Varadouro aprofunda escuta para alinhar jornalismo de selva e sustentabilidade

Buscando entender as demandas de quem vive e estuda a Amazônia, o Varadouro ouve leitores e lideranças para aprimorar sua cobertura e garantir que o veículo continue sendo uma ferramenta de resistência, identidade e viabilidade financeira.
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Steffanie Schmidt
dos varadouros de Manaus
O Jornal Varadouro, que renasceu com a missão histórica de ser um “jornal da terra” enraizado nos seringais, dá mais um passo estratégico para garantir seu futuro. O veículo realizou uma escuta qualitativa com lideranças indígenas, extrativistas e pesquisadores para entender como a entrega de um jornalismo que realmente represente o território pode fortalecer sua sustentabilidade.
Para o público, a relevância doVaradouro está intrinsecamente ligada à sua coragem e identidade. O pesquisador Alceu Ranzi, professor aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac), destaca que o jornal, desde sua fundação na década de 1970, se diferencia por sua “pegada local” e por dar visibilidade a temas como os geoglifos do Acre. Essa conexão é reforçada por Iranilce da Silva, liderança da Resex Chico Mendes, que vê no nome do jornal um tributo aos seus antepassados seringueiros.
No campo das lutas sociais, Cosme Capistrano, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Boca do Acre, no Amazonas,, ressalta que o Varadouro tem a coragem de denunciar a grilagem e a violência no campo, algo que poucos veículos ousam fazer com nitidez e importância para cada caso.
Para o cacique José Batista Shawa Arara, da Terra Indígena Jaminawa-Arara do Rio Bagé, no município de Marechal Thaumaturgo, o jornal é uma ferramenta vital para levar as vozes indígenas ao público, especialmente contra ameaças legislativas que violam direitos originários.
Bióloga e diretora do Comitê Chico Mendes, Angélica Mendes, afirmou que a retomada do Jornal Varadouro representa mais do que o retorno de um veículo de comunicação; é a reafirmação de uma voz nascida “na luta” e dentro da própria Amazônia.
Em depoimento colhido durante o processo de escuta qualitativa do jornal, ela ressaltou que o Varadouro tem conseguido se conectar com pautas urgentes e denúncias necessárias, mas sem abrir mão de um papel educativo.
Angélica elogiou o projeto de formação de jovens comunicadores indígenas, realizado em parceria com o Coletivo Tetepawa, e a adoção de linguagens modernas, como vídeos rápidos e o estilo de influenciadores digitais para pautar temas sérios.
“Eu acho que o Varadouro está se conectando com pautas urgentes, importantes denúncias, mas também está fazendo um papel formativo super importante”, afirmou. Ela ressaltou ainda que é preciso ter a capacidade de conectar denúncias urgentes a novos formatos de comunicação digital.
Nesse cenário, Angélica defende que o Varadouro siga “demarcando espaços” para garantir que a narrativa sobre a Amazônia seja feita por quem a vive. Para ela, o trabalho atual como consumidora de internet é “incrível” e essencial para dar visibilidade às diversas realidades que compõem os territórios amazônicos.
A escuta qualitativa, realizada com um núcleo de 16 lideranças e conhecedores da região Amacro – confluência entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia – , tendo dez respondentes, revelou que o Varadouro atua como uma ferramenta crucial de comunicação para povos indígenas e comunidades extrativistas.
Desde 2024 a editoria do Varadouro tem como uma de suas principais preocupações fazer escutas qualitativas e quantitativas sobre como ao jornalismo produzido pela organização de fato chega e impacta os territórios. “A retomada do jornal em 2023 tinha como principal missão criar uma comunicação socioambiental de dentro para dentro, e nvolver as comunidades neste processo, não ficar só numa coisa de cima para baixo”, diz o jornalista Fabio Pontes, editor-executivo do Varadouro.
“Muitas das vezes falhamos em melhorar e ampliar essa escuta, pois s demandas que nos chegam das comunidades são muitas. As suas urgências precisam de respostas rápidas. São casos de violações, de invasões, desmatamento, de comunidades afetadas pela crise climática. Hoje o Varadouro se tornou uma referência para as lideranças do campo, da floresta. Elas sabem que seus anseios ganham visibilidade”, ressalta ele. “O leçol é muito curto, as demandas gigantescas.”
Mesmo com tais dificuldades, Varadouro aperfeiçou, nos últimos anos, o processo de produção de conteúdos multimídia e audiovisual, para que as notícias cheguem de uma forma acessível na ponta. A criação da Rádio Varadouro é a principal aposta para isso, cujo objetivo é transformar as reportagens publicadas no jornal em formato de áudio e vídeo para ser publicados nas redes sociais e distribuído em grupos de Whatsapp.

Desafios: presença e diversidade
A escuta também apontou onde o jornal precisa evoluir para se manter essencial como aprimorar a presença em campo, ampliar a representatividade de gênero e minorias; e adoção de novos formatos de entrega.
Lideranças como Luzineide Marques da Silva e Cosme Capistrano** enfatizaram a necessidade de a equipe estar fisicamente presente em conflitos e áreas de crimes ambientais para averiguação direta. Já Matisiane Jaminawa, representante das mulheres na aldeia Morada Nova, coordenadora da região de Feijó e membro do coletivo de comunicação Tetepawa, sugeriu o fortalecimento da voz das mulheres indígenas e a ampliação da cobertura para povos ainda menos visibilizados no Acre.
Para casar a entrega do jornalismo com os hábitos do público atual, a escuta revelou uma forte demanda por conteúdos mais ágeis. A antropóloga Tati Sousa e a liderança Sirlei Ximanawa, comunicadora indígena, sugeriram o uso mais intenso de listas de transmissão no WhatsApp e conteúdos em áudio e vídeo para facilitar o acesso à informação no interior e em aldeias.
Angélica Mendes, do Comitê Chico Mendes, reforçou que essa comunicação moderna é crucial para o Varadouro se consolidar diante de veículos de fora que dominam o financiamento na Amazônia.
Sustentabilidade pela relevância
O entendimento do Varadouro é que a sustentabilidade do veículo depende de sua capacidade de ser indispensável para o território. Ao oferecer dados qualificados sobre mudanças climáticas e ser a “ponte” para comunidades silenciadas, o jornal busca não apenas audiência, mas o apoio de uma rede que reconhece sua função social.
Como define o cacique José Batista, o compromisso é manter a resistência viva: “Aqui morre um guerreiro e nasce mais guerreiro ainda para lutar pelo mesmo direito”. É nesse espírito que o Varadouro se renova, unindo a tradição dos pioneiros com as ferramentas do século XXI para proteger a Amazônia.
Um espelho da identidade acreana
O Jornal Varadouro nasceu na década de 1970 com a missão de ser um “jornal da terra”, enraizado nos seringais e com uma pegada local que o destacou entre a imprensa alternativa do Brasil. Fundado por Elson Martins,
Hoje, sob a liderança do jornalista Fábio Pontes, o veículo vem retomando essa missão histórica desde 2023, mas com o olhar atento aos desafios do século XXI.
Para muitos leitores, o Varadouro é mais que um veículo de informação; é um elo com a própria história. Iranilce da Silva, por exemplo, sente-se representada pelo nome do jornal, que remete aos caminhos percorridos por seus antepassados seringueiros no corte da seringa. .
CONHEÇA MAIS sobre nossa história neste bate-papo entre dois dos fundados do Varadouro na década de 1970, Élson Martins e Arquilau de Castro Melo
Dentro das Reservas Extrativistas (Resex), o jornal é visto como uma “ponte” para denunciar crimes ambientais e o descaso governamental. Luzineide da Silva ressalta que o Varadouro dá voz a quem muitas vezes é silenciado: “Se nós não publicarmos o que acontece dentro das unidades, a gente vai ficar silenciada”.
Ao promover uma escuta qualitativa o Varadouro reafirma seu compromisso com a ética e a luta nos territórios, honrando o legado dos pioneiros Elson Martins e Silvio Martinello, mantendo o jornalismo vivo que nasce para lutar pelo direito de existir e pela proteção da Amazônia.
**As lideranças não foram geolocalizadas por conta das ameaças recebidas.




