
João das Neves (1934-2018), depois de constituir a sua potente dramaturgia pelo leme do teatro político dos CPCs (Centros Populares de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do Grupo Opinião, viveu no Acre por um breve período de intensos e criativos anos, de meados dos anos 80 até início dos 90.
Por aqui fez um teatro comprometido com o lugar e vida locais, quando continuou ensinando e aprendendo uma dramaturgia crônica esculpida das experiências populares, urbanas e florestais, próprias de um estado de ser de um artista em permanente vigor estético e crítico nos momentos históricos em que viveu.
Vivências estas das quais resultaram na criação de três obras de sua autoria. Caderno de Acontecimentos (1987), Tributo a Chico Mendes (1988) e Yuraiá- O rio do nosso corpo (1992).
Nesse período em que viveu no Acre, João chegou a montar e dirigir as duas primeiras peças, contando com elenco de atores, atrizes, técnicos, produtores, músicos e compositores exclusivamente acreanos. Já o texto de Yuraiá nunca chegou a ser montado.
Esta é a trilogia da dramaturgia amazônica acreana de João das Neves. Tal qualidade se nomeia muito provavelmente porque só poderia ser produzida em razão da sua vivência pessoal com as questões locais nada ficcionadas ou imaginadas de longe, senão orgânica e realisticamente vivenciadas/recriadas, portanto, sentidas por ele, enquanto corpo, consciência, sentimento e alma coletivas esteticamente dispostas e posicionadas em um ambiente amazônico de intensos conflitos políticos, econômicos, ambientais e sociais.
Quando a polícia matou, em Rio Branco, de forma covarde o adolescente Piaba, ato normalizado e impune no cotidiano urbano de um Estado da violência oficial e seletiva contra alguns grupos sociais, os tratados como párias urbanos de sempre, nasce Caderno de Acontecimentos, trazendo outros fatos próprios das rotinas cultural e política acreanas.
Quando Chico Mendes, enquanto seringueiro e sindicalista, é também covardemente assassinado, em Xapuri, por sua luta coletiva em defesa da vida digna na Amazônia acreana, nasce Tributo a Chico Mendes.
E, não quando, mas, enquanto a sociedade e o Estado continuam na sua sina colonial a ignorar e se contrapor a vida, a cultura e a luta das resistências indígenas no Acre, nasce Yuraiá, a partir da experiência de João com os indígenas Kaxinawá (Huni Kuin) do território acreano.
As três peças são de fato documentos históricos, seja como expressões estéticas, seja como expressões políticas, criadas a partir e contra as condições de exploração e racialização coloniais infindas da terra e da vida dos condenados das cidades e florestas amazônicas.
Nesse exato sentido, épicos públicos que se prestam a questionar, a denunciar e, por isso, a se contrapor às condições conjunturais e históricas que sempre alimentaram a estrutura do poder colonial na América Latina, no Brasil, na Amazônia, no Acre.

Estou testemunhando a bela história de João das Neves no Acre também na condição honrosa de um dos integrantes da montagem da peça Tributo a Chico Mendes (Grupo Poronga), na qualidade de músico e compositor.
Fiz parte do elenco de compositores das 5 músicas da peça, juntamente com Clenilson Batista, Clevisson Batista, Alexandre Nunes, Bertold Brecht e o próprio João das Neves. Como músico, participei de todas as apresentações, desde a estreia em Rio Branco (por ocasião do II Encontro Nacional dos Seringueiros e I Encontro dos Povos da Floresta), passando pelas cidades de Xapuri, Londrina, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, jornada artística do Grupo Poronga nas duas turnês realizadas, em 1989 e 1990, pela região Sudeste do país.
Na época, confesso que não tinha uma noção mais clara da importância de João das Neves para o teatro brasileiro e, especificamente, acreano. Falo da noção que tenho agora, passados quase quarenta anos.
Muito embora vinculado pragmaticamente à obra pela teia da estética musical, minha noção determinante na época se circunscrevia ao campo da política no sentido estrito em termos. Estava claro para mim que aquilo de que participava era fundamentalmente um manifesto político na forma de tributo a um condenado da floresta por suas lutas coletivas.
Por esse prisma, para mim a obra se afigurava – senão se reduzia – como instrumento efetivo de denúncia de um crime que acabara de acontecer, de fortes consequências políticas não só para a região, mas, como vimos depois, para muito além dela.
Sabia da sua importância como um documento de memória social e de identidade cultural, portanto para fora do esquadro daquele instante. Mas o momento clamava mais por uma dimensão política do que estética. Eu estava separando o que era – é – uma coisa só, falo de uma unidade complexa do tipo global sem eliminações quaisquer.
Vejo hoje que essa distinção, de fato, não faz tanto sentido no decorrer do tempo como fazia na época da urgência do momento. Hoje minha percepção é de que forma e conteúdo no teatro de João tende a ser uma só expressão, portanto não necessariamente distinguíveis, didaticamente separáveis, objetivamente escalados com importância maior para um dos lados das dimensões de sentidos e menor para outro.
Isto é, o fato de ser político não tira seu valor estético e vice-versa. O que já estava patente, por exemplo, justamente no meu lócus de criação, que era na trilha musical da peça.
Sim, nos aspectos sonoros e rítmicos musicais com tantos significados políticos-estético-culturais, caso das escolhas dos cantos repentistas nordestinos, nas toadas e danças do boi-bumbá, no forró nordestino, nos cordéis, nos cantos em coro uníssono, enfim, na dimensão coletiva da expressão musical fundada nas manifestações da cultura popular etc, território epistêmico da arte dos condenados da floresta e da cidade.
O que, naquele instante, nós jovens compositores acreanos, não tivemos nenhuma dificuldade de entender e reproduzir ao criar a trilha em diálogo com João.
Afinal, filhos e netos da história da colonização.
Estou falando agora dos materiais próprios dos contextos musicais periféricos das histórias de vidas urbanas e florestais acreanas, que forjaram parcela do universo cultural seringueiro, contextos estes formados em grande parte pela tradição oriunda da herança cultural histórica substanciada pela imigração nordestina no território acreano.
No espectro sonoro que forma a trilha da peça se observa uma saborosa pseudo confusão, em que a estética se enreda com a política e esta sendo aquela a produzir algo maior e novo, por isso transgressor – embora sem nenhuma aparência disso, de tão simples, natural e orgânico. Sendo a um só tempo os dois, não se torna imprescindível a distinção. Nesse sentido, a obra é política justamente em sua esteticidade e é estética pela sua politicidade.
Estou falando sobre a prática dramatúrgica de João das Neves pela qual a arte é manifestação de vida, por isso também de resistência para quem precisa resistir. Assim, as músicas não poderiam expressar outra coisa senão o estado dos corpos e mentes dos condenados nas festas e nas lutas, nas alegrias e nas dores.
Estou a tratar de um ambiente crônico de sobrevivência que em um mundo colonial é permanente. Como separar uma coisa da outra sendo ambas uma só e grandiosa? Tudo ontologicamente contido no DNA cultural e histórico de nós jovens compositores, filhos e netos dos condenados!
É o que tenho observado e refletido sobre o curso que segue o rio da dramaturgia acreana desde então (suas formas/conteúdos de viver e lidar com a/na vida concreta e imaginada) – o que quer dizer toda expressão estética que é intrinsicamente, por necessidade ontológica, política o que temos produzido originalmente.

Eis que um dos legados de João das Neves, entre tantos e tantos.
Enfim, para saber muito mais a respeito, informo que será lançado em Rio Branco, nesta quarta-feira, dia 28 de janeiro de 2026, na Usina de Artes, a partir das 19 horas, o livro póstumo de João das Neves, O Encenador e a Floresta, no qual parte de sua experiência no Acre é contada pelo próprio. Na ocasião, integrantes do elenco de atores e atrizes de Tributo a Chico Mendes estarão lá lendo textos do livro, quando a banda The Bubuias executará toda a trilha com a participação especial da cantora mineira Titane, companheira de arte e vida de João das Neves.
É imperdível. Todos estão convidados.
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João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.
joao_veras@hotmail.com



