Lideranças indígenas do Acre se filiam ao PT, e definem estratégias para evitar erros passados

Em eleições passadas, a divisão entre candidaturas indígenas fragmentava votos. Lideranças concorriam em diferentes partidos e coligações, muitas das vezes disputando os mesmos votos dentro de um mesmo território.
dos varadouros de Rio Branco
Em um movimento que combina simbolismo político e estratégia eleitoral, lideranças indígenas do Acre formalizaram sua entrada no Partido dos Trabalhadores durante plenária realizada em Cruzeiro do Sul, no último dia 26 março. O ato, segundo os organizadores, foi marcado por discursos de unidade e projeção de futuro, sinalizando uma tentativa mais estruturada de transformar apoio histórico em presença efetiva nos espaços de poder.
À frente do encontro, o presidente estadual da sigla, André Kamai, definiu o momento como “histórico” para o fortalecimento político do movimento indígena acreano. A celebração não se restringiu ao número de novas filiações, mas ao perfil político dos que chegam. Entre eles, três nomes já colocados como pré-candidatos para disputar as eleições de 2026: Isaac Piyãko, Manuel Kaxinawá e Ninawá Huni Kuĩ.
Para André Kamai, a presença dessas lideranças abre caminho para um objetivo que, até pouco tempo, parecia distante: a eleição de representantes indígenas para a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados.
“A unidade dos povos indígenas vai possibilitar que tenhamos um representante indígena na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal para que a população do Acre seja plenamente representada”, disse Kamai.
Entre os novos filiados também está a liderança feminina Eliane Yawanawa. Ela destacou a identificação com o projeto do partido e a centralidade dada aos povos indígenas nesse terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva à frente do Planalto.
Um dos principais feitos foi a criação do Ministério dos Povos Indígenas e a retomada dos processos de demarcação de territórios, paralisados durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
Na mesma linha, Manuel Kaxinawá enfatizou a filiação como parte de um esforço coletivo para fortalecer o campo político indígena dentro de uma aliança mais ampla, conectada ao projeto nacional do partido.
“Nós não estamos vindo de agora, já estamos vindo de uma base de movimento desde a luta dos nossos velhos pais. Estamos vindo com o peso de acompanhar a luta dos nossos guerreiros desde a demarcação das terras, a luta que até hoje resistiu”, afirmou ele, que é pré-candidato a deputado estadual.

“Há um choque de cosmovisão. Enquanto a política tradicional é baseada em leis, muitas comunidades indígenas priorizam o coletivo, a ancestralidade e a harmonia com a natureza.”
Já Ninawa Huni Kuĩ trouxe uma dimensão simbólica à filiação, associando a entrada na disputa eleitoral à continuidade de uma trajetória histórica construída por gerações anteriores. Para ele, a pré-candidatura não é apenas um movimento político, mas um gesto de memória e renovação, uma forma de honrar o passado enquanto se constroem novas alianças e ideias.
“A união dos povos indígenas do Acre nasce do nosso próprio interesse em lutar coletivamente para combater um modelo de política que não representa o interesse da maioria da sociedade acreana e muito menos dos povos indígenas”, declarou Ninawa.
O cacique defende que o movimento indígena chegou a um ponto de maturidade onde apenas cobrar de fora não é mais suficiente. “O maior desafio é romper uma história onde sempre estivemos do lado de fora. Agora queremos estar dentro, ajudando a decidir. Não queremos só reivindicar direitos, queremos construir soluções. Levar a realidade dos territórios para dentro do parlamento é fundamental para criar políticas públicas mais justas e eficientes”, disse.
Cálculo político e reorganização estratégica
Se há emoção no discurso, há também cálculo político. É o que deixa claro Isaac Piyãko, uma das principais vozes desse novo arranjo. Ex-prefeito de Marechal Thaumaturgo, ele carrega um histórico não apenas de disputas eleitorais, mas também de ocupar funções estratégicas. Em 2022, ele concorreu ao cargo de deputado estadual, mas não emplacou uma das 24 cadeiras.
Segundo ele, a relação dos povos indígenas com o PT é antiga, mas passa agora por uma fase de reorganização estratégica. O apoio à reeleição de Lula e à candidatura ao Senado do ex-governador Jorge Viana funciona como eixo de alinhamento, mas não esgota o projeto.
A meta, afirma, é mais ambiciosa, é ocupar espaços. “Não é só fazer campanha, é ganhar eleição e contribuir”, resume. Pré-candidato a deputado estadual, Piyãko defende uma atuação que dialogue para além das pautas indígenas, incorporando também setores produtivos e diferentes segmentos sociais. A ideia é ampliar o alcance político das candidaturas indígenas, mas sem perder a identidade.

Essa estratégia nasce, em parte, das dificuldades do passado. O prefeito de Marechal Thaumaturgo relembra as limitações enfrentadas em disputas anteriores, marcadas pela fragmentação do voto indígena e pela falta de apoio mais amplo. Hoje, no entanto, avalia que o cenário mudou.
A base eleitoral se expandiu para municípios-chave como Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Feijó, Jordão e Mâncio Lima, e há, segundo ele, uma consciência crescente sobre a importância de eleger representantes próprios.
Em eleições passadas, a divisão entre candidaturas indígenas fragmentava votos. Lideranças concorriam em diferentes partidos e coligações, muitas das vezes disputando os mesmos votos dentro de um mesmo território.
Filiados ao PT, a estratégia das lideranças é buscar uma coesão para unificar o voto indígena, buscar mais eleitores “fora da bolha” e obter êxito no quociente eleitoral da federação partidária composta por PT, PCdoB, PSB e PV.
Ainda assim, o desafio da unidade permanece. Isaac Piyãko reconhece que divisões internas e alianças diversas continuam presentes, mas enxerga um ambiente mais favorável à convergência. Parte dessa mudança decorre de uma leitura crítica do comportamento de políticos eleitos com apoio indígena que, posteriormente, não sustentaram compromissos com pautas essenciais, como a defesa territorial.
É comum, por exemplo, os representantes do Acre no Congresso Nacional – seja na Câmara ou no Senado – votarem favoráveis a pautas como o marco temporal, cujo objetivo é criar entraves para a demarcação de terras indígenas. E muitos destes deputados e senadores, a cada período eleitoral, vão às aldeias pedir votos.
A crise climática em pauta
Paralelamente, a pauta ambiental surge como elemento central dessa nova agenda política do movimento indígena. Para as lideranças, a defesa do meio ambiente deve ser entendida como uma responsabilidade coletiva, e não apenas como uma bandeira indígena. A crise climática, nesse contexto, é tratada como um problema transversal, que exige equilíbrio entre preservação e desenvolvimento e compromisso de toda a sociedade.
Ano após ano a sociedade acreana é intensamente impactada pelos eventos climáticos extremos. Grandes inundações e secas severas não fazem mais distinção entre quem mora no campo, na floresta ou na cidade, ou quem está em áreas de risco ou bairros mais nobres.

As grandes alagações, as altas temperaturas, a falta de água e a poluição extrema das queimadas impactam um número crescente de acreanos, em um momento em que a pauta das mudanças climáticas é desprezada pelas principais lideranças políticas do estado.
O que se desenha, a partir de Cruzeiro do Sul, é mais do que um ato de filiação. Trata-se de um movimento em transição, da mobilização social para a institucionalização política. Ainda em construção, essa articulação reúne memória, estratégia e ambição e indica que os povos indígenas do Acre buscam não apenas espaço no debate público, mas influência concreta nas decisões que moldam o futuro do estado.



