
A fina camada que reveste os dedos de minhas mãos está levemente rasgada. Fazia tempo que eu não rastelava a terra. Foram quase dois meses fora do Acre. – “É que férias de professor é longa! ”. Emendo diante das surpresas com a duração do tempo da minha ausência/presença, como se o descanso sempre demandasse explicação – e demanda.
Queria escrever sobre mais uma conquista em um dos meus projetos de vida que é o de observar/participar de todas as festas populares que eu puder: o quase centenário Pau da Bandeira na Barbalha de Santo Antônio no Cariri cearense, que abre os festejos juninos.
Queria falar do meu retorno, dos maracás rasgando o ar, da colorida alegria em movimento na farda branca feminina idealizada pelo Mestre Irineu durante o trabalho de Santo Antônio, que abre o festival junino na tradição do Santo Daime. Queria falar como a fé dos outros me comove em tempos de tão pouca fé dentro de mim mesma. E como há beleza nisso.
Poderia escrever sobre o debate com a diretora Anna Muylaert na praça da Catedral de Cruzeiro do Sul após a exibição de “Que horas ela volta?”, sobre os bastidores das gravações das cenas em que Jéssica vai embora debaixo de uma chuva torrencial e da que Val entra na piscina dos patrões em ligação com a filha. Da resistência fantasiada de discordância de Regina Casé em gravar esta última e sobre como isso me toca: como uma mulher gigante também tem medo de ser grande, assim como eu pequenininha às voltas com meus medos de crescer mais um pouquinho.
Assim como as mulheres à minha volta. Demasiado humano, muito demasiadamente feminino. E uma coisa bonita que a telona faz: diminuir o uso das telinhas. Talvez o cinema seja uma das últimas alternativas coletivas que temos contra os algoritmos dementadores de almas.
“As estatísticas desabam sobre nós 1.459 feminicídios em 2024, o que equivaleria a quatro mulheres assassinadas por dia pelo fato de serem mulheres em uma sociedade que odeia mulheres, que odeia Marielle Franco, que odeia Marina Silva.”
Mas estou tergiversando. Adiando o momento de tratar o que o editorial me pede: violência contra mulheres no Acre. Dois feminicídios foram registrados no interior do estado em menos de dois dias, os suspeitos são um marido e um ex-marido. Os casos ocorreram na mesma semana em que o Ministério da Justiça lançou mais um Mapa da Segurança Pública.
As estatísticas desabam sobre nós 1.459 feminicídios em 2024 no Brasil, o que equivaleria a quatro mulheres assassinadas por dia pelo fato de serem mulheres em uma sociedade que odeia mulheres, que odeia Marielle Franco, que odeia Marina Silva, que não suporta que a existência feminina não atenda em cada detalhe de seu ser os mandamentos do patriarcado: fale baixo, não ria muito, cruze as pernas, não goze, abra as pernas quando eu mandar, não leia muito, não saiba demais, me sirva, me sirva, me sirva, me sirva.
Tenho doutorado nisso. Deveria falar com mais cientificidade, jogar um jargão acadêmico aqui, um juridiquês ali. Mas não tenho estômago. Quero falar como mulher. Que sente medo de voltar pra casa de noite, de conhecer novas pessoas, de viajar sozinha, que fica atenta se escuta um barulho diferente na vizinhança.
É claro que a gente vive, é claro que a gente vai com medo mesmo. Mas quem paga a conta desse corpo que convive dia e noite com níveis maiores de cortisol e adrenalina do que o esperado? O Mapa da Segurança Pública também demonstrou aumento nos crimes sexuais enquanto homicídios em geral e alguns crimes patrimoniais apresentam queda. Parece mesmo um projeto de sociedade.
É quase madrugada de domingo, estou voltando pra casa em condições que me fazem sentir segura. Passamos em frente a uma mulher sentada em uma parada de ônibus, sempre a vejo pela cidade, sei que está em sofrimento psíquico e que vive em situação de rua, mas não sei seu nome. Ela tem a coluna reta e sua mão está sob o queixo, como quem espera, como quem reflete.
Uma mulher sozinha na imensidão noturna. Mulheres em situação de rua, em sua maioria negras, estão muito vulneráveis a todo tipo de violência, inclusive as de gênero, mas dificilmente essas violências são registradas, nem nos dados da saúde, nem dos dados da segurança pública. Quando morrem, dificilmente as investigações chegam em algum lugar.
Aprendi na disciplina de Antropologia Urbana que um lugar não é apenas um espaço físico, mas um espaço significado, dotado de sentido. Um espaço simbolizado pela vida humana. Eu preciso desesperadamente significar este Acre de terra em que moro em algo mais do que um dos estados que mais mata mulheres no país. E por isso escrevo, mesmo sem saber direito do que estou falando. Este texto é um chamado para uma significação coletiva dessas violências.
Em Cruzeiro do Sul, dois jovens foram encontrados mortos com o coração arrancado. Com o coração arrancado. O que isso significa? O que os múltiplos golpes de faca e terçado nos corpos das vítimas de feminicídio significam? Que sentido daremos às nossas vidas esparramadas em cotidiano e rotina neste pedaço de Amazônia? Escrevo como quem rastela um terreno: para ver por debaixo das folhas caídas, para pisar melhor no chão.
Leonísia Moura
Professora do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul,, pesquisadora feminista e militante de direitos humanos.
leonisia.mouraf@gmail.com



