Mural pintado com restos da floresta ressignifica devastação por meio da arte em Manaus

Capital amazonense foi a primeira cidade a receber a edição 2025 do Festival Paredes Vivas – Cinzas da Floresta, que transforma restos de mata queimada em tinta para denunciar a destruição ambiental sensibilizar a população, reforçando o papel da Amazônia urbana no debate climático rumo à COP30.
Steffanie Schmidt
dos Varadouros de Manauss
São quase 16h30 de uma quinta-feira, quando um menino aparentando ter não mais do que 12 ou 13 anos passa em frente ao muro que está sendo pintado e manda sem rodeios: “Agora está ficando legal, tio!”. Não se trata de um mural tradicional de grafite onde o colorido cria uma conexão imediata com a estética jovem e diversa, mas de uma obra que desafia artistas e público a ressignificar os diversos tons de cinza de uma mata queimada.
“Coloquei o nome de ‘Piscografite’ porque é uma mensagem psicografada, espiritual. As cinzas que estão na tinta são restos de florestas queimadas, significam a morte, o fim da vida. Nesse mural é como se a floresta estivesse mandando essa mensagem para gente”, explica o autor, Denis L.D.O (Loko do Oeste), streetart, muralista grafiteiro pioneiro do movimento em Manaus.
Atuando há mais de 20 anos no meio, Denis tem obras reconhecidas em diversos pontos da cidade. Ainda assim, considerou desafiador pintar com tinta feita de cinzas de floresta, composta de resto de plantas e animais de diversos biomas, uma proposta do Festival Paredes Vivas – Cinzas da Floresta, iniciativa cultural que se propõe a sensibilizar as pessoas para a destruição ambiental por meio da arte.
Este ano, em sua segunda edição, o festival iniciou as intervenções urbanas na capital amazonense, como um reforço da presença da Amazônia urbana e periférica no debate ambiental, pauta de urgência para o contexto da COP30, que será realizada em Belém, em novembro. Idealizado pelo artivista paulistano Mundano, cujas obras ganharam alcance internacional, o projeto iniciou em 2024 com o refinamento de cinzas reais coletadas por brigadistas voluntários de todo o Brasil. Na Amazônia, por exemplo, registrou-se a maior área queimada da história, com mais de 15 milhões de hectares, segundo o MapBiomas.
Na mistura com resina acrílica, as cinzas carregam traços do que foi perdido, mas, também, possibilidades de memória e reconstrução.
O ato de renascer das cinzas é o que representa, por exemplo, o fruto do guaraná para a cosmovisão sateré-mawé: simboliza renovação e força da natureza, a vida que ressurge apesar das circunstâncias difíceis. Vem do termo “wara’ná”, que significa “fruta com olhos”. A planta nasce dos olhos enterrados de um menino indígena, morto por uma cobra e seu fruto dá força a quem o consome. Por isso, está representado no canto direito do mural assinado por Denis L.D.O.



“O olho de guaraná é um lembrete, uma memória projetando um cenário de devastação onde uma guariba (macaco) faz a ponte com o futuro por meio de uma muda de planta”, explica. Ao apontar para o mural, Denis vira o pescoço. É possível ler a tatuagem que traz no pescoço: ressignificar.
A mesma mensagem está presente nas entrelinhas dos traços da artista Mia Montreal, grafiteira em Manaus com 20 anos de experiência, cujo trabalho é voltado para exaltar a história de mulheres da vida real. Desta vez, a homenageada foi a brigadista Débora Ávila, de Corumbá, que perdeu o filho de cinco meses por complicações no pulmão em função da intensa fumaça que invadiu a cidade em 2020. O município é considerado a capital do Pantanal por abranger 60% do bioma na porção sul-mato-grossense e 37% dentro do contexto brasileiro.
Em 2024, o Pantanal registrou 2,6 milhões de hectares queimados, um sexto da área total do bioma, segundo dados do MapBiomas.
“A gente une o nosso talento à causa ambiental para que seja algo seja feito, para que fique no cotidiano das pessoas e, mesmo para os jovens que passam por aqui, saindo da escola, saberem que é possível fazer algo. É impactante para a gente como artista e por isso queremos que seja impactante, também, para a sociedade”, explica.
Colocar-se de pé para combater o fogo três anos pós perder o filho, fez com que Débora Ávila superasse a depressão e transformasse o luto não apenas para ela, para muitas outras pessoas, avalia Mia Montreal. “Diante de sua perda, Débora trouxe isso como uma renovação na vida, mostrando que é possível ajudar outras pessoas e o meio ambiente. Ela tirou o tempo dela para cuidar da gente e estar na linha de frente combatendo o fogo e isso é lindo demais”, afirma Mia.


O mural foi intitulado “A Altruísta” e está pintado em uma parede de prédio onde não há janelas e obstáculos, conhecido como “empena”.
A rua Felicidade
Ambas as obras estão localizadas na rua Felicidade, dentro do conjunto Viver Melhor, área periférica de Manaus, ainda cercada por mata, localizada na Zona Norte.
“O Viver Melhor foi escolhido porque é um complexo onde grande parte dos moradores já sofreu um realocamento de outras de outras partes da cidade, ou seja, vieram retirados de áreas de invasão ou de outras áreas periféricas e a proposta do projeto é a de agregar dentro de comunidades onde o acesso à cultura é baixo. Além disso, aqui já foi uma floresta um dia”, afirma o artista grafiteiro Valdemir Nascimento, que assina o nome artístico como “Cria”.
Além de muralista que trabalha com a temática socioambiental, ele também reutiliza materiais como lonas de banner para fazer mochilas impermeáveis.
Mães, alunos jovens e crianças, comerciantes e moradores em geral acompanharam com curiosidade o nascimento dos murais ao longo de uma semana. Os pequenos Arlysson Gabriel da Silva Mendes e Lia Paula Costa Martins, ambos de 10 anos de idade, eram os mais empolgados e, de tanta dedicação, foram convidados a participar da oficina de arte e educação socioambiental ministrada para os alunos da Escola Estadual Eliana Socorro Pacheco Braga.
A escola tem a lateral localizada na rua Rio Maicuru, faz esquina com a Felicidade que, por sua vez, termina de frente para a Escola Municipal Professora Sílvia Helena Costa de Oliveira Bonetti, onde eles estudam. Embora tenham caderno de artes, ambos afirmam que quase não têm aulas como a que estavam assistindo. “É mais aula livre”, afirma Lia que optou por desenhar um bosque com arvores e pássaros.
A oficina contou com a exibição do curta “Cinzas da Floresta”, relatando o processo de nascimento do projeto e da fabricação das cinzas, seguida de palestra e tira-dúvidas sobre o trabalho de brigadista e sobre a pintura com as tintas da mata. Atento a todos os movimentos, Arlysson Gabriel retratou uma árvore em chamas em seu desenho.
“A arte é algo que impulsiona, traz muito sentimento e é isso que eu estou tentando transmitir para eles, mais do que qualquer técnica: esse sentimento de preservação, de um olhar mais para a natureza, de um cuidado a mais, de se interessarem mais por isso tudo que é nosso”, explica a artista indígena Kina, do povo Kokama.




Grafiteira e oficineira, ela acredita que a chave para alcançar as transformações exigidas em função da emergência climática são por meio da juventude. “Se não trabalharmos essa juventude agora para cuidar daquilo que a gente tem, nós, na Amazônia, vamos adoecer e o mundo todo ficará doente junto conosco”.
“A gente sente o resultado positivo com os alunos quando eles estão na oficina e saem falando: ‘quero virar brigadista’ ou ‘quero pintar também’, ‘quero fazer isso outras vezes’. São coisas intangíveis, mas a gente sabe que a mensagem está chegando e reverberando para todo mundo que a acessa. A gente entende que a arte é uma ferramenta de transformação social e, a partir disso, a gente consegue comunicar”, explica Bea Mansano, produtora cultural do projeto sediado em São Paulo.
“É muito bom aprender coisas. Eu amo desenhar, é meu passatempo. Foi um pouco triste ver o filme, mas a gente aprende que tem que preservar a floresta e o que desenho por mudar as coisas até dentro da gente também”, afirmou a estudante do 9º ano, Ana Beatriz Alfaia, 15 anos.
COP perto de todos
Manaus foi a primeira cidade a receber a segunda edição do Festival Paredes Vivas que tem como tema “Cinzas da Floresta”. O festival já está em sua terceira edição geral. Em 2024, passou por Campo Grande, Fortaleza, Goiânia, Belém e São Paulo, com ampla repercussão na mídia e nas redes sociais.
A escolha por ressaltar o trabalho de brigadistas foi feita pelo artista Mundano e vem ajudando a elucidar questões e narrativas falsas sobre a origem dos incêndios. “É provocado por ação humana, sim. Claro que o fogo pode iniciar de forma natural, mas a maioria das vezes é por ação do homem, é antrópica e, geralmente para atender interesses de especulação imobiliária para ampliação de áreas cultivadas”, afirma Gabriel Macelli, um dos fundadores da Brigada Galo da Serra.
A brigada foi criada em 2023 por voluntários com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para tentar conter o fogo nas proximidades dos Parques Cachoeira da Orquídeas e Galo da Serra, ambos localizados em Presidente Figueiredo, município localizado a pouco de cem quilômetros de Manaus, na BR-174.
“Isso é muito importante para abrir os olhos do que que tá acontecendo com o nosso clima e como ficarão as questões ambientais. É bom crianças e jovens cresçam com outra mentalidade, mais focada na conservação da biodiversidade e na abertura da mente enxergar como as políticas públicas estão ocorrendo, o que que dá certo, o que dá errado, para poder propor. O dinheiro não compra a vida. Então, se acabou, acabou. Não tem outra forma”, afirma Macelli, que é doutorando pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e atua como brigadista voluntário.
Bea Mansano ressalta que a arte é uma ferramenta para conectar e trazer essas pautas à tona, cujo momento é oportuno por conta da COP30. “A gente poder falar sobre o Brasil, sobre o meio ambiente, sobre o quanto é fundamental a preservação e como ela precisa nascer dentro dos espaços, é fundamental para que a COP tenha o impacto que queremos”.
“Esse sentimento de preservação, de cuidado, de trabalhar com esse tipo de material nessa oficina não se trata somente de arte, mas de uma mudança de pensamentos, não somente na minha mente, mas de todos nós e isso eu posso dizer que é inexplicável”, conclui Kina.



