em frangalhos.




