
Por Leonardo das Neves Carvalho*
No último dia 16 de outubro, o Inpe divulgou a taxa oficial do Prodes 2026. O Acre registrou 252 km² de área desmatada, a menor taxa desde 2013 e o quinto ano seguido de queda. Esse resultado pertence a muita gente: técnicos, fiscais, brigadistas, policiais, bombeiros, produtores e comunidades que escolheram fazer diferente.
Mal os dados saíram e já surgiram notas tentando diminuí-los. Uma delas diz que, como a Amazônia Legal caiu 41,8% e o Acre caiu 22,2%, o estado teria ficado em “último lugar”. Outra atribui os bons números a uma tecnologia usada para “perseguir” quem produz. Respeito a crítica, mas ela merece resposta com números, não com ironia.
Uma tendência, não uma foto
Política pública se avalia pela trajetória, não por um ano isolado. Em 2022, o Acre desmatou 840 km². Depois vieram 601, 449, 324 e, agora, 252 km². São quedas anuais de 28,5%, 25,3%, 27,8% e 22,2%, sempre na mesma direção.
No acumulado desses quatro anos, o Acre reduziu o desmatamento em 70%. A Amazônia Legal inteira reduziu 71,2% no mesmo período. Ou seja, caminhamos no mesmo ritmo da região, com uma diferença: começamos a cortar antes.
Em 2025, por exemplo, o Acre caiu 27,6%, enquanto o Pará caiu 12,4% e o Amazonas, 16,9%. Neste ano, quem tinha muito mais a reduzir naturalmente caiu mais: o Pará saiu de 2.064 km², quase oito vezes o nosso desmatamento atual. Quem já está em patamar baixo tem menos espaço para quedas espetaculares, e isso não é demérito.
Quanto à “fatia” do Acre no desmatamento regional, é aritmética: quando os vizinhos caem mais rápido, a participação de quem já caiu sobe. A floresta, porém, não conta percentual de participação. Conta hectare. E, em um ano, deixamos de derrubar 72 km², o equivalente a cerca de 10 mil campos de futebol de tamanho oficial.
Meta cumprida é dinheiro que chega
O principal termômetro da nossa política é o Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas (PPCDQ-AC 2023–2027). Ele prevê reduzir o desmatamento em pelo menos 10% ao ano e em 50% até 2027. O Acre superou a meta anual em todos os anos de vigência do plano.
Para 2026, o limite previsto era de 467 km². Registramos 252 km², 46% abaixo do teto. O relatório oficial de monitoramento do plano, publicado pela Sema, mostra resultados acima da meta já em 2023, 2024 e 2025.
Isso não é detalhe técnico. O PPCDQ é o balizador dos financiamentos climáticos que o Acre recebe. Entre 2018 e 2021, o desmatamento passou do limite contratual de 330 km² do Programa REM, e os desembolsos da Alemanha e do Reino Unido ficaram travados.
Foi a atualização do PPCDQ, com compromissos claros, que destravou cerca de 6 milhões de euros para o REM Acre Fase II. O mesmo plano orienta o projeto Acre Rumo ao Desmatamento Ilegal Zero, apoiado pelo Fundo Amazônia em quase R$ 98 milhões. Hoje, com 252 km², estamos bem abaixo daquele limite que um dia nos custou recursos.
Esse dinheiro não fica em gabinete. Ele chega a brigadistas, indígenas, extrativistas e produtores familiares com base em uma estratégia de repartição dos benefícios. Cada quilômetro quadrado preservado fortalece a credibilidade do Acre para atrair mais investimento.
O Programa REM (REDD Early Movers) e o Fundo Amazônia são as duas principais fontes de financiamento internacional por pagamento por resultados (REDD+) aplicadas no Acre. O PPCDQ-AC é o instrumento do governo estadual que articula esses recursos no território.

O PPCDQ-AC como espinha dorsal
O plano define as metas, o plano de ação e a estratégia de conservação. O REM e o Fundo Amazônia financiam as ações previstas em seus quatro eixos:
1 – Ordenamento fundiário e territorial: regularização e gestão do uso do solo.
2 – Incentivos econômicos aos sistemas produtivos sustentáveis: fomento ao extrativismo e à produção sustentável.
3- Comando e controle ambiental: fiscalização, monitoramento e combate a ilícitos ambientais.
4 – Gestão e governança: fortalecimento institucional e transparência
Resultados no combate ao desmatamento
- Superação contínua das metas do PPCDQ-AC 2023–2027, com quedas anuais de 28,5% em 2023, 25,3% em 2024 e 27,8% em 2025.
- Taxa Prodes de 252 km² em 2026, queda de 22,2% frente aos 324 km² do período anterior e cerca de 46% abaixo da meta do ciclo.
- Queda de cerca de 15% nas emissões por mudança de uso da terra entre 2023 e 2024. A degradação florestal e as queimadas seguem como desafio e são prioridade do plano.
Impactos além do controle do desmatamento
- Floresta em pé valorizada: incentivos a cadeias sustentáveis como castanha, borracha, açaí e manejo florestal, reduzindo a pressão sobre novas áreas.
- SISA consolidado: o Acre virou referência global em REDD+ jurisdicional, com transparência na repartição de benefícios.
- Inteligência ambiental: equipamentos e tecnologia para o CIGMA/SEMA, ampliando a capacidade de resposta a infrações.
- Governança: acompanhamento regular das metas pelo Comitê Gestor Institucional (CGI) do PPCDQ-AC e mecanismos digitais de transparência.
- Integração federal: alinhamento com o PPCDAm e com ações integradas do Ibama e do ICMBio.
Ninguém faz isso sozinho
Nenhum desses números é obra de um órgão só. No eixo de comando e controle, o Grupo Operacional de Comando e Controle (GOCC) reúne instituições estaduais, municipais e federais, do planejamento à ação no território. Por exemplo, a Operação Contenção Verde, coordenada pela Casa Civil desde fevereiro de 2025, junta Sema, Imac, Polícia Militar, Bombeiros, Polícia Civil, Gefron, Ciopaer, Defesa Civil, Ibama e ICMBio.
Os resultados aparecem no campo. Em 2024, foram 1.068 áreas vistoriadas, 101 ações integradas, 164 pessoas presas em flagrante e 35 máquinas apreendidas. Brigadistas comunitários formados pelo Estado hoje protegem as nossas unidades de conservação do fogo.
Para que essa integração não dependa de boa vontade, criamos em lei o Sistema Integrado de Meio Ambiente e Mudança do Clima (SIMAMC), pela Lei nº 4.749/2025. Ele coloca Sema, Seagri, Sepi, Imac, IMC, Iteracre e Defesa Civil para trabalhar com informações e metas compartilhadas a partir de uma visão estratégica do território. Meio ambiente, agricultura, terra e povos indígenas passam a sentar na mesma mesa.
E a tecnologia? Ela não persegue ninguém. O monitoramento por satélite separa o produtor que trabalha dentro da lei de quem desmata ilegalmente. Quem cumpre a lei é o primeiro a ganhar quando o Estado sabe distinguir uma coisa da outra.
Desmatar não é sinônimo de produzir
Ainda há quem acredite que, para o Acre crescer, é preciso derrubar mais floresta. Os números dos últimos anos desmentem essa ideia. Em 2023, segundo o IBGE, o Acre teve o maior crescimento do PIB do Brasil: 14,7%, quase cinco vezes a média nacional de 3,2%.
E quem puxou esse crescimento foi justamente a agropecuária. Segundo o IBGE, o rebanho bovino chegou a 5,19 milhões de cabeças em 2025, e o abate de bovinos cresceu 14,3% no ano. A safra de grãos deve chegar a 204 mil toneladas em 2026, alta de 9,3%, enquanto a área plantada cresceu só 4,3%. Tudo isso enquanto o desmatamento caía 72% entre 2021 e 2026, de 889 para 252 km².
Isso tem nome: produtividade. Produzir mais na área que já está aberta, com tecnologia, assistência técnica, regularização fundiária e crédito. O planeta também agradece: as emissões do Acre por mudança de uso da terra caíram de 39,9 para 33,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente entre 2023 e 2024.
Há ainda o mercado. Os grandes compradores exigem cada vez mais a garantia de que carne, grãos e madeira não vêm de desmatamento. Desmatamento baixo não é ameaça ao agro acreano; é o passaporte dele para vender melhor.

O caminho continua
Não tenho a ilusão de que o trabalho acabou. A degradação florestal e o fogo ainda nos desafiam, e o próprio relatório do PPCDQ aponta onde precisamos avançar. Reconhecer isso faz parte de uma gestão séria.
Mas é preciso dizer com clareza: o Acre está no caminho certo. Estamos desmatando menos, produzindo mais e atraindo recursos porque cumprimos o que prometemos. A porta do diálogo com o setor produtivo segue aberta, porque esse resultado também é dele.
O futuro do Acre não está em escolher entre floresta e desenvolvimento. Está em provar, ano após ano, que as duas coisas andam juntas. E os números mostram que já estamos fazendo isso.
