
dos varadouros de Rio Branco
Neste 15 de junho, o Acre completa 64 anos de emancipação política. Foi nesta data, em 1962, que deixamos a condição de território federal para nos tornarmos um Estado da República Federativa do Brasil. Era o reconhecimento de uma longa luta Autonomista e de um sonho coletivo: o de construir um Acre capaz de decidir os próprios rumos e escrever a sua própria história.
Mas aniversários não servem apenas para celebrar. Servem também para refletir.
Passados 64 anos, a pergunta que se impõe é simples e desconfortável: o que temos a comemorar?
O Acre atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história recente. Em meio a crises econômicas, sociais, ambientais e institucionais, cresce entre a população a sensação de estagnação e desencanto. O sentimento de pertencimento que ajudou a forjar a identidade acreana parece, em muitos momentos, ceder espaço à desesperança.
Nesse contexto, o desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, transcende a dimensão de uma tragédia de engenharia. A estrutura que ligava as margens do rio Iaco – um dos rios que ajudaram a construir a história e a identidade do povo acreano, cujos barrancos são a moradia de indígenas e seringueiros – tornou-se um símbolo eloquente do tempo presente.
Um tempo de franca decadência. De letargia. De paralisia.
A ponte caiu. E junto com ela vieram abaixo muitas das narrativas de eficiência, planejamento e compromisso com o interesse público.
Não basta atribuir a tragédia ao fenômeno natural da terra caída. Os barrancos dos rios amazônicos sempre se moveram e continuarão se movendo. Faz parte da dinâmica da floresta, dos rios e da própria Amazônia. Obras públicas executadas com responsabilidade deveriam levar essa realidade em consideração desde o planejamento até a execução.
Quando uma ponte de dezenas de milhões de reais desaba poucos anos após sua entrega, a explicação não pode ser buscada apenas na natureza; o caminho mais fácil para se eximir de qualquer responsabilidade.
É necessário investigar responsabilidades, cobrar transparência e exigir respostas compatíveis com a gravidade do ocorrido. Este grave crime praticado contra o erário do povo acreano não pode cair no esquecimento – muito menos na impunidade.
A imagem da ponte partida ao meio tornou-se uma metáfora dolorosa de um Acre que parece ter perdido parte de sua capacidade de sonhar coletivamente. De se rebelar, de indignar, de se revoltar. Aquele povo que 100 anos atrás pegou em armas para travar uma guerra contra o exército boliviano para que este território fosse brasileiro para ter perdido a capacidade de revolucionar.
Parece que a Revolução Acreana ficou apenas nas páginas dos livros de História.
De Gálvez a Chico Mendes, passamos a perder o nosso “brio de novo ofender”, como diz a letra do Hino Acreano.
O desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari simboliza o desgaste das instituições, o enfraquecimento do debate público, os sucessivos escândalos que corroem a confiança da população e a incapacidade de transformar recursos públicos em melhorias concretas para a vida das pessoas. Em um Estado pobre como o Acre, cada centavo público deve ser gasto com o máximo de zelo.
Ao que tudo indica, a terra caída já não está apenas às margens dos rios e igarapés.
Ela parece avançar sobre o próprio projeto de sociedade e de Estado que construímos ao longo das últimas seis décadas.
O Acre parece estar desmoronando junto com os barrancos do Iaco, do Purus, do Envira, do Tarauacá e do Juruá.
Ainda assim, a história do Acre ensina que nenhum ciclo é permanente. Foi da resistência dos povos indígenas, dos seringueiros, dos trabalhadores rurais, das mulheres e homens que ocuparam estes varadouros que nasceu a capacidade acreana de enfrentar adversidades – de ser um povo resiliente.
Talvez o maior desafio destes 64 anos não seja celebrar o que somos, mas reconstruir aquilo que estamos deixando ruir.
Porque nenhuma ponte caída pode ser o destino de um povo inteiro.
E porque, apesar dos escombros que hoje vemos, o Acre continua merecendo um futuro melhor do que este presente de decadência.



