
A PAUTA
Enquanto fazem guerras para glorificar a morte, me concentro na paz, devo dizer na arte (?), na (in)materialidade que importa e dignifica a fabulosidade da vida.
ESTA FALA
Com tal disposição, trago aqui como um metalivro a manifesta disposição de pensar sobre parte do livro de poemas de minha autoria Istória do Povo do Lugar e outros poemas crônicos (Nepam/artemeiadois, 2022).
Queria puxar a conversa em princípio só para dar certa ênfase ao que pode, pelo primeiro contato com o livro, chamar mais atenção do leitor, que é o que de cara se considera o elemento da sua forma/disposição visual e material. Falo especificamente da capa/contracapa e das posições gráficas espaciais circulares dos poemas nas páginas.
O que faço não para explicar nem justificar. É para dividir com o leitor a minha percepção a respeito. É que a obra se estende para além do que está ali nas mãos do leitor. Não se pode duvidar que ela se põe também, juntamente com a sua materialidade, no que se intenciona.
Dialogar com o leitor é outra maneira de ter a consciência e de conviver com a extensão da obra enquanto produto de sentidos imediatamente postos.
Se penso e me posiciono sobre o mundo – essa seria uma das dimensões do conteúdo da obra – é legítimo que eu possa também pensar e me posicionar sobre a forma pela qual penso esse mundo, forma esta que, defendo, já se constitui também no conteúdo desse pensar/posicionar contido na parte gráfica da obra.
O que faço agora é para dizer muito pouco a respeito do que está feito, tendo esse feito como algo que envolve um projeto estético-social, o projeto da obra em si já posta e da ideia de obra para além do livro.
Essa fala é só um pouco do que devo a mim (e por extensão do que devo a você, leitor), como quem deve a fala justamente aquele/la que cria (e consome) e precisa pensar/se posicionar sobre a criação.
O LIVRO DE ISTÓRIAS
Então, vamos ao que vou agora falar desse “objeto transcendente” a quem se pode ter um “amor táctil”, como diz Caetano na música Livros, sua homenagem a isto, essa coisa “que pode lançar mundos no mundo”, uma “estrela entre as estrelas”.
Istória do povo do lugar, este meu livro de poemas, é uma biblioteca de mapas em seus caminhos e descaminhos… que se quer poéticos, gerados ao longo de uma – senão várias – vida em que se impõe/expõe os traçados das minhas percepções políticas, sociais e culturais sobre/na cidade de Rio Branco, onde nasci, vivo e morro.
São cartas e carteados de memórias do presente acerca do que e como vejo o dito universo de viver social, pelas quais me posiciono e me integro como um sujeito que luta por se colocar para além e aquém de ser colocado.
É onde consta parte da minha leitura do mundo como o mundo da minha leitura, uma das manifestações dos processos de existência e de experiência como uma criatura social – um ser que sobre existe – e também como uma criatura estética, um poeta que sub existe. É sobre isto esta obra, já reduzindo demais o que não foi feito para tanto.
SOBRE O CONTEÚDO DA FORMA E A FORMA DO CONTEÚDO
Mas aqui neste exato momento me ocuparei de outros elementos, a rigor, dos não considerados da instância literária. Por isso, vou buscar, a partir da obra, não me render puramente às palavras, mas me esforçar em des-sufocá-las com o auxílio dos signos. O meu desejo com isso é nunca escapar do plano poético, mesmo que – e justamente por isso – investindo na sua materialidade do tipo que para alguns descabe poeticidade.
Falo dos elementos da forma, dos materiais que compõem o artefato livro, os considerados elementos extras literários como tudo aquilo que não se considera poema em um livro de poemas – mas que, como vou aqui articular, integram o projeto poético da obra. Poemas de materiais e formas a constituir uma totalidade, o que vou, ao final, chamar dele próprio, do poema que é livro e do livro que é poema.
De fato, como todo livro que é livro, esse de papel que todos nós aprendemos a lidar (e que os do agora do mundo virtual não), subsiste nele o objeto físico em si, o que possibilita a potência e a realização da experiência do leitor no contato táctil de manipulação, o qual, pela sua natureza perecível, se pode rasgar, queimar, molhar, riscar, destruir e também proteger, guardar e usar para a finalidade fim para o que foi feito, como circular para se justificar no desmedido mundo social da leitura. Estou tratando desse artefato que não tem como caber, como tal, no mundo das virtualidades em suas quase frias imageticidades.

Falo da sua materialidade em si, de seu corpo, no que se entende como a sua forma, o seu tamanho, o seu peso, a sua cor, o seu odor, o seu conteúdo gráfico, o da capa, o da contracapa, as suas imagens, os seus tipos de letra e de papel, as suas gramaturas, as suas orelhas, a sua encadernação, a cola, a costura, esses elementos que não são comumente considerados como elementos que irão definir/conceituar um livro de poemas, mas meros meios constitutivos para que se chegue à sua substância imaterial. Quero falar da configuração corpórea via de veiculação do assim considerado conteúdo, os poemas.
São elementos, tal como margens, que não são reputados como definidores do seu interior, mas que carregam um papel importante – vezes determinante – na medida em que servem para chamar de cara a atenção do leitor – funcionando, na sua considerada parte externa, como um chama, um bom dia, boa tarde, boa noite, um cartão de visita, porta de entrada, outdoor, anunciando, prometendo/vendendo, quiçá sedutoramente, o seu conteúdo, este que tem sido sempre indicado como aquele que só se localiza na sua parte interna, no seu miolo, na sua considerada essência.
LIVRO SEM CAPA E SEM CONTRACAPA NÃO TEM FIM NEM COMEÇO
É que proponho em Istória, já no considerado plano externo, mudar a forma de apresentação do livro optando por indicar que o seu começo se dá pelos fundos, pela contracapa, e não pela frente, pela capa.
Indico aquele e não este o lugar onde o leitor terá, em primeira mão, acesso aos dados que lhe informam o necessário antes de abrir o livro, respondendo, para tanto, as perguntas básicas de como se chama a obra, o que vai dizer, do que trata, quem é seu autor e qual editora o produz.
No entanto, o que se vê no espaço da capa é uma zona vazia de palavras, aparentemente por isso jamais de sentidos.
O que se oferece no lugar é uma imagem, que é uma fotografia – que nem aparenta ser – de uma página de papel, de cor levemente ouro, rasgada – um rasgo lateral vertical de ponta a ponta, do lado esquerdo da posição de quem ver.
Esta imagem pode naturalmente não ser percebida pelo leitor como acabo de descrever. Pode ser traduzida como outra coisa que não simplesmente uma página rasgada. Pode carregar, como de fato carrega, outros sentidos. A minha ideia é que carregue. Porque diz mesmo para além do que pode ser/parecer com a imagem posta.
Um curso de rio sem curvas numa reta errante; uma cratera em nascimento abrindo espaço para o fim profundo da terra; uma placa tectônica querendo formar algum continente novo; um rastro no céu deixado por algum avião desses que passa às carreiras; um foguete subindo ao céu atrás de explorar vida fora da Terra; um míssil a caminho de alguma guerra burra, como toda é; as pegadas macias de um certo objeto não identificado…
Ou que diga ou leve a dizer absolutamente nada, como se um papel rasgado não tivesse nenhum significado, muito menos quando utilizado para dar fachada a uma capa sem cara de um livro de poemas…
Quando o leitor se depara com uma capa sem as informações clássicas de um livro pode ter a sensação – que aprendeu ser óbvia – de que está diante de um livro sem capa. Mesma sensação pode ter quando se depara com a contracapa com cara de capa, como se estivesse diante de um livro sem contracapa ou uma contracapa ocupando o espaço da capa.
Essas sensações podem ter o condão de criar incômodo por indiciar a existência de erros, no caso, erros gráficos. Erros de tradição gráfica.
Com isso, o leitor deve concluir que deu a louca, capa e contracapa estão trocadas de lugar, portanto estão erradas. E assim, nesse contato inicial, exsurge que o livro está imperfeito, no seu traçado/conteúdo gráfico.
Culpa da gráfica, da editora, da técnica mal feita… Nenhuma do poeta. O que se sabe desde sempre é que o poeta nada tem a ver com o parque gráfico. O seu parque é de outra natureza. Imagino que suponham. As culpas do poeta estão bem guardadas no que vem a se revelar do interior do livro. Ora, não se pode duvidar que das culpas ninguém escapa.
Nessa disposição, o livro propõe que o seu começo – por onde o leitor deve acessar a obra – se dá pela porta dos fundos e não pela porta da frente.
A propósito, vale observar que o último ou o primeiro poema do livro é um plano de fuga para sair do Acre. No caso, partir pelos fundos ou pelo falso fundo. Coisa de fugas. São inversões que podem produzir embaraços para o leitor, nem que seja por alguns segundos, enquanto para grande parte por uma eternidade congelada.
Há um jogo de engano nessa disposição em que o que parece ser não é, tanto a capa quanto a contracapa nas suas respectivas posições propostas. Há um jogo de esconde-esconde pelo qual a capa pode ser encontrada na contracapa mesmo não sendo capa, enquanto, do mesmo modo, a contracapa pode ser encontrada na capa, embora não sendo contracapa.
O que pode, de outro modo, levar a entender, com efeito, que a obra pode ser lida por uma ordem arbitrária, tanto de trás para frente, de frente para trás, do meio para o fim, do meio para o começo, da maneira que preferir o leitor.
Mas qual é o fim, qual é o começo, o da capa que não é capa ou da contracapa que não é contracapa? Interessa mesmo saber aonde as coisas começam e terminam? Claro que sim, podem afirmar muitos, pela lógica da ordem das coisas sãs. Não é justamente assim que todos nós temos sido formatados, ao cabo?
O leitor, nesse ambiente de certa ludicidade (ou loucuracidade), pode concluir que o que não parece ser é exatamente o que é sem sair do lugar. O fato é que os papéis que cada uma tem a cumprir no artefato livro não deixaram de ser cumpridos posto que nenhum deles nunca saiu de seus postos convencionais, regulares.
Tudo pode levar o leitor a se perder ou se encontrar nessa experiência particular de contato/manipulação considerado preparatório para a sua imersão no que se considera efetivamente a obra. Não há ordem de linearidade a se propor. É o que parece.
Com isso, nesse jogo de contato inicial com o livro, a falsidade é que aparenta não ter fim. Diante do que seriam inversões dos papéis da capa/contracapa, não haveria nenhuma ondem, não fosse aquela traída pela sua expressa paginação que se ajusta, sem nenhum enviesamento, a disposição ordinária (que segue da página 1 à última 164), cilada esta em que caiu o suposto plano de enganos, fruto da falta de atenção (afinal de quem?), um deslize do caos, esse senhor fake da estética ou a sua plena liberdade no confronto com o pretenso único autor da obra.
O que se pode querer produzir, no primeiro contato – que é o contato físico-táctil do leitor com o livro-obra, é um deslocamento dele em busca do que lhe é mais cômodo ante o incômodo que lhe movimenta para despertar.
Quase tudo ao que parece é aparente.
Eis proposições cognitivamente provocantes – brincadeiras sem graça, podem entender alguns – essas que se tem a oferecer ao leitor com vistas a despertar/estimular o seu senso de compreensão – e de boa graça – quanto ao lugar do estético.
A CIRCULARIDADE (IN)MATERIAL DA LEITURA
E o que ainda pode se considerar incômodo – passo agora para a segunda e última observação sobre a forma em Istória – avança a se expressar também na disposição espacial dos poemas ao longo do livro.
Que é quando os poemas vão surgindo nas páginas em disposições também não praticáveis como comumente se conhece: sequencialmente em ordenações variáveis/alternáveis para manuseio no modo espiral: de ponta cabeça, de lado, do esquerdo, do direito, dos dois lados, em pé, isto é, como dizem os gráficos, com páginas a 360º, a 180º, alternadamente.
O que se propõe é uma manipulação do artefato livro de maneira também considerada não habitual, posto que a sugerir o seu folheado – página por página – necessariamente no sentido circular de modo que a leitura do livro ocorra em redemoinho, na forma espiral, circular, seja versa, seja inversa.
Mais uma disposição gráfica tida como errada, feia, absurda, a alterar a maneira convencional e assim normal, cômoda, prática e regular de se manusear, para fins de leitura, o objeto livro.
Com tais características materiais, talvez a obra Istória do povo do lugar esteja a considerar que tudo no livro é criação arbitrária e que, nesse sentido, se tudo pode nele, tudo ele pode.
O conceito operado é que o livro não começa pelo conteúdo encontrado dentro dele, a partir do seu miolo – quando aparece o primeiro poema e termina o último – mas nele em si, em tudo que nele se pode considerar ser a obra, no caso, da capa e da contracapa em posições invertidas, o modo táctil de sua manipulação entre outras que o envolva como artefato material e imaterial.
Tudo tem sentido, tudo é um sendo vários, tudo é obra indistintamente, como material e não material, como contato, entendimento semântico, como manuseio, manejo, utilização e até imaginação como escape do que o autor tenha pretendido em si.
O que quer propor não haver separação entre o objeto livro e a obra. Tudo é obra – e o livro não se basta como tal – na medida em que não se trata de um livro de poemas, mas de, desde tudo nele, um poema, um livro-poema que é um poema táctil, o que pode ajudar também a não distinguir a forma do conteúdo se, por esta compreensão, a forma também é conteúdo, ela também é geradora da substância da obra. Tudo dominado pela expressão que abarca indistintamente tanto a maneira de dizer como o próprio dizer. Eis a obra estética em seu conceito proposto.
Talvez essa reiterada provocação para o incômodo – pelo menos para alguns – seja uma tentativa da obra em afirmar ao leitor do quanto será igualmente incômodo ver pelos olhos do poeta o lugar que o poeta ver, lugar esse em que a verve estética em si, como forma, é atravessada pelo desassossego social e vice-versa, expressão crítica de seu intenso e profundo incômodo estético-social, o que tem sido, para ele, lutar para existir e criar no lugar geocultural chamado Rio Branco.
Nesse sentido, ainda sem adentrar nos poemas assim considerados na sua forma textual, pode se dizer que este aspecto considerado externo-estético-social que aqui se revela e se busca pensar poder possibilitar a constituição da obra como uma totalidade livro-poema, assim pode ser considerada também porque manifesta, por parte do poeta, a concepção e prática estéticas de liberdade, daí sua importância para a sua existência, justamente esta que procura ser, fundamentalmente, libertária, porquanto insurgente, frente ao mundo-lugar que não é libertário e que reduz o mundo a que todos devam se acomodar formatados no eterno mesmo (do) material e imaterial.
Sei que nada disso proposto como possível incômodo ao leitor tem sequer cheiro de originalidade. Não é disso que estou atrás, senão do direito de experienciar – e pensar sobre – o que não é novo com a mão da minha particularidade poética que nada difere da vida.
Paro por aqui essa espécie de metalivro para seguir. É o que nessas primeiras linhas pude alcançar com essa estranha experiência de autoanálise. Para o mais, fica por conta inclusive do que não foi possível, que é quando a sua abertura se esgarça ainda mais ilimitadamente, como quase tudo é, quando poema.
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João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.
joao_veras@hotmail.com



