FRONTEIRA DE SANGUE

Compartilhe

O avanço do ‘Jaguncismo 2.0’ marca uma década de ‘justiça à bala’ na região Amacro

De acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, da CPT, a zona Amacro acumulou 75 assassinatos na última década, e quase 1.600 conflitos de terra (Foto: Gleilson Miranda/Varadouro)





Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta segunda-feira, 27.04, referente a dados de 2025, revelam a engrenagem da impunidade que marca o modus operandi da Justiça e da posse de terra na região como uma ‘licença para matar” no campo; Amazônia contabiliza maioria das mortes.


Steffanie Schmidt
dos Varadouros de Manaus (AM)

O cenário de violência no campo brasileiro regrediu a patamares de barbárie em 2025 com registro do dobro de assassinatos por disputa de terra em relação ao ano anterior. O clima de faroeste ganha contornos de jaguncismo na região Amacro, onde a prática caracterizada pelo uso de capangas armados a mando de latifundiários e coronéis para manter ‘a ordem’ traz todos os atores envolvidos como empresários, políticos, poder estatal e disputa entre grupos de posseiros formam o roteiro sangrento que ainda marca a tríplice divisa entre Acre, Amazonas e Rondônia. A região consolida-se como uma das “zonas de sacrifício” do bioma Amazônia, onde o agronegócio, a grilagem e a omissão estatal alimentam uma engrenagem de terror.


De acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, o padrão histórico de sangue se mantém: nos últimos dez anos, a Amacro acumulou 75 assassinatos e quase 1.600 conflitos de terra. A média de conflitos se mantém alta desde 2016, com picos recentes em 2024 e 2025.

Dados de assassinatos e conflitos Terra na Amacro entre 2016 e 2025
Recorte para região Amacro (Fonte: Relatório Conflitos no Campo 2025 / Assessoria CPT)


De acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, o padrão histórico de sangue se mantém: nos últimos dez anos, a Amacro acumulou 75 assassinatos e quase 1.600 conflitos de terra. A média de conflitos se mantém alta desde 2016, com picos recentes em 2024 e 2025.

O número de assassinatos por disputas territoriais em todo o país dobrou em relação ao ano anterior, conforme dados do relatório. Foram 26 vidas ceifadas — contra 13 em 2024 — em um contexto de 1.593 ocorrências de violência que atingem, primordialmente, indígenas, quilombolas e posseiros. A Amazônia Legal foi o epicentro dessa letalidade, concentrando 16 das 26 mortes registradas.

Nos conflitos no campo, o lado mais prejudicado é sempre o dos povos e comunidades originárias e tradicionais. Em 2025, os povos indígenas continuaram à frente das categorias que mais sofreram violências no eixo terra, com 258 ocorrências. Na sequência, os posseiros (248), os quilombolas (244) e os povos sem-terra (153).  

Em Lábrea , no sul do Amazonas, apenas na Fazenda Palotina, onde a comunidade Marielle Franco reivindica o uso da terra, há registro de assassinatos e mais de 2.600 famílias sob pressão. Na Resex Jaci-Paraná, em Porto Velho (RO), o acampamento Tiago Campin dos Santos concentra dezenas de famílias em áreas de conflito agudo.


O trabalhador rural Francisco do Nascimento de Melo foi morto a tiros, em janeiro de 2025, em área de conflito no município de Boca do Acre (AM) (Foto: Divulgação CPT)



“Sobrevivemos de cesta básica”

A face humana dessa estatística reside em relatos como o de Lincon Fernando de Lima, morador da Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná, em Rondônia, há 36 anos. O que antes era um território de 197 mil hectares de floresta, hoje é um cenário de devastação.

“Hoje só tem 5% de floresta em pé”, denuncia Lincon. Na região, sobrevivem 250 famílias extrativistas. Ele descreve uma invasão em massa por fazendeiros que introduziram mais de 218 mil cabeças de gado e construíram mansões e pistas de pouso dentro da unidade de conservação. 

Expulso de sua colocação sob ameaças de morte, Lincon expôs a consequência imediata da violência, durante o lançamento do relatório: “As famílias que já foram expulsas dali hoje estão sobrevivendo de cesta básica doada, quando antes todos viviam bem e tiravam seu sustento”.  Para ele, o interesse político local tenta “dizimar” a reserva para titular invasores, removendo multas e ações judiciais.



Lábrea: barbárie e arsenal de guerra

Os casos registrados pelo Varadouro exemplificam a escalada na brutalidade. Recentemente, em Lábrea (AM), três trabalhadores rurais, incluindo Arthur Henrique Ferreira Said, um adolescente de apenas 14 anos, foram executados com tiros de fuzil na Gleba Recreio do Santo Antônio. O uso de armamento de guerra e a tentativa de ocultar os corpos em um córrego revelam o que organizações chamam de “A Justiça dos Jagunços”.

Este “novo jaguncismo” não atua mais apenas com revólveres antigos, mas com logística sofisticada e conexões com facções criminosas. Em Boca do Acre (AM), execuções em via pública com dezenas de disparos indicam a naturalização da “justiça pelas próprias mãos”. Em Machadinho d’Oeste (RO), operações policiais no acampamento Valdiro Chagas também resultaram em mortes e denúncias de abusos.

A violência é impulsionada pela expansão da soja e do gado, além de um novo fenômeno: a “grilagem verde”, onde o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é usado para validar a apropriação de terras de comunidades tradicionais como reservas legais privadas, segundo análise de especialistas, feitas durante o lançamento dos dados.

No Ramal do Granada, em Acrelândia, trabalhadores rurais foram expulsos de antigo seringal por fazendeiro interessado em plantar soja na região; região leste do Acre é marcada por intensas dispustas por terra (Foto: Gleilson Miranda/Varadouro)




SAIBA MAIS:

Descendentes de seringueiros tentam retomar seringal, mas esbarram na influência dos grandes fazendeiros

Famílias seringueiras de Rio Branco resistem às investidas de fazendeiros



A raiz dos conflitos reside na distribuição facilitada de terras para grandes grupos econômicos, desconsiderando populações indígenas, ribeirinhas e posseiros que já habitavam os territórios. Em certas prefeituras, a falsificação de documentos foi tão extrema que, se somadas as áreas registradas nos cartórios, o Pará precisaria ter quatro vezes o seu tamanho real para comportar as terras griladas.

Um exemplo emblemático dessa política foi a atuação da Volkswagen, que recebeu 159 mil hectares de terra no município de Santana do Araguaia, onde desmatou a floresta utilizando mão de obra escrava, crime pelo qual responde na justiça décadas depois. 

Hoje, a dinâmica econômica mudou, mas a pressão permanece: a pecuária cede espaço para a soja, empurrando o gado para áreas de floresta virgem e abrindo caminho para a mineração.

Embora o Governo Federal tenha divulgado o resultado de esforços pontuais no mesmo dia do lançamento, como o programa AGU Recupera, que cobra R$ 356 milhões de infratores ambientais em 2026, a sensação de injustiça predomina. José Batista Afonso, advogado da CPT, alerta que a impunidade funciona como uma “licença para matar”. No Pará, por exemplo, de 137 defensores assassinatos desde 1980, apenas 23 casos foram a julgamento. 

A região passou à história de forma emblemática pelo caso conhecido como Eldorado dos Carajás, o trágico massacre de 21 trabalhadores rurais sem-terra, durante um confronto com a Polícia Militar.  que completou 30 anos no dia 17 de abril. 

Em Rondônia, o Massacre de Corumbiara, ocorrido em 1995, também segue como símbolo da violência no campo na Amazônia.  Na ocasião, uma ação conjunta de policiais e pistoleiros deixou 12 mortos, centenas de feridos e desaparecidos em uma ocupação rural em Rondônia.

Três décadas depois, os episódios se perpetuam: em agosto de 2025, uma “operação policial” no acampamento Valdiro Chagas, em Machadinho d’Oeste, resultou em morte e denúncias de abusos e são reflexos da permanência desse padrão, conforme revelou o Varadouro. 

Em um estado historicamente marcado por conflitos agrários, liderando rankings nacionais de assassinatos no campo nos últimos anos, organizações sociais apontam a continuidade da criminalização da luta pela terra, a ausência de reforma agrária efetiva e a falta de reparação às vítimas como fatores que mantêm vivo o ciclo de violência.



VEJA TAMBÉM:

Sobreposições em registro de terras na Amacro deixa agricultores em insegurança jurídica

Políticos, empresários e militares invadem assentamento agroextrativista em Guajará, no Amazonas


Campo sem paz

Para Cecília Gomes, da coordenação nacional da CPT, esses dados não podem ser vistos apenas como estatística: “Não é só número… são lutas, são resistências, são povos que por lutar por seus direitos perdem a vida”. Ela aponta que o gráfico de conflitos dos últimos dez anos revela uma “boca de jacaré”, indicando um aumento progressivo da violência em áreas onde a resistência popular se choca com os interesses do capital.

Fonte: Apresentação Relatório Conflitos no Campo 2025 / Assessoria CPT





CONHEÇA MAIS sobre a violenta realidade da zona Amacro em nossa editoria Conflitos no Campo

Logomarca

Deixe seu comentário

VEJA MAIS