Em Manaus, Lula beneficia família Cameli com obras do governo e enraiza a oligarquia política-econômica da Amazônia

Poderes político e econômico mantém território sob controle do velho coronelismo, repetindo a lógica desenvolvimentista da ditadura militar e revelando influências que vão além de questões federativas; balcão de negócios envolve o velho discurso da estrada que corta a floresta, licitação vencida por empresa ligada à família Cameli, investigada por corrupção no governo do Acre.
Steffanie Schmidt
dos varadouros de Manaus
Em dois dias de agenda no Amazonas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou investimentos bilionários em infraestrutura, habitação, logística e indústria naval. No centro dos anúncios encontra-se uma velha conhecida da política amazônica: a construtora Etam, empresa ligada à família Cameli, do ex-governador acreano Gladson Cameli, (PP) condenado neste mês pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ )a mais de 25 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações.
A mesma empresa que venceu o edital para pavimentar o chamado “trecho do meio” da BR-319 – obra historicamente criticada por pesquisadores, indígenas e ambientalistas – também executou parte das moradias entregues por Lula em Manaus no programa Minha Casa, Minha Vida/Morar Melhor, no Tarumã-Açu.
Seria coincidência?
A Etam conecta interesses políticos, empresariais e logísticos que atravessam governos, partidos e décadas de obras públicas na Amazônia – firmando contratos com governos da esquerda à direita.
Antes de abandonar o governo do Acre e de ser condenado pela Corte Especial do STJ – o que torna, consequentemente, inelegível – Gladson Cameli declarou apoio ao pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), adversário direto de Lula. Em sua primeira eleição ao governo do Acre, em 2018, Gladson Cameli também esteve no palanque de Jair Bolsonaro. Além de contratos com o governo Lula, as empresas da família Cameli também mantêm negócios com os governos do Amazonas e do Acre.
A Etam, conforme apontou o jornal O Globo e repercutido pelo site ClimaInfo, chegou a ter atividades suspensas por decisão do Superior Tribunal de Justiça, em processo ligado às operações Ptolomeu e Murano, que investigaram desvios milionários em contratos públicos no Acre, principalmente em obras nas áreas de saúde e educação.
O sócio-administrador da Etam é pai do ex-governador do Acre Gladson Cameli, Eládio Cameli, também alvo da Polícia Federal nas investigações que resultaram na Operação Ptolomeu, em dezembro de 2021, e na agora condenação de Gladson.
Além disso, o valor oferecido pela Etam foi de R$ 362 milhões – bem abaixo do orçamento previsto pelo Dnit, de R$ 430 milhões.
A presença da Etam nos anúncios presidenciais não se limitou à rodovia. No dia 26, Lula entregou 576 chaves habitacionais no residencial Morar Melhor, no Tarumã-Açu, empreendimento financiado com mais de R$ 92 milhões do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR).

O projeto foi executado justamente pela Etam, que também recebeu aporte de R$ 23 milhões do Fundo Estadual de Habitação para obras urbanísticas e habitacionais nas áreas de intervenção direta do Prosamin+ (Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus), no Igarapé do Quarenta.
O Prosamin foi criado em 2006 durante o mandato Eduardo Braga (MDB) como governador do estado do Amazonas e, frequentemente, recebe aportes de emendas parlamentares federais viabilizadas pelo senador.
Uma estrada sustentável?
Em seu anúncio, Lula afirmou que a BR-319 será “a estrada com o maior cuidado ambiental já feito em qualquer país do mundo. O plano do governo inclui 170 passagens para animais e uma faixa de controle ambiental superior a 40 mil km². No entanto, o anúncio é recebido com ceticismo por ambientalistas e pelo Observatório do Clima, que apontam a falta de licenças e de consulta prévia a povos indígenas.
A rodovia, que liga Manaus a Porto Velho, atravessa uma das regiões mais preservadas da Amazônia e é considerada estratégica para o setor logístico e empresarial da Zona Franca de Manaus.
Já no campo das moradias populares, em âmbito municipal, a execução do orçamento do Morar Melhor passou pela estrutura municipal criada especificamente para a política habitacional da capital amazonense, que mantém diversos contratos milionários com a prefeitura e o governo do Amazonas, incluindo obras do programa Asfalta Manaus e do viaduto Rei Pelé.
Desde 2023, a prefeitura de Manaus mantém uma secretaria voltada exclusivamente para habitação, comandada por quadros ligados ao MDB – partido de Eduardo Braga que apoiou a reeleição do prefeito David Almeida, atualmente licenciado para concorrer ao governo do estado. A preferência nas pesquisas de intenção de voto para governador do Amazonas é do senador Omar Aziz (PSD), um dos articuladores da agenda presidencial no estado.
Nos bastidores políticos locais, a BR-319 tornou-se um dos principais ativos eleitorais e econômicos dos grupos políticos dos senadores Omar Aziz e Eduardo Braga, que há anos utilizam a pavimentação definitiva da rodovia como plataforma eleitoral.
Já a família Cameli controla historicamente empresas de infraestrutura e construção na região Norte. A Etam já aparece há anos em contratos públicos no Amazonas, inclusive em obras durante gestões associadas ao grupo político do senador Eduardo Braga.
Historicamente, a Etam é citada em ações de improbidade administrativa por gestão fraudulenta na Seinfra durante o governo de Eduardo Braga, hoje senador e entusiasta da BR-319. Na época, a empresa foi acusada pelo MP-AM de receber R$ 5,5 milhões por obras superfaturadas e “sem utilidade”, como um totem metálico em homenagem à Ponte Rio Negro.

Logística, indústria naval e os novos interesses privados
Lula também anunciou investimentos pesados na indústria naval e na Petrobras, com aporte de R$ 2,8 bilhões no estado. Um dos investimentos foi anunciado dentro do estaleiro Bertolini, de Iran Bertolini, que recebeu encomendas da Transpetro para a construção de 18 barcaças e empurradores, no valor de R$ 303,5 milhões.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard também anunciou a “retomada dos investimentos” na produção de Urucu, após dez anos, destinando cerca de R$ 2,5 bilhões para perfuração de novos poços e lançamento de aproximadamente 40 quilômetros de linhas para conexão dos novos poços em Urucu. “As picadas que forem abertas serão compensadas com reflorestamento”, disse.
Localizado no município de Coari, o Polo Urucu é a maior província petrolífera em terra firme (onshore) do Brasil e completa quatro décadas de operação neste ano. O polo é responsável por uma produção média que equivale a 105 mil barris de óleo por dia.
Apesar de abrigar uma das principais bases de exploração de petróleo e gás da Amazônia, Coari ainda convive com indicadores sociais considerados baixos. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o município possui Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,586, índice classificado como baixo.
O contraste entre a riqueza gerada pela atividade petrolífera e a precariedade em áreas como infraestrutura e serviços públicos tem colocado o município no foco de iniciativas do Ministério Público, como o projeto IDH+, voltado ao fortalecimento das políticas públicas locais.
A narrativa utilizada por Lula foi a de soberania nacional, reafirmando que a Petrobras deve “pensar no Brasil” e gerar empregos locais, recusando a compra de embarcações chinesas. Entretanto, outros interesses que passam pela exploração de minério na Amazônia, colocam em xeque essa ideologia.
Os investimentos e anúncios feitos pelo Governo Federal em momento estratégico para sua reeleição atendem, também, aos interesses dos irmãos Wesley e Joesley Batista.
O grupo J&F, dos Batista, ampliou, recentemente, sua presença no Amazonas através da compra da Amazonas Energia que agora opera com o nome de Âmbar Energia e utiliza os estaleiros Bertolini e Juruá – este último também ligado à família Cameli – para construir a frota que viabiliza seus negócios de energia e transporte de grãos na região.

Conforme revelado pelo BNC Amazonas, foram os irmãos Batista que destravaram a agenda do presidente Lula junto ao presidente dos EUA, Donald Trump, onde uma das pautas de destaque foi a exploração mineral de terras raras, setor onde o grupo mantém seus interesses de investimento e que traz preocupações às populações tradicionais e povos originários em um momento de avanço da agenda mineral no Congresso Nacional.
A recente aprovação, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 2.780/2024, que trata da exploração de minerais estratégicos e das chamadas “terras raras”, ampliou o alerta. O governo tenta acelerar a aprovação do texto no Senado, após negociação de interesses com os EUA.
Por trás da narrativa que destaca a BR-319 como “estrada modelo” e os investimentos na indústria naval como marco de “soberania nacional” estão as mesmas velhas parcerias com empresas e grupos políticos marcados por desvios de recursos públicos e crimes ambientais.
Ou seja, nada de novo no front: por trás, o velho sonho do Eldorado marca mais um capítulo do ciclo econômico na região que prioriza o lucro de oligarquias e grupos políticos emergem fortalecidos desse novo ciclo de investimentos públicos, em detrimento da floresta e da transparência pública.



