
Na América Latina, vivemos sob sistemas hegemônicos de conhecimento e de poder frutos de um processo de construção histórica iniciado com a chamada conquista das Américas no século XVI e que se mantém, na sua forma visível, como razão moderna e, na invisível, como razão colonial.
Consumindo e também reproduzindo, em grande medida inconscientemente, os saberes e as estratégias de poder fundados em tais sistemas, temos sido, em razão deles, forjados em um tipo de sujeito social, o sujeito colonizado e, assim, racializado.
Quando, há mais de 500 anos, os portugueses e espanhóis invadiram estas terras do Hemisfério Sul do Planeta, eles não só mataram, exploraram e escravizaram grande parte das pessoas que aqui viviam, como procuraram destruir suas cosmologias, seus saberes, suas crenças e modos de organização social, impondo, em seus lugares, como superior e universal, a sua cultura – a cultura européia – suas formas de conceber o mundo, suas línguas, suas religiões, seus modelos de organização social…
O que chegou aqui não se reduz a um sistema de vida baseado na ânsia mercantil e salvação das almas pagãs. Chegou um projeto de ser social determinado. Um ser humano heterossexual/branco/cristão/militar/capitalista/europeu/racista/patriarcal/autoritário.
E foi esse ser que estabeleceu, a partir de então, que o seu diferente seria um não-ser, pois passaria à condição de inferior, senão, enquanto humano, invisível. O que seria fundamental para o funcionamento e manutenção dos mecanismos de controle e dominação social e exploração do trabalho humano e da natureza.
Quando o sistema formal do colonialismo acabou – em razão dos processos de independência política das colônias – subsistiu em pleno vigor a razão colonial, desta feita já plenamente constituída como um padrão global de poder – a Colonialidade – que se mantém até hoje trasvestido de promessa de Modernidade numa relação de dominação – física e mental – no ambiente geopolítico de um Sistema-Mundo – o moderno-colonial – fundado em um centro – como a totalidade que governa o mundo – e suas periferias, o seu resto governado.
Tal construto mental colonial – que é sustentado por dispositivos institucionais como estado, escolas, mídias, igrejas… – nos fez e faz racializados e racistas, além de homofóbicos, patriarcalistas…
Ao mesmo tempo em que, racializados, sofremos com a racialidade, a reproduzimos e a mantemos – como que vítimas e também algozes de si.
Com ele, aceitamos irrefletidamente a idéia de que existem tipos de pessoas, povos e lugares que são naturalmente – o que quer dizer desde sempre – inferiores, subalternos, subordinados, atrasados, subdesenvolvidos.
Este enquadramento é sempre relacional. Binário. Existe o inferior porque existe o superior. Este, o branco, aquele, as pessoas cuja pele se revelam de cor negra/parda, as de etnia indígena, as mulheres, os homossexuais, os pobres, os lixeiros, as empregadas domésticas, os latino-americanos (nós brasileiros não nos incluímos como latinos) – como os bolivianos, peruanos, os venezuelanos…
Por esta lógica, inferiores são considerados também os continentes/povos latino-americano e africano, em relação ao europeu e norte-americano; os países Bolívia, Peru, Paraguai, em relação ao Brasil e Argentina; o estado do Acre, em relação a São Paulo, Rio Grande do Sul; o município de Santa Rosa do Purus, em relação a Rio Branco; o bairro da Sobral em relação ao do Ipê…
Por esta lógica binária, dicotômica e hierárquica, nos é apresentado um ponto – o modelo (normalmente posto como neutro e acima de tudo) – a partir do qual emana toda a referência modelar do que seja o ser (e o saber) superior (racional, moderno, civilizado, desenvolvido) e também, por relação, o inferior (irracional, tradicional, primitivo, subdesenvolvido).
Isso está colado na nossa mente. É um construto mental. Temos sido, enquanto regiões, povos e pessoas, modelizados por este sistema. Isso acontece geograficamente de fora pra dentro e se reproduz, se retroalimenta e se mantém internamente na forma de colonialismo interno.
Essa categorização exerce uma função essencial para o controle e a exploração do trabalho e das regiões. Nesse sentido, é fundamental para o capitalismo (como sistema econômico, sem deixar de cultural) e para a colonialidade (como sistema cultural, sem deixar de econômico) a manutenção e reprodução das razões modernas e coloniais.
São lições do discurso religioso (os cristãos têm como representante um homem hetero, branco e de olhos azuis); da educação formal em que o branco hetero é comumente posicionado como um superior (porque produz conhecimento, porque ocupa poder, porque controla a palavra).
Aprendemos isso por uma educação cotidiana dos discursos/imagens da indústria cultural e da mídia – através das novelas e dos filmes (em que negros são sempre os criados e inferiores e os brancos seus patrões), nos comerciais (em que os brancos são sempre os modelos da superioridade, do sucesso e da beleza – inclusive suas mulheres brancas como objetos) e nos telejornais (em que os negros são sempre os bandidos e os brancos as autoridades). Aprendemos isso com a historiografia cuja versão preponderante é a do colonizador que domina as versões oficiais e as hegemoniza e as sintetiza em seus heróis brancos.
Com esta mentalidade, temos sido levados a acreditar que a única possibilidade de organização social é o Estado-Nação e sua democracia; que a única forma de religião é a cristã; que o único modelo de economia é o constante do modo de produção capitalista, e que a única forma de conhecimento válido advém da ciência, que a única maneira de relação de trocas advém do sistema mercantil.
Pensando assim, eliminamos as outras possibilidades, inclusive as tratando como algo inexistente. Pensando assim, negamos a diversidade de experiências humanas já provadas e ainda por serem provadas. E assumimos a cultura euro-norte-americana (de onde todo saber provém) como universal, o modelo a ser copiado, como modo de viver a ser perseguido, eis que superior em detrimento de outro qualquer visto que, seja qual for, inferior, atrasado.
A idéia de desenvolvimento – epistemologia-mor dessa razão moderno-colonial e que se traduz avançado, moderno, melhor… – é essencial para a manutenção dessa mentalidade.
O desenvolvimento significa sempre algo que nos elevará ao bom, ao útil, ao melhor. Acostumam-nos com a idéia de que existem países, pessoas e organizações que são desenvolvidas – os europeus e norte-americanos são colocados no cume desta categoria. Na base dela, os latinos-americanos, os africanos… O que é tido, segundo essa visão, como marca de origem histórica.
Destarte, devemos sair – numa linha histórica linear – dos estágios primitivo, bárbaro, atrasado para os estágios apresentados como opostos e superiores, do moderno, civilizado, desenvolvido.
Ensinam-nos que temos que seguir as orientações dos desenvolvidos para um dia nos livrarmos da condição histórica de imaturidade própria de um subdesenvolvido. Isto vem de longíssima data, da “ordem e progresso” fincado na nossa bandeira ao eterno “país do futuro” rumo ao desenvolvimento, para ficar num período histórico mais recente.
O receituário do desenvolvimentismo – em suas mais diversas faces – tem nos sido ofertado há mais de 500 anos. Se ainda não o somos, isto se dá, apontam-nos, é por nossa exclusiva responsabilidade, o que – para eles e também para nós- denota incompetência (por nossa “imaturidade culpável”), coisa resultante de mentalidade colonial, portanto subdesenvolvida.
É por isso que devemos continuar insistindo tenazmente em viver nos alimentando de seus modelos de vida, de suas lições de como nos organizar, pensar e tratar o que é nosso. Estabelecem que não existe país desenvolvido sem um povo educado, mas de quê educação nos falam? Esta que nos tem imobilizado na condição colonial?
Essa prometida e imposta desde o início?
A razão moderna defende que a Amazônia precisa ser desenvolvida, o que significa fundamentalmente tratar o meio ambiente amazônico, seus produtos e seus povos, como recurso rentável a ser manipulado de acordo com a última palavra da ciência e do mercado da sustentabilidade.
Tal razão nos tem orientado a tratar a floresta com sabedoria, como se a temos tratado sem, logicamente, a deles. De que sabedoria se está falando? Só é legítima a sabedoria da razão moderna, a do resto não. E assim, ensinam a pensar como pensam as coisas e as pessoas – na verdade, ensinam a pensar do modo como gostariam que pensássemos.
Seduzidos, vivemos o tempo todo querendo ser e viver como nos receitam. Todavia, historicamente – pelas razões moderno-colonial – não temos saído do lugar, do lugar do colonizado, do colonizado racializado, do colonizado explorado, do colonizado controlado – a não ser, talvez, os poucos capatazes nacionais – seus agentes – que têm executado suas lições com competência moderna.



