
Ao sair da Segunda Grande Guerra, o mundo estava imerso em perplexidade e angústias. Destruição, pesar e medo por todos os lados. Como chegamos a isso?, muitos se perguntavam, temerosos quanto ao futuro.
Dos muitos personagens envolvidos nos conflitos, dois tornaram-se emblemáticos. Do lado dos vilões, os nazistas – com Hitler à testa, demonizado; do lado das vítimas, os judeus. Estudiosos defendem que, mesmo sem ter levado a “solução final” às últimas consequências, os nazistas chegaram a matar entre 5 milhões e 6 milhões de judeus.
É compreensível, portanto, que, desde esses dias, os judeus tenham recebido apoio e proteção especial das potências ocidentais: EUA, França, Inglaterra, Alemanha. E o fato de Israel representar, para essas mesmas potências, uma trincheira avançada no Oriente Médio só reforçou a necessidade dessa relação. Ora, quando Israel ataca os países da região (como Líbia e Irã), é certo que defende seus interesses, mas, ao fazê-lo, também contempla os interesses de seus aliados ocidentais.
Apesar dos pesares, a dor também educa e o genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra deixou lições importantes. Superado aquele momento, instituições foram criadas; acordos, selados; tratados, assinados; campanhas de educação, implementadas… Tudo isso na esperança de que pudéssemos evitar a repetição do horror.
Tendo esse histórico em vista, é desconcertante olhar o que hoje se passa em Gaza e ver o que o Estado de Israel – não o povo judeu – faz ali. Nesse novo cenário, a lição é virada pelo avesso e a vítima se transmuta em algoz.
À saída, cabe destacar que não se trata de uma guerra. É um conflito absurdamente assimétrico. Israel tem um dos exércitos mais bem treinados e equipados do mundo. Conta com apoio financeiro, bélico e moral de outros países. De seu lado, a Palestina não tem Estado nem exército. Portanto, não é uma guerra. É um massacre, dos mais violentos e covardes que possamos imaginar.
No recente conflito com o Irã, Israel se orgulhava da precisão milimétrica de seus mísseis. Contudo, essa precisão não é observada em Gaza. Ali, ambulâncias, hospitais, escolas, áreas civis, etc. são indiscriminadamente alvejadas. Gaza já perdeu algo em torno de 70% de suas estruturas, sendo praticamente reduzida a uma pilha de escombros.

Do lado de Israel, estimativas apontam um número aproximado de 1.500 mortos; do lado palestino, já são mais de 50.000. Desses mortos, mais de 80% são civis e 70% são mulheres e crianças. De acordo com o Comitê de Proteção dos Jornalistas, desde outubro de 2023, já morreram 192 jornalistas. Mais que o triplo do número de jornalistas que morreram durante a Segunda Guerra.
Além de armas de última geração, com assombroso poder destrutivo, o governo de Netanyahu vem usando a fome como arma de guerra, impedindo que a ajuda humanitária leve alimento para aquele sofrido povo. Desnutrição catastrófica já atinge em média 640 mil palestinos, mesmo com alimentos na fronteira, levados pela ajuda humanitária.
E mais. Soldados israelenses têm aproveitado a distribuição do pouco alimento que chega para alvejar os famélicos. Sadicamente, eles transformaram a distribuição de comida numa espécie de arapuca. Matam de bala e de fome. As potências assistem a tudo aparvalhadas, dando apoio efetivo (como os EUA) ou, apenas, afetando um constrangimento inerte (caso de França, Alemanha e Inglaterra) e cínico.
O povo palestino não merece mais que protestos cênicos? Quantos mais precisam morrer para que alguma ação efetiva seja tomada? Quantas imagens de esqueléticos ainda precisaremos ver para que ajam eficazmente para o fim daquele massacre?Dessa forma, o genocídio em andamento em Gaza propicia muitas lições. A vítima de ontem pode se transformar no algoz de hoje. E, embora vida seja vida, nem todas têm o mesmo valor.
Mas, talvez, a principal lição possa ser demonstrada a partir de um cenário hipotético. Se Israel faz o que faz, e as potências mundiais assistem a tudo, numa cúmplice paralisia, somos levados a crer então que, se Hitler ressuscitasse e se lançasse contra a Palestina, usando da mesma força e da mesma brutalidade contra ela, ele receberia o mesmo tratamento benevolente que estão dispensando a Benjamin Netanyahu.
Se Netanyahu pode, qualquer um pode, inclusive um hipotético Hitler ressurreto. Por esse prisma, o “erro” de Hitler não foi ter sido um assassino sádico, e sim ter ameaçado a Europa e os EUA. Se ele tivesse investido apenas contra outros povos, como os russos, é provável que tivesse sido laureado com o Nobel da paz.
À luz disso, é lícito colocar a seguinte questão: Será que Putin seria tão demonizado se, em vez de invadir a Ucrânia, ele tivesse invadido a Palestina? Será que a Europa estaria tão colérica contra Putin se, em vez de matar ucranianos, ele estivesse matando palestinos?
O conjunto de tudo isso parece indicar que, para o “mundo livre e democrático”, o problema não é o genocídio em si. Tudo indica que o problema é quem pratica e, principalmente, contra quem se pratica o genocídio. A vida de uns povos vale mais que a vida de outros povos – “dois pesos, duas medidas”, podemos dizer em tom coloquial.
Na atual quadra histórica, não há causa mais urgente que a causa da Palestina, do povo palestino. Mais que qualquer outra coisa, empunhar essa bandeira é um claro divisor entre quem, de fato, se preocupa com a paz e vida e aqueles que, por conveniência ou covardia, se postam do lado dos assassinos e covardes.
Palestina livre!
Israel Souza
Professor e pesquisador de Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT, 2014), Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédias facínora (EDIFAC, 2018) e A política da antipolítica no Brasil, Vol. I e II (EaC Editor, 2021).



