De Marina Silva a Gladson e Márcio Bittar: a decadência do Acre no Senado

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A acreana Marina Silva deixou ontem, 31 de março, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Ela voltou ao cargo em janeiro de 2023, assim como Lula reocupava o Palácio do Planalto para o terceiro mandato presidencial. E a tarefa de Marina não era fácil: reconstruir a política ambiental brasileira após quatro anos de destruição resultante da estratégia de “deixar a boiada passar” implementada pela dobradinha Jair Bolsonaro-Ricardo Salles. Aliás, não só a área ambiental ficou aos frangalhos, mas como toda a estrutura de governo do país.

Na ocasião, Marina abria mão de uma cadeira de deputada federal por São Paulo para voltar ao ministério que ocupara nos dois primeiros mandatos de Lula lá atrás. Em 2022, ela foi uma das candidatas mais bem votadas pelo eleitorado paulista.

Agora, essa cabocla acreana nascida no Seringal Bagaço, aparece como um dos nomes mais fortes para concorrer ao Senado pelo estado mais populoso e rico do país.

Enquanto Marina Silva é altamente rejeitada por uma sociedade acreana dita conservadora e defensora dos bons costumes, lá fora ela é aclamada e aplaudida de pé. É reconhecida como uma das lideranças políticas mais respeitadas no Brasil – e no mundo.

Em todas as campanhas presidenciais que concorreu sempre foi muito bem votada – exceto em seu estado. Um contraste com um Acre lá do passado, onde essa mesma Marina Silva teve uma carreira política estrondosa. De vereadora de Rio Branco ao Senado da República, sua ascensão foi meteórica.

Cartaz de 1994 da primeira campanha de Marina ao Senado pelo Acre



Há exatos 32 anos, Marina Silva era eleita senadora pelo Acre. Concorria por um nanico e inexpressivo Partido dos Trabalhadores. Na ocasião, o PT já estava na prefeitura da capital com Jorge Viana, mas nada que fosse suficiente, sozinho, para Marina superar a velha oligarquia política acreana herdada dos tempos da ditadura, ligada a uma elite rural detentora de latifúndios.

Superando essa estrutura de então, aquela jovem militante petista, mulher, negra, nascida no seringal, foi eleita senadora, derrotando velhos caciques da política local.

Um feito histórico para o Acre.

Um feito que, hoje, infelizmente ela não consegue mais em sua terra natal – ainda mais concorrendo pelo demonizado PT. Tanto que precisou mudar o domicílio eleitoral. Nos últimos anos o Acre vive um grave retrocesso político. A sociedade decidiu flertar com o que há de mais reacionário e atrasado em nossa estrutura política.

A nossa representatividade no Congresso Nacional é de dar vergonha. A mesma coisa na Assembleia Legislativa. O Acre deixou de eleger pessoas do nível de Marina Silva para se abraçar com figuras como Gladson Cameli e Márcio Bittar – os dois nomes mais fortes ao Senado em 2026.

Ambos são sem comentários, mas vamos lá:

Gladson Cameli precisa combinar sua candidatura ao Senado com o STJ, onde ele é réu por organização criminosa, peculato, fraude a licitação, lavagem de dinheiro, corrupção ativa….

Ufa, a lista é grande.

O primeiro voto, da ministra Nancy Andrighi, o sentenciou a uma pena de 25 anos de cadeia e a saída imediata do caroço, além de pagar multa.

Algo suficiente para abalar a sua imagem e deixar de ser o favorito para o Senado?

Não!

Mesmo encharcado e chamuscado por escândalos de corrupção, as dancinhas de Gladson Cameli diante do público superam qualquer mancha de corrupção associada a sua pessoa.

Do outro lado temos um senador que busca a reeleição. Ficamos oito anos sem ter muitas notícias de Márcio Bittar. Ele, que por tantos anos foi criticado por só usar o Acre para conquistar mandatos em Brasília, agora é um queridinho da sociedade acreana por fazer arminha, propagar discursos de ódio contra os comunistas e ao meio ambiente e só falar o nome de Bolsonaro.

Em oito anos no Senado, seu maior feito foi ser o relator do famigerado orçamento secreto – um dos maiores escárbios da política brasileira gestado no governo de seu pupilo, Jair Bolsonaro.

Foi isso que assegurou a sua eleição ao Senado em 2018 e tende a garantir sua permanência neste pedaço do céu na Terra.

No Acre de hoje, nada mais agrada ao conservador eleitorado acreano do que tais papagaiadas.

Ah, pobre Acre, já tivemos dias melhores.

Dizem por aí que ainda nem chegamos ao fundo do poço!

Quem sabe, um dia, não sabemos quando, voltemos a eleger outras Marinas Silvas…




Fabio Pontes é jornalista e editor-executivo do Jornal Varaddouro. Já são quase 20 anos de experiência na cobertura socioambiental e política na Amazônia, em especial no estado do Acre e na tríplice divisa Amacro, formada por Amazonas, Acre e Rondônia.

Contato: fabiopontes@ovaradouro.com.br

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