Zorós aprenderam mudanças climáticas com os mais velhos

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Zorós aprenderam mudanças climáticas com os mais velhos

Montezuma Cruz
Dos varadouros de Cacoal, Rondônia

No começo do ano, quando a árvore murici floresce, os Zorós preparam o roçado na mata, após pequenas derrubadas. Muitas estrelas grandes visíveis no céu indicam o começo do período frio, o fim da chuva e a continuidade do roçado. Para eles, a explicação da mudança climática vem desde os mais velhos, que notaram a fumaça da queimada deixando o ar quente. “Tudo isso vem acontecendo por causa do jeito de viver do povo não-indígena que desmata e queima para criar gado e plantar grandes roças de soja” – lamentam sem demonstrar dúvidas.

O conteúdo desse calendário faz parte da cartilha “Nós, Pangyjég Zoró” (Nossa terra e s mudanças climáticas), apoiada pela Forest Trends, fruto de oficinas para formação de mediadores culturais no Corredor Etnoambiental Tupi Mondé.

Segundo a percepção Zoró, a consequência do desequilíbrio resultou em chuvas fortes, com inundações, onde chovia pouco. E onde a temperatura era amena, se tornou alta ou muito fria.

Os autodenominados Zorós habitam sua terra com 355,78 mil hectares no (demarcados em 1991), no município de Rondolândia, região noroeste de Mato Grosso, divisa com Rondônia, próxima a Cacoal, fazendo divisa com a T.I. 7de setembro, dos Paiter Suruí.

No final do ano, com chuva, eles coletam castanha, fazem rituais religiosos e colhem milho. “Um período longo” – aponta a cartilha.

Os antigos transmitiram às novas gerações que anteriormente (na fase de ocupação de Rondônia e do noroeste mato-grossense) não existia fenômeno climático “tão forte”. “Aqui viviam diversos povos indígenas e cada qual cuidava da natureza em seu território.

Nos anos 1970, Zorós e Paíter Suruí tiveram conflitos e se enfrentaram. A razão mostrou-lhes que poderiam unir-se contra usurpadores de seu território. E assim o fizeram: parte deles concentrou-se em Rondolândia, onde convive em paz com antigos líderes guerreiros Paiter, entre eles, Ipatara, que tem mais de 70 anos de idade. Juntos, participam de assembleias estaduais indígenas.

“Temos medo de ficar como brancos”

“Pensamos em nosso povo, temos medo de ficarem como brancos”, diz o professor Waratan Zoró. Ele propõe que todos vivam bem com suas roças obtendo autonomia.

“Queremos que a natureza não seja destruída, que a floresta seja deixada inteira, porque assim muitos animais vão viver e se reproduzir. Se nosso povo deixar invasores entrarem, eles irão matar bichos em vez do povo caçar e comer” – apela Waratan.

“Hoje vivemos bem com os outros povos, antes éramos rivais, hoje somos amigos”, reconhece.

O professor gostaria que no futuro o seu povo conseguisse se alimentar e vender seus excedentes, algo que já ocorre os Cintas-largas que comercializam castanhas, e os Paiter que negociam café orgânico via associação cooperativa.

“Cuidando do estudo (educação) andaremos do lado da outra cultura. Temos que cuidar do estudo, ser bilingues; é muito bom entendermos nossa cultura e as outras, devemos entender, comportar e analisar o que é bom e o que é ruim nas culturas diferentes. Não queremos que o nosso povo perca a sua língua” – acrescentou.

Sinais da natureza, segundo os antigos

Natureza, segundo os Zorós (Foto Reprodução)

Batráquios – O sapo Beab avisa a chegada das primeiras chuvas. Começamos a plantar.

Insetos – Txivek, uma pequena e comprida cigarra, quando voa rasante pela aldeia, é porque tem bicho gordo na mata. Ela “carrega a banha” e coloca nos animais. O canto do gafanhoto acompanha a seca.

Lua – Quando acontecia eclipse na lua é sinal que viria muito sangue e mortes. A lua deitada no céu significava que alguém da comunidade iria falecer. Mulheres e meninas acompanhavam a posição da lua, sabiam que iriam ganhar nenê, e as meninas que iriam ficar menstruadas. Um círculo em volta da lua significava que haveria guerra e que a perderiam. Todos ficavam em desespero e atentos esperando o inimigo chegar.

Estrelas – Djap Txibô, a estrela cadente, quando aparece, é porque alguém vai aparecer para guerrear. Então, se mudava a aldeia de lugar. Zoika Tia, a estrela, quando muda de lugar no céu, é verão. Quando as Plêiades aparecem no meio do céu, é porque vai chover. Elas giram e somem. Aparecem e desaparecem para contar o tempo. A Estrela Dalva (planeta Vênus) pertinho da lua significa que haveria casamento. A Estrela Dalva distante da lua era aviso que recém-casados não se amam e que haveria separação.

Pássaros – Existe um tipo de rolinha que quando canta anuncia ao Povo Zoró o início da seca. Quando a chuva parou em maio, a rolinha nem cantou. Pelo canto do passarinho no período certo, o Povo Zoró sabia quando ia chover. As pessoas levantavam prestando atenção em quantas vezes o passarinho cantava naquele momento. Quando ele cantava uma, duas ou três vezes, elas sabiam que iria chover em até três dias.

Plantas – As flores de urucum e de murici avisam que o frio está chegando.

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Um exemplar da cartilha este repórter recebeu de Maria Barcelos, a conhecida Maria dos Índios, de Cacoal, que há mais de quatro décadas estuda a vida dos povos indígenas no Aripuanã e por diversas vezes contribuiu com publicações desse porte. Os textos da cartilha são dela e desta equipe: Agnaldo Zawandu, Alfredo Sep Kiat Zoró, Carlos Xipipa Zoró, Carlito Tandat Karej Zoró, Edilson Waratan Zoró, eJoel Zap Kalaia Zoró,

Foto da apresentação da matéria: Acervo Funai

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