IMPACTOS SEM FRONTEIRAS

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Avanço da exploração madeireira volta a ameaçar povos isolados na fronteira Brasil-Peru

Desde julho de 2024, os Mashco Piro passaram a ser vistos com mais intensidade pelas comunidades indígenas do Peru; invasão do território por madeireiras empurra os “desconfiado” para mais perto dos aldeados (Foto: Surival International)




Intensificação da retirada de madeira do lado peruano – comum nos meses do verão – faz o povo Mashco Piro se aproximar de aldeias do povo Yne (Manxineru). Desde junho do ano passado há aumento nos relatos de avistamento e aproximação dos isolados, inclusive no Acre. Há casos de confrontos e mortes com madeireiros peruanos.


dos varadouros de Rio Branco

Lideranças do povo Yine (Manxineru no Brasil), de uma comunidade na Amazônia peruana, afirmam que indígenas isolados do povo Mashco Piro chegaram recentemente à sua aldeia. Os Mashco Piro vivem em áreas próximas mas raramente saem da floresta. Os relatos surgem no momento em que as operações de extração de madeira são retomadas com intensidade na região.

“É muito preocupante, eles correm perigo. Da comunidade, podemos ouvir os motores. Os isolados também estão ouvindo. As máquinas pesadas estão novamente abrindo caminhos e cruzando nosso rio acima da nossa comunidade, e derrubando nossas árvores. Algo ruim pode acontecer novamente.”, disse Enrique Añez, presidente da comunidade Yine, parentes distantes dos Mashco Piro.

Desde julho do ano passado, conforme Varadouro vem relatando, há um expressivo aumento de avistamento de grandes grupos dos Mashco Piro pelas comunidades indígenas peruanas, em especial na região do departamento de Madre de Dios, fronteira com o Acre.

Diante de tantas pressões da exploração madeireira no lado peruano, existe a tendência destes grupos buscarem um ambiente mais seguro no lado brasileiro da fronteira. No Brasil, parte do território fronteiriço com o Peru está protegida por terras indígenas demarcadas e unidades de conservação.

Esta tendência de deslocamento foi confirmada em outubro de 2024, quando um grupo de Mashco Piro levou utensílios (terçados, panelas e roupas) de uma das casas da aldeia Extrema, na Terra Indígena Mamoadate, no Alto Rio Yaco. O relato da aproximação foi feito pelas lideranças Manxineru à organização Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre).

Várias organizações do Peru e internacionais já formalizaram denúncias contra o governo do país vizinho para que controle as concessões para exploração de madeira em áreas ocupadas pelos povos em isolamento voluntário. A fronteira entre o Brasil e o Peru apresenta uma das maiores concentrações de grupos isolados do mundo.

Além da atividade madeireira, projetos de infraestrutura em nome de uma integração regional ameaçam a integridade dos territórios dos povos isolados. O mais evidente é a abertura de estrada conectando Cruzeiro do Sul a Pucallpa, capital do departamento de Ucayali. Por conta dos graves impactos sociais e ambientais do empreendimento, o projeto encontra-se temporariamente suspenso. As classes política e empresarial acreana são as principais interessadas pela estrada.

Outro projeto que ganha bastante força é a construção de uma ferrovia que cruzaria a Amazônia do Brasil e do Peru para o transporte de commodities aos portos do Pacífico em Lima – e de lá seguiriam até a China. Pequim seria a principal beneficiada e financiadora da ferrovia, que cortaria toda a região do Purus.

Avanço dos madeireiros

Invasões em territórios de povos indígenas isolados geralmente resultam em epidemias fatais causadas por doenças contra as quais eles não têm imunidade. A exploração madeireira está destruindo partes da terra dos Mashco Piro no Peru, e já levou a confrontos violentos à medida que avança em seu território. Em 2024, quatro madeireiros foram mortos pelos Mashco Piro em vários confrontos fatais. Não há informações sobre quantos Mashco Piro foram mortos ou ficaram feridos.

Após essas tragédias e a pressão de organizações indígenas e da organização Survival International, a Forest Stewardship Council (FSC) suspendeu a certificação de sustentabilidade da empresa mais problemática que opera em partes do território dos Mashco Piro, a Maderera Canales Tahuamanu (MCT).

Essa suspensão está em vigor até novembro. Mas a exploração madeireira já foi retomada e a MCT construiu recentemente uma ponte sobre o rio Tahuamanu para permitir o acesso de escavadeiras e caminhões.

Parte do território dos Mashco Piro está protegida desde 2002, quando foi criada a Reserva Territorial Madre de Dios para proteger a floresta dos povos indígenas isolados Mashco Piro, Yora e Amahuaca. Mas o governo peruano deixou de fora grandes áreas do território dos Mashco Piro, que foram vendidas pelo governo como concessões madeireiras, inclusive para a MCT. Em 2016, após muita pressão de organizações indígenas locais, ele concordou em expandir a reserva, mas isso ainda não foi feito.

A FSC encomendou uma avaliação da situação que concluiu que a suspensão poderia ser cancelada caso a MCT estabelecesse e policiasse suas próprias “áreas de conservação” dentro da concessão.

“Esta é a floresta ancestral dos Mashco Piro e é o seu lar. A sugestão de que as madeireiras poderiam continuar a operar com a aprovação total da FSC, desde que prometessem estabelecer ‘áreas de conservação’ limitadas em suas concessões, é tanto um ataque aos direitos dos povos indígenas como uma perigosa ingenuidade”, diz Caroline Pearce, diretora da Survival International,

Em julho de 2025, a Suprema Corte do Peru suspendeu uma ordem de silêncio contra a organização indígena Fenamad (Federación Nativa del Rio Madre de Dios y Afluentes), em vigor desde 2021. O tribunal decidiu que as restrições violavam os direitos da organização ao devido processo legal e à liberdade de expressão.

Em 2021, a madeireira MCT processou a Fenamad e seu então presidente, Julio Cusurichi Palacios, depois que eles denunciaram publicamente a exploração madeireira em partes do território dos indígenas isolados Mashco Piro. Um tribunal regional impôs uma ordem de silêncio para calar a entidade e impedi-la de defender os direitos territoriais do povo Mashco Piro. (Com Informações da Survival International)

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