A ROTA DO FOGO

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Queimadas e incêndios florestais tomam o rumo do Juruá, mas dizimam matas nativas no Vale do Acre

De acordo com análise do Labgama, o ano de 2024 foi um dos mais críticos em registros de incêndios florestais no Acre (Foto: Alexandre Cruz Noronha)




Estudo elaborado por laboratório da Ufac em Cruzeiro do Sul traz o diagnóstico completo do impacto do fogo em território acreano no crítico ano de 2024, quando as 22 cidades ficaram, por semanas, tomadas pela fumaça tóxica. Análise consolida a percepção da migração das queimadas e incêndios florestais da região leste para a oeste, no Vale do Juruáonde estão as maiores áreas de florestas preservadas.

João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

A professora Sonaira Souza da Silva, do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul, concluiu no fim de setembro passado seu Relatório Executivo do Projeto “Acre Queimadas 2024 – Incêndios Florestais e Queimadas no Estado do Acre: Análise da Extensão, Nível de Degradação e Cenários Futuros”. Doutora em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Sonaira destaca em seu relatório uma inversão do rumo dos focos de calor das regiões Leste e Centro do Acre para o Vale do Juruá, no extremo oeste do estado.

Ao mesmo tempo, o estudo observa que, embora haja redução dos focos nos Vales do Baixo e do Alto Acre, os alvos são as últimas áreas de floresta nativa remanescentes em municípios como Acrelândia e Capixaba, por exemplo.

O estudo foi conduzido por técnicas de sensoriamento remoto baseado em imagens dos satélites Landsat 8 e 9 e Sentinel 23. As imagens revelam focos de calor que tanto podem ser de queimadas autorizadas ou clandestinas sobre áreas já desmatadas ou de incêndios florestais, espontâneos ou criminosos, sobre a mata ainda em pé.

O ano de 2024 está entre os quatro mais calcinantes da história do Acre, segundo o estudo de Sonaira, em companhia de 2005, 2010 e 2016. O primeiro, em 2005, foi marcado por protestos da população que chegaram a fechar o centro de Rio Branco em passeata com o uso de máscaras.

À época, o então diretor-presidente do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), professor Edegard de Deus, declarou que o Acre era apenas o fumante passivo de uma fumaça que vinha da Bolívia e do Mato Grosso. A população só pôde voltar a ver o céu livre de fumaça após uma chuva de oito milímetros no final de setembro daquele ano.

O mesmo cenário se repetiu quase 20 anos depois, quando, em 2024, o povo acreano foi atingido por uma das maiores crises ambientais. Por dias, as cidades ficaram encobertas pela fumaça tóxica das queimadas. Rio Branco, por vezes, ocupou a posição da cidade mais poluída do mundo por conta da elevada concentração de material particulado PM 2.5.

De fumantes passivos da fumaça alheia, passamos a inalar a fumação tóxica das queimadas e incêndios florestais gerados dentro de nosso próprio território.


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A capital do fogo: tomada pela fumaça em 2024, por dias Rio Branco “ostentou” o título da cidade mais poluída do mundo (Foto: Juan Diaz)



Em 2024, atiçado pelo El Niño, o fogo consumiu algo em torno de 263 mil hectares de floresta no Acre, como conseguiu concluir o Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente, coordenado por Sonaira Silva. Conforme o estudo da cientista, deste total, 237,6 mil hectares foram destruídos por queimadas para cultivo da terra já desmatada. Outros 25,7 mil hectares foram alvos de incêndios florestais.

Segundo o estudo, o Vale do Tarauacá/Envira concentrou a maior quantidade de focos de queimadas em 2024, respondendo por 31% da área destruída, uma tendência que vem se repetindo anualmente indicando que o fogo está desviando-se das regiões do Alto e Baixo Acre para o Alto Juruá. Desde 2019, municípios como Feijó, Tarauacá e Manoel Urbano figuram entre os campeões em registros de foco de queimadas na Amazônia Legal.

“Aproximadamente 65% das queimadas mapeadas em 2024, ocorreram em áreas desmatadas antes de 2023. Nestas áreas, o uso do fogo está possivelmente associado às práticas de manejo agropecuário (principalmente pastagens). O restante das áreas afetadas pelo fogo, que contabilizam 35% do total da área queimada, foram detectadas em áreas desmatadas ocorridos entre 2023 e 2024, ou seja, o fogo foi utilizado para completar o processo do desmatamento”, anota a pesquisadora.

Em comparação ao ano de 2023, houve aumento de 31% da quantidade de focos de calor. As queimadas são monitoradas operacionalmente pelos focos de calor, que são pontos quentes na superfície terrestre detectadas por sensores remotos e indicam a ocorrência de fogo ativo naquele momento e local.

Bombeiros combatem queimada no entorno de Rio Branco. Em 2024, Acre registrou mais de 230 mil hectares de cicatrizes do fogo (Foto: Neto Lucena/ Secom)



O movimento do fogo

Os municípios que apresentaram maior aumento em área queimada em 2024 em relação à média anual dos últimos 17 anos (2005 a 2022) foram: Cruzeiro do Sul (197%), Manoel Urbano (170%), Porto Walter (157%), Feijó (148%), Marechal Thaumaturgo (126%), Santa Rosa do Purus (↑126%) e Tarauacá (123%).

Deixando evidente que os focos de queimadas e incêndios estão se voltando para o Vale do Juruá, municípios do Alto e Baixo Acre tiveram redução nas ocorrências: Plácido de Castro (-85%), Epitaciolândia (-40%), Senador Guiomard (-36%), Acrelândia (-23%), Porto Acre (-22%), Xapuri (-4%) e Bujari (-3%).

Entretanto, de acordo com Sonaira, esta aparente redução apenas revela o esgotamento das matas nativas. “Estão queimando as últimas áreas de floresta de municípios como Acrelândia, Capixaba etc”, comentou a pesquisadora em entrevista ao Varadouro.

“As queimadas ocorreram em diferentes tamanhos de área em função do uso da terra. As pequenas queimadas, de meio a cinco hectares, geralmente estão associadas à agricultura familiar, representando somente 20% (46.758 ha) do total das áreas das queimadas mapeadas”, completou Sonaira.

O estudo concluiu também que as áreas mais atingidas tinham entre 10 e 50 hectares, com contribuição de 38% do total de focos de calor. Foram identificadas áreas contínuas de queimadas de até 1.246 ha em Acrelândia, região entre propriedades privadas e o Projeto de Assentamento Porto Luiz II.

Os projetos de assentamento respondem por 29% das terras queimadas, ficando atrás apenas das propriedades privadas e terras públicas, com 54%. Unidades de conservação contribuíram com 16% das queimadas e as áreas indígenas com 2%.



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“A relação com as categorias fundiárias foi realizada com base no mapeamento fundiário do Zoneamento Ecológico Econômico do estado do Acre, atualizado com base do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de 2020 e dados do Ministério do Meio Ambiente 2020”, explica Sonaira.

Cerca de 65% das áreas afetadas se concentraram em 6 dos 22 municípios do Estado do Acre: Feijó (20% do total queimado no Estado), Tarauacá (11%), Sena Madureira (10%), Rio Branco (9%), Cruzeiro do Sul (9%) e Manoel Urbano (7%).

Fogo na floresta em pé

Em 2024 foram mapeados 25.700 ha de incêndios florestais, como são nominados os fogos na floresta em pé. Este foi o quarto ano com mais incêndios dentro da mata fechada, desde 1985. Foram registrados fogo na floresta em 21 dos 22 municípios. Somente Marechal Thaumaturgo ficou de fora. “Este cenário mostra uma seca ampla e distribuída no estado, diferente dos demais anos críticos, onde os incêndios florestais concentravam-se no leste ou oeste do estado”, explica a pesquisadora Sonaira.

Fogo na Resex Chico Mendes. ùltima área de floresta na região leste do estado é a mais pressionada pelo avanço da agropecuária (Foto: Gleilson Miranda/Varadouro)

Dos incêndios florestais mapeados, 47% estão localizados em terras públicas ou propriedades privadas, sendo os dois maiores incêndios localizados em Rio Branco e Senador Guiomard com 296 hectares cada um. Na segunda posição, os projetos de assentamento representam 30% da ocorrência dos incêndios, sendo o maior incêndio identificado entre o PDS Bonal e PAD Pedro Peixoto com mais de 1.700 hectares

As unidades de conservação representaram 19% dos incêndios florestais. O maior deles, com 592 hectares, foi registrado na Floresta Estadual Antimary, localizada entre Bujari e Sena Madureira. As terras indígenas contribuíram com somente 4%, sendo o maior incêndio identificado na Terra Indígena Mamoadate, em Assis Brasil.

“Ressaltamos a preocupação com incêndios florestais na Amazônia, nosso bioma não é adaptado ao fogo, sendo os incêndios uma consequência de secas extremas e uso antrópico do fogo. Necessitamos revisar as técnicas de manejo do fogo em todos os territórios”, anota Sonaira.

Fogo na tríplice fronteira amazônica

Em 2005, quando foi registrado o primeiro ano crítico em incêndios florestais, o Acre registrou mais de cinco mil focos de incêndios entre agosto e setembro. Naquele ano, estudantes e movimentos sociais se mobilizaram e, usando máscaras para se proteger da fumaça, fizeram passeata no centro da cidade, obrigando o governo a adotar medidas duras de combate aos focos de incêndio.

O estado apelou a Brasília, que enviou tropas das Forças Armadas e da Defesa Civil Nacional para ajudar no combate ao fogo que só foi acabar após uma chuva de oito milímetros no final de setembro.

Até lá, cerca de 250 mil hectares foram totalmente devorados pelas chamas e outros 267 mil hectares ficaram fragilizados, tornando-se em lenha para ser queimada nos anos seguintes. A Reserva Extrativista Chico Mendes esteve entre as áreas de floresta fechada mais atingidas pelo fogo.

Em 2024, o Acre foi responsável por 237,6 mil hectares de queimadas, ou seja, 70% dos 463, 3 mil hectares queimados na região da tríplice fronteira MAP, formada por Madre de Dios (Peru), Acre e Pando (Bolívia).

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