GUARDIÃO DO PURUS

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Shinewedi, pajé e guardião dos saberes do povo Jaminawá, morre aos 107 anos

O pajé Shinewedi, uma das principais lideranças espirituais e políticas do povo Jaminawá da Bacia do Purus (Foto: Acervo)



Lideranças da comunidade afirmam que sua passagem deixa um vazio espiritual, já que não havia sucessores plenamente formados para dar continuidade direta à linhagem de pajelança que ele representava. Ele partiu sem ver o sonho da demarcação dos territórios Jaminawá do Purus ser realizado.


dos varadouros de Rio Branco

O pajé Shinewedi, uma das principais lideranças espirituais e políticas do povo Jaminawá no Acre, morreu no dia 26 de fevereiro de 2026, aos 107 anos. Nascido em 1919, nas cabeceiras do rio Chandless, na fronteira com o Peru, ele atravessou mais de um século de profundas transformações na vida indígena e se tornou uma referência na preservação da cultura e da memória de seu povo.

Conhecido também como Oscar da Silva Jaminawá, Shinewedi era reconhecido como uma ponte entre o mundo visível e o invisível. Mais do que curandeiro ou conselheiro, desempenhou o papel de guardião dos rituais, das medicinas da floresta e das narrativas ancestrais que orientam a vida espiritual e social dos Jaminawá. 

Ao mesmo tempo, atuou como liderança política em momentos decisivos, mediando conflitos e participando de processos de defesa e demarcação de territórios tradicionais.

Nos últimos anos de vida, concentrou sua atuação na luta pela demarcação da Terra Indígena Kaiapuka, considerada por ele fundamental para a continuidade cultural de seu povo. A aldeia Kaiapuka está localizada no município de Boca do Acre (AM), a cerca de oito horas de barco pelo rio Purus a partir de Sena Madureira (AC). Foi ali que decidiu permanecer até o fim da vida e onde, segundo a tradição Jaminawá, seu corpo retorna agora à terra como semente.

A morte de Shinewedi marca o encerramento de um ciclo. Lideranças da comunidade afirmam que sua partida deixa um vazio espiritual, já que não havia sucessores plenamente formados para dar continuidade direta à linhagem de pajelança que ele representava. O desafio, segundo eles, será manter vivos os rituais e os conhecimentos transmitidos oralmente em um contexto de crescente pressão sobre os modos de vida indígenas.

Além de sua atuação como pajé, Shinewedi foi também um importante narrador da história de contato entre os Jaminawá e a sociedade não indígena. Seus relatos sobre os primeiros encontros e conflitos com seringueiros e outros agentes da colonização foram registrados por pesquisadores e ajudam a compreender as transformações vividas pelos povos de língua pano na Amazônia.

Entre os estudiosos que analisaram seus depoimentos está o antropólogo espanhol Oscar Calavia Sáez, autor do livro “O nome e o tempo dos Yaminawa – Etnologia e História dos Yaminawa do Rio Acre”. Em suas pesquisas, ele destaca a importância das narrativas de anciãos como Shinewedi para a compreensão dos mitos, das cosmologias e da história desse povo.

Segundo Calavia Sáez, os mitos Yaminawá – conhecidos como shedipawó, ou “histórias dos antigos” – descrevem mundos habitados por seres que vivem no céu, na floresta e nas águas. Esses relatos condensam as concepções espirituais que orientam a relação do povo com a natureza e com os espíritos.

Em um registro feito pelo antropólogo em 2006, Shinewedi relatou mudanças provocadas pelo contato com os não indígenas. Segundo ele, em tempos antigos, os Jaminawá viviam em malocas e não falavam português. Em determinado momento, uma criança teria sido levada e criada entre os brancos; ao retornar já adulta, passou a atuar como intermediária, explicando aos povos da floresta que os recém-chegados vinham em paz.

Narrativas como essa ajudam a reconstruir a memória do contato e das transformações ocorridas nas regiões dos rios Acre, Purus, Yaco e Caeté, onde hoje vivem diversas comunidades Jaminawá, especialmente nos municípios de Sena Madureira e Rio Branco.

Para o povo Jaminawá, no entanto, o legado de Shinewedi ultrapassa os registros acadêmicos. Ele permanece nas práticas de cura, nas histórias transmitidas nas aldeias e na luta contínua pela terra e pela identidade cultural.

Segundo a tradição, o espírito de um pajé não desaparece com a morte. Ele segue o caminho dos antigos e continua a orientar os vivos. Para seus parentes e discípulos, Shinewedi retorna agora à floresta que o formou — e de onde sua memória seguirá presente entre as próximas gerações.




A luta pela demarcação

Do Alto ao Baixo Iaco, áreas que hoje formam o município de Sena Madureira têm ocupação ancestral dos Jaminawa e Manxineru (Foto: Agência de Notícias do Acre)



Apesar de estarem em grande quantidade em Sena Madureira, os Jaminawá ainda  enfrentam  graves problemas nos processos de demarcação de seus territórios. Além da TI Kaiapuka, eles ainda aguardam a homologação final das TI São Paulino, da Ti Riozinho do Yaco (que dividem  com os Manxineru)  e da  TI  Jaminawá do Alto  Rio Caeté.

Essas duas últimas estão em processo mais avançado. Em novembro, durante a COP-30 em Belém, a presidência da Fundação Nacional os Povos Indígenas (Funai) publicou a portaria com  a aprovação  do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID)  da TI  Riozinho  do Yaco. Todavia,  a demarcação do território enfrenta questionamentos na Justiça por pessoas que afirmam  ser proprietárias das áreas que formam o antigo Seringal Guanabara, onde estão  as aldeias Jaminawá e Manxineru. 

Em  abril de 2023, a Funai autorizou a criação  do Grupo de Trabalho  (GT)  para acelerar a demarcação da TI  Jaminawá  do  Alto Rio Caeté.  Conforme Varadouro apurou, todo o processo de elaboração do RCID – assim como  o Relatório  Fundiário – já foram concluídos.     

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