A Seringalidade Dois Ponto Zero e o seu Personagem: O “Orgulhoso” Colono Pecuarista Da Reserva

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No texto conclusivo de minha pesquisa acadêmica a qual titulei de Seringalidade – O Estado da colonialidade na Amazônia e os condenados da floresta (Valer, 2018), proponho outro modo de interpretar a formação histórica do Acre, o que vale dizer, no que culminou na sua atual e velha estrutura de poder, esforço este praticado sob o prisma dos pressupostos da teoria social critica modernidade/colonialidade.

A tese básica ali posta é a de que vivemos no Acre uma escala local do padrão de poder colonial – mais conhecido como colonialidade global – escala que cunhei de seringalidade. Esta, como a fase contemporânea iniciada pelo seringalismo. Este, como a sua gênese histórica que, como um fenômeno social, ainda perdura – ato contínuo – como uma inabalável estrutura profunda de poder colonial a nos governar.

Insisti ali em dizer que a forma do exercício de poder nesta região tem como fundamento a condição colonial que desde o início se baseia no tripé: exploração do trabalho, concentração fundiária e racialização dos povos da floresta, forte e expressa no colonialismo e sutil e mascarada, e tão potente quanto, na seringalidade.

É quando o estado-nação colonial local aliado ao sistema mundo moderno-colonial (este manifesto por dois de seus prepostos, as instituições financeiras multilaterais de desenvolvimento: BID e Banco Mundial), institui, por programas de governo, as ideias-dispositivos de desenvolvimento sustentável e de florestania, o que vou apontar como a fase Estado-barracão a manter e fortalecer aquela estrutura colonial em todos os seus termos e versões.

Quando o Governo da Floresta deixou de existir sendo substituído pelo chamado governo de direita de Gladson Cameli, escrevi um pequeno artigo na obra organizada por Israel Souza, Desenvolvimento Sustentável no Acre – Leituras Criticas (Eac, 2021), sob o título Seringalidade dois ponto zero(?), o que fiz só para dizer que com tal mudança tudo permanecia inalterado, o que não queria dizer que não tenha piorado, como, de fato, tudo só tem piorado com a gestão da direita que ainda se sustenta pelos alicerces da seringalidade de esquerda.

E piorado muito mais ainda com a gestão do desastroso desgoverno antidemocrático de Bolsonaro que, por longos quatro anos, abriu as porteiras para toda a boiada – literal e simbólica – passar por cima dos já carcomidos direitos sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais, esgarçando e aprofundando ainda mais a condição colonial sem qualquer vergonha e, nesse passo, quase culminando numa nova ditadura política no país.

O discurso e a prática do desenvolvimento econômico – que já na última fase do Governo da Floresta (Tião Viana) vinha se impondo sobre o da sustentabilidade – desponta no governo de direita com mais força sem qualquer preocupação retórica, diante de um movimento social, seja da floresta, seja da cidade, já em estado natimorto, graças especialmente aos quase vinte anos seguidos de cooptação que o enfraqueceu sobremodo.

De fato, quando já estava, está, tudo dominado, eis que o desastroso desgoverno antidemocrático de Bolsonaro se instala e se mantém por longos quatro anos, baseado na racionalidade moderno-colonial mais radical a operar como uma falsa alternativa política ao status quo já tão desfavorável aos condenados.

Contudo, muito embora aquele famigerado desgoverno antidemocrático não esteja mais na gestão do governo federal do país, permanece na caradura tal mentalidade na boca/ação da imensa maioria dos governos executivos e dos parlamentares locais, todos sustentados nas urnas por uma parcela importante da população seduzida pelo falso novo/diferente, quando a questão é de gradação (de proporção maior ou menor) da estrutura histórica da condição colonial. Do mesmo sob as cores do patriotismo oco, da falsa moralidade e do proselitismo religioso fundamentalista aliado ao partidarismo de extrema-direita. No Acre, é este estado de poder a nos dominar politicamente. É aqui onde estamos agora.

Se a seringalidade – versão esquerda – não tinha mais como piorar a condição colonial dos condenados senão mantê-la perfumada, a versão da direita achou uma forma numa proporção ainda pior até então inimaginável, especialmente porque apoiada fortemente numa base social tonta de uma ciência/consciência política histórica, porquanto por seu caráter politicamente autocolonizador.

Neste exato contexto, vemos que as reservas extrativistas, que seriam a última fronteira de seu símbolo, como exemplo da possibilidade de garantir dignidade aos condenados seringueiros (com direitos, é preciso dizer, garantidos somente aos reservados), está sendo implodida de modo a colocar frontalmente em cheque os seus fundamentos legais, quais sejam, o da garantia de subsistência digna dos extrativistas nativos e a da proteção ambiental, fato este que se revela publicamente com o caso da Operação Suçuarana, em que o ICMBio cumpre pontualmente decisão judicial na Unidade de Conservação Reserva Extrativista Chico Mendes, no município acreano de Xapuri.

Por esta porteira escancarada, a estrada de seringa vira pasto, isto é, a cultura de pecuária extensiva ali se instala como a saída para a “subsistência” não mais do seringueiro (abandonado como tal pelo estado-barracão da gestão de direita), mas agora do orgulhoso colono pecuarista, o novo personagem da seringalidade dois ponto zero, quem ganha o status politico-colonial de agente do desenvolvimento econômico, a ocupar o lugar do extrativista posto antes como agente do desenvolvimento sustentável. Ambos tornados instrumentos da colonialidade na Amazônia.

Este novo personagem exsurge, por necessidade, tanto de quem está dentro das reservas (com terra, mas sem condições de produzir numa proporção que a sedução capitalista lhe impõe), quanto de quem está fora (sem terra e tão seduzido quanto à mentalidade do velho e enganoso discurso do progresso/desenvolvimento econômico que nunca chega para si), o que acontece graças à cantilena dos governos coloniais deste paraíso-promessa de uma vida melhor para todos inalcançável pelos condenados no estado da colonialidade/seringalidade.



João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.

joao_veras@hotmail.com

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