EDITORIAL

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O ar que nos faltou é a verdade que ainda sufoca: cinco anos da tragédia do oxigênio no Amazonas

Mulher é amparada em frente a UPA José Rodrigues, na Avenida Camapuã, Cidade Nova, zona Norte. Foto: Márcio James/Amazônia Real

Quase sempre o silêncio fala mais do que palavras. É preciso atenção para observá-lo e registrá-lo; a história se encarrega do resto. 

Neste dia 14 de janeiro de 2026, coube ao Ministério Público Federal (MPF) lembrar que se passaram cinco anos do dia que ficou marcado como o colapso do oxigênio no Amazonas. Faz cinco anos que o mundo assistiu, em choque, Manaus se transformar em uma câmara de asfixia coletiva. O colapso do sistema de saúde em 2021 não foi um desastre natural ou uma fatalidade inevitável: foi o resultado de uma omissão sistemática e deliberada dos poderes públicos que, até hoje, se recusam a pedir desculpas ou a encarar o espelho da própria responsabilidade.

Ainda não se sabe a dimensão exata da tragédia. Os fatos novos trazidos a público pelo MPF revelam uma dimensão ainda mais sombria da tragédia. Relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que o governo Bolsonaro tentou manter sob sigilo, comprovam que a União foi alertada sobre a escassez crítica de oxigênio em Manaus no dia 28 de dezembro de 2020. Durante 17 dias, o aviso pairou sobre as mesas de autoridades públicas enquanto o povo agonizava. O déficit de oxigênio não durou apenas dois dias, ele foi crônico, persistindo de 28 de dezembro a 30 de janeiro de 2021, afetando não apenas a capital, mas estrangulando municípios como Coari, Parintins e Manacapuru.

Para ter acesso aos dados, o MPF precisou obrigar a Abin a compartilhar relatórios que anteciparam o risco de falta de oxigênio no estado no início de 2021, no auge da pandemia de Covid-19. 

A omissão do Poder Executivo nas três esferas é gritante. Na época, o país era governado por Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde era gerido por Eduardo Pazuello e o Amazonas estava sob a gestão de Wilson Lima — que permanece no cargo. Manaus encerrava a gestão de Arthur Virgílio Neto. Mesmo com alertas precoces da principal fornecedora, a empresa White Martins, sobre o aumento exponencial da demanda desde julho de 2020, o Estado permitiu a flexibilização do isolamento em dezembro, ignorando a curva epidemiológica que pesquisadores locais, a Ciência, avisavam estar subindo.

O Poder Legislativo também falhou em seu dever de fiscalização e controle. Na Assembleia Legislativa do Amazonas e na Câmara Municipal de Manaus o silêncio e a anuência muitas vezes falaram mais alto que a urgência da vida. 

Hoje, o MPF busca na Justiça uma reparação de R$ 4 bilhões, mas o que as famílias mais clamam não é apenas o valor pecuniário, é o reconhecimento formal de culpa que os entes públicos insistem em negar. Em reuniões recentes, representantes da Advocacia Geral da União (AGU), do Ministério da Saúde, da Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (SES-AM) e da Prefeitura de Manaus mantiveram-se em uma “predisposição para o diálogo”, mas sem admitir qualquer responsabilidade pelos fatos.

A dimensão real da tragédia ainda é um abismo a ser explorado. O número oficial de 33 ou 34 vítimas refere-se apenas aos dias 14 e 15 de janeiro e é considerado uma subestimativa grosseira. Dados da sociedade civil sugerem números muito maiores, e o fato de mais de 500 pacientes terem sido transferidos às pressas para outros estados reforça que a asfixia foi generalizada.  

Manaus e o Amazonas ainda convivem com os mesmos gargalos históricos: a ausência de um Serviço de Verificação de Óbito (SVO) e uma dependência crônica de remoções aéreas, conforme lembrou o procurador da República Igor Jordão, em coletiva nesta quarta-feira, 14 de janeiro.

“A luta por justiça de transição — verdade, memória e reparação — é o único caminho para garantir que esse horror nunca se repita”, afirmou o procurador. 

A sensação de que “viramos a página” sem lê-la é um desrespeito ao trauma coletivo, lembrou o representante da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), Vinícius Reis, antropólogo, pesquisador e advogado. “Qualquer medida simbólica, como nomear praças ou ruas, é insuficiente se não houver um pedido de desculpas e a assunção de que o Estado falhou com seus cidadãos”, afirmou. 

Para nós, do Varadouro, o jornalismo é o registro da história que os poderosos querem apagar. As famílias querem, acima de tudo, respeito. Buscam reparação e reconhecimento. E o que elas esperam? “Que seja feito tudo diferente do que foi feito, que haja respeito… que a gente seja tratado com respeito… que seja mais humano, sabe? Que é o que não foi. Nós sofremos uma violência absurda”, manifestou Lucynier Omena, mãe do geógrafo Daniel Tiago Omena Melo, que morreu aos 39 anos sonhando em colocar em prática um projeto de tratamento de resíduos sólidos para ajudar a salvar o planeta.  

Nenhum ente público deste estado se manifestou publicamente a respeito. Há silêncio porque já não se pode rompê-lo, tamanho o consentimento. Já se tornou política. Mão sujas não serão passadas a limpo pelo curso da história. Toda escolha cobra um preço. 

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